Um dos maiores fenômenos da cultura pop recente, responsável por alavancar o gênero de fantasia medieval e trazê-lo de volta ao mainstream (de maneira que não se via desde o fim da franquia O Senhor dos Aneis), Game of Thrones acompanha o fictício reino de Westeros e o jogo político de uma época conturbada, envolvendo maquinações, traições e relações de poder extremamente complexas.

No centro dos acontecimentos da trama, três famílias nobres formam os núcleos principais: as casas Stark, Targaryen e Lannister e quase todos os enredos se deparam de alguma forma com o envolvimento direto ou indireto de algum membro dessas famílias. Para além das intrigas políticas, o universo de Game of Thrones ainda inclui elementos sobrenaturais como magia, dragões, lobos gigantes e mortos-vivos que interferem também nas intrigas humanas.

Com referências históricas extremamente sutis e grande amplitude de cenários, a obra possui uma enorme gama de personagens, aos quais o autor não hesita em dar grandes mortes quando necessário, e essa facilidade em promover mortes de personagens queridos pelo andamento do roteiro é uma das características mais bem lembradas da série de livros pelo público.            

Com sua primeira exibição indo ao ar em 17 de abril de 2011, a série teve uma recepção muito positiva, com a primeira temporada tendo 90% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes e 96% de aprovação do público na mesma plataforma. Daí em diante, temporada após temporada, a série angariou cada vez mais público e arrecadando 59 emmys ao longo de suas oito temporadas.

Motivos do sucesso

Adaptação da série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, de autoria de George R.R. Martin, a série tem como um dos motivos de seu sucesso o alto investimento e a dedicação da equipe em adaptar a obra da melhor forma possível. Com personagens muito sólidos e diversos, o material original por si só já traz um universo amplo e repleto de minúcias, das quais os produtores só se beneficiaram, apesar da complexidade de adaptação de tantos personagens, em tantos cenários diferentes.

A palavra que melhor define o sucesso de Game of Thrones em relação a outras mídias do mesmo gênero é: diversidade. R.R. Martin confere a seus personagens uma enorme diversidade, tanto na etnia e nos fenótipos que nos são apresentados, quanto no gênero e sexualidade, e principalmente em fatores mais subjetivos, como a construção da personalidade e de trejeitos próprios a estes.

A própria estrutura de narração dos livros, com capítulos organizados em pontos de vista de personagens específicos é um dos grandes acertos da saga, que além de ampliar os limites geográficos que podem ser abarcados na obra, ainda faz com que o leitor crie identificação a nível de apego com os personagens. E é esse apego e identificação que fazem com que o leitor sinta o peso de cada morte, mesmo que seja pelo bem da narrativa.

A diversidade conferida aos personagens é também um dos grandes fatores do sucesso da trama. Vale salientar que essa diversidade se aplica em fatores estéticos e na construção da psique de cada personagem, de maneira a criar certa identificação e apego com os personagens. R.R. inova ao trazer bom desenvolvimento de personagens que fujam do padrão “homem branco heterossexual da nobreza”, padrão extremamente comum dentro do gênero de fantasia medieval, extremamente eurocentrado.  

No que diz respeito à série, uma vez que a HBO tinha em mãos um ótimo material, já com certa fama e uma fanbase bem estabelecida, o alto investimento e a fidelidade inicial foram fundamentais para alçar Game of Thrones ao fenômeno pop que é hoje.   

Adaptação do enredo

Em relação ao material original, pode-se afirmar o quanto a qualidade da adaptação nas cinco primeiras temporadas foi fiel na medida do possível. Enquanto produção audiovisual, trouxe cenários exuberantes condizentes com as paisagens descritas nos livros; os figurinos e a escolha de atores (apesar da mudança de idade dos personagens em alguns núcleos[1]) para os personagens principais também foi fundamental para o sucesso da série, sendo um excelente trabalho visual que homenageia ricamente o universo descrito nos livros.

A trilha sonora também é marcante, fazendo apelo ora ao grande público do sofá (quem não lembra da icônica abertura da série, repetida à exaustão em cada novo início de temporada?) ora aos fãs dos livros (que reagiram e se emocionaram com canções descritas na obra, como Rains of Castamere). Sendo assim, temos até a quinta temporada, uma boa adaptação de uma obra até então em desenvolvimento. Em hiatus desde 2011 (no Brasil, desde 2012), As Crônicas de Gelo e Fogo aguardam pela finalização de seu sexto volume, ao passo de que o quinto livro, A Dança dos Dragões teve sua adaptação finalizada na quinta temporada e início da sexta.

A brecha entre o lançamento do sexto volume – já intitulado como Ventos do Inverno – e a continuação da série, tornou-se um grande obstáculo para os produtores, David Benioff e D. B. Weiss, e mesmo que R.R. Martin seja produtor e consultor, cabia a eles decidir os rumos da trama após o fim da fonte original. O resultado disso é que ao longo das temporadas, optou-se por não incluir alguns personagens cujos núcleos seriam fundamentais para os livros chegarem no ponto em que a narrativa parou em A Dança dos Dragões. Sem esses núcleos, a trama foi tomando um caminho diferente, e os roteiros da sexta à oitava temporada foram baseados em capítulos já liberados do sexto livro juntamente com uma trama original.

A sexta temporada tem um ranking de avaliação da crítica de 94%, contra 93% de satisfação do público na mesma plataforma. Já a sétima temporada continua sendo bem avaliada pela crítica, mas cai um pouco no conceito do público, alcançando 82%. Mas é na oitava temporada que o roteiro se perde completamente e alcança uma nota de 54% pela crítica e uma aprovação de meros 30% pela audiência. Vale salientar que a última temporada teve a maior audiência mundial, em 2019, e dois anos depois, quase não se ouve mais falar desse grande fenômeno e suas implicações. O que deu errado em Game of Thrones, a ponto de cair no esquecimento tão rapidamente?

Onde falhou Game of Thrones?

Uma adaptação dá liberdade a seus produtores para fazer as modificações necessárias para que a história ali contada seja melhor otimizada de acordo com cada plataforma. No entanto, algumas escolhas podem comprometer detalhes importantes, que acabam por dar um novo rumo à trama, e parece ter sido esse o grande erro dos produtores D&D com Game of Thrones. A supressão de certos personagens e a consequente mudança do roteiro para contornar certas omissões, aliada à enorme popularidade da atração e sua força dentro das mídias sociais (tendo assim um público profundamente variado a se agradar) são fatores primordiais para entender a fúria dos fãs com o fim dado ao longo jogo dos tronos.

Sem a presença de personagens como Aegon Targaryen (sob o pseudônimo de Jovem Griff), perde-se um dos embates principais (ainda por acontecer nos livros) entre  Daenerys e seu suposto sobrinho, filho de Rhaegar Targaryen e Elia de Dorne, e com uma pretensão ao trono maior que a sua, uma dança entre dragões. Na série, confirmou-se uma teoria que já circulava na internet há algum tempo: a de que Jon Snow seria filho legítimo de Lyanna Stark e Rhaegar Targaryen, criado por Ned Stark como seu bastardo para proteger a identidade e a integridade do menino. Ele teria recebido de Lyanna o nome de Aegon e seria legitimado por um suposto casamento em segredo durante a guerra.

A partir dessa legitimação da pretensão de Jon Snow, os roteiristas buscam legitimar também a pretensão de Jon Snow como Rei do Norte e possivelmente de Westeros (pela ascendência Targaryen vinda do príncipe herdeiro). Outra grande e sensível modificação foi feita na adaptação de Daenerys. Até então muito bem retratada na série, como uma mulher jovem, que passou por muitos bocados e aprendeu com a experiência própria e com o relato dos seus, valorizando muito os conselhos dados por seus mais próximos, de repente passa a ser “enlouquecida” pelo roteiro.

A sétima e oitava temporadas trazem uma Daenerys que não ouve seus conselheiros, age quase que suicidamente em seus impulsos, é cruel e cada vez mais próxima a uma tirana, sendo constantemente comparada a seu pai, Aerys II, intitulado “o rei louco”. Em contrapartida, o mesmo roteiro coloca Jon Snow como par romântico em sua empreitada de reconquista de Westeros, e seus dramas passam a girar em torno da mãe dos dragões e a desconfiança dos nortenhos em relação a ela. Dois personagens muito amados pelo público e reduzidos pelo roteiro a papeis nada condizentes com seus desenvolvimentos até então, tomando um rumo completamente contrário às narrativas construídas pela própria série desde a primeira temporada.

Cersei e o núcleo Lannister também são prejudicados com essa guinada brusca do roteiro. A jornada de autoconhecimento e redenção de Jaime Lannister de repente passa a não fazer mais sentido, juntamente com uma Cersei cada vez mais insana e com alianças cada vez mais absurdas e que culminam com uma morte completamente sem sentido para os dois gêmeos Lannister. Já Tyrion e sua trajetória tomam rumos completamente incongruentes com o desenvolvimento do personagem até então, traindo a tudo e todos e tendo seu fim como preso político, que é convocado a ser conselheiro na escolha de um novo rei (mesmo acusado de cumplicidade no assassinato da rainha Daenerys), propõe a criação de uma república e debate frente a frente com os grandes lordes de Westeros remanescentes.

O fim da incógnita acerca do destino do trono de ferro é também uma das bolas mais fora da curva narrativa da série. Jon Snow assassina Daenerys, o dragão Drogon foge com seu corpo (não sem antes destruir o trono, embora permita que Jon saia ileso) e o destino de Westeros é decidido pelos poucos lordes restantes, com a ajuda de Tyrion (como já salientado anteriormente, preso por cumplicidade no assassinato da rainha). A facilidade com a qual Sansa se autoproclama Rainha do Norte frente aos outros lordes e nenhum reivindica também a independência é curiosa e inverossímil, especialmente se considerarmos o contexto da obra. E a coroa westerosi ir para Bran Stark, o corvo de três olhos, é certamente a maior incongruência da série com sua própria mitologia.

Ao longo de sua jornada além da muralha para encontrar o corvo de três olhos, Bran Stark é constantemente lembrado de que seu destino é muito maior do que o jogo dos tronos ou do que as intrigas políticas do reino, é uma jornada espiritual e diz muito mais sobre questões existenciais do que uma mera sabedoria capaz de fazê-lo gerenciar bem uma nação. O exílio de Jon Snow no mundo além das muralhas também não tem sentido depois de tudo que o personagem foi colocado para fazer.

Conclusão

Tendo em vista o rápido esquecimento da série após o fim de sua última temporada (na contramão de outras obras marcantes que continuam a ser discutidas até hoje), pode-se dizer que os erros cometidos especialmente nas duas últimas temporadas foram o suficiente para manchar a imagem de toda a obra, sendo um consenso em quase todos os públicos de que a produção perdeu um pouco a mão não por questões adaptativas em relação ao material original, mas por incongruências em relação ao desenvolvimento da narrativa até então vigente.

A ausência de determinados personagens e suas subtramas com grande peso na trama principal, como citados anteriormente, também contribuiu para a mudança de curso da narrativa, e a alternativa executada para contornar essas ausências acabou não tendo um bom desenvolvimento, confluindo assim todos esses fatores na confusão roteirística da oitava temporada.


[1] Devido ao caráter explícito do livro  em cenas de violência física e conteúdos sexuais envolvendo personagens que no contexto atual são menores de idade, os produtores optaram por aumentar a idade de alguns dos personagens do núcleo mais jovem, como os herdeiros Stark e Daenerys.