Após a conclusão da Saga do Infinito, surgiu uma grande questão sobre como o Marvel Studios iria continuar a prender seu público nas próximas produções. Em 2019, foi anunciado oficialmente que a partir da Fase 4, não só filmes integrariam o universo, como também séries originais do Disney+. Entre elas, WandaVision foi a série que mais chamou a curiosidade, por se tratar de uma aventura que faria uma homenagem as sitcons de época.

Originalmente, a série estrearia já com a nova Fase andando, mas quis o destino e a pandemia que o calendário fosse alterado. Assim, WandaVision se tornou o ponto de começo da nova Saga da Marvel e para o bem ou para o mal, foi o melhor caminho possível.

A história de Wanda (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) começa sem nenhum grande contexto. Após a fanfarra do estúdio se encerrar, tudo fica preto e branco e no formato 4:3. Os dois Vingadores se casam e passam a viver numa cidadezinha chamada WestView, no subúrbio americano. A vida dos dois segue um padrão de idealização de qualquer relação, cuja as preocupações se limitam apenas em agradar o chefe do trabalho ou construir uma boa relação com os vizinhos. Porém com o passar dos episódios, tudo vai se mostrando ser bem mais do que se imaginava.

Reprodução/Walt Disney Company
Expectativa x Realidade

É difícil não começar essa jornada sem criar mil teorias sobre o que está de fato acontecendo. É um processo que não é novidade para os fãs do MCU, que ficam meses especulando a cada novo trailer ou foto liberada do próximo filme. Mas aqui, esse processo é intensificado graças a decisão da Disney de lançar suas séries semanalmente. Então a cada semana, uma teoria nova é criada, desmentida ou confirmada – o que as deixam com probabilidades infinitas.

Mas com 13 anos desde que Homem de Ferro foi lançado, é difícil acreditar que de repente o estúdio decidirá mudar sua fórmula tão abruptamente. Mesmo que eles mesmos nos façam acreditar de que isso é possível, a trama sempre seguirá por um caminho mais simples e palatável. E este caminho nunca será algo construído as pressas. Thanos, por exemplo, demorou 10 anos para que de fato fosse uma ameaça real aos Vingadores.

Então mesmo que de início a decepção venha por conta da própria expectativa, é assim que a Marvel segura o seu fã, com a esperança de que um dia aquilo torne realidade. É exatamente o que acontece em WandaVision, que ao longo de sua exibição teve inúmeras teorias. Ao chegar no último episódio, a ficha cai e o que realmente importava não era o universo ao redor, mas apenas o casal protagonista e seus dramas.

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Referenciando fielmente as sitcons

Deixando Mephisto e Multiverso de lado, o foco dos nove episódios é Wanda sofrendo e tendo que lidar com a morte de Visão. Desde Era de Ultron, a personagem foi uma das que mais colecionou traumas, com perdas e rejeição pública. Seu universo perfeito então é uma odisseia ao universo da televisão americana, com referência a clássicos como I Love Lucy ou The Dick Van Dyke Show.

Aqui, a série faz um paralelo muito bem feito relacionado as épocas de cada série, com os estágios do luto. Além de entender mais sobre as cicatrizes da heroína, serve até como impulso de estudo sobre as mudanças que a TV precisou se adaptar e não só isso, mas questionar alguns valores que são impostos até hoje.

No entanto, a execução desta ideia traz uma barreira ao público. Afinal, apesar das séries referenciadas serem clássicos americanos, quem está fora desta bolha se perderá fácil no humor. Estamos falando de séries que hoje já são vistas como ultrapassadas, então há momentos em que pode haver um aborrecimento com o que acontece em tela.

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O que é o luto, senão o amor que perdura?

Ainda sim, quando o foco em tela é o desenvolvimento do casal protagonista, a série sobe bastante de patamar. A roteirista Jac Shaeffer (que também escreveu Viúva Negra), faz um texto sensível e delicado, sem se perder em melodramas ou exageros. É fato de que o luto é uma reação subjetiva e cada um tem a sua forma de lidar, mas sabendo disso, o roteiro acerta em apresentar um contraponto.

A partir do episódio 4, a série introduz a versão adulta de Monica Rambeau (Teoynah Parris), que também possui cicatrizes pelo que aconteceu após o ataque de Thanos. Porém sua forma de lidar é extremamente discreta, mas não deixa de existir ali dentro. O que é de certa forma um outro acerto, já que esse paralelo não é exposto de uma forma literal.

Mas quem faz a série brilhar é o elenco, principalmente Elizabeth Olsen. Ela está totalmente a vontade no papel e transita entre sua versão em luto e depressiva para a dona de casa exemplar em um estalar de dedos. Existem diversos segmentos da atriz que poderão ser facilmente escolhidos para o Emmy por exemplo.

Quem também brilha é Paul Bettany, que explora bastante a ingenuidade de Visão ao mesmo tempo que o personagem fica mais maduro. Seu personagem aqui não é fácil, principalmente por tudo que acerca o motivo de estar vivo, portanto é ótimo ver uma boa performance diante as circunstâncias.

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O fanservice errado

Toda história espetacular existe um alguém que personifica o fã. Em WandaVision existem dois: Darcy Lewis (Kat Dennings) e Jimmy Woo (Randall Park). Ambos são bem carismáticos e o público tinha um certo apego em suas participações anteriores no MCU. Entretanto aqui o roteiro joga fora tudo de bom que havia construído anteriormente.

Em vários momentos, um dos dois personagens vão soltar alguma frase que nos lembrará a batalha final de Ultimato. É extremamente gratuito e serve para contextualizações que os próprios fãs deduziriam sozinhos. Além disso, soa estranho o fato de alguém que não estava presente citar precisamente algumas coisas que aconteceram. Ou seja, é apenas para que o fã pesque o comentário e fique feliz com a referência, mas é desnecessária.

Outro problema de fanservice está na resolução de algumas tramas. Enquanto Wanda e Visão possuem uma conclusão mais bem trabalhada, Monica Rambeau acaba se perdendo no caminho do seu desenvolvimento. É como se ela tivesse um começo e um fim, sem um meio que desse mais suporte as decisões do roteiro.

Esse problema também está presente na E.S.P.A.D.A, uma organização de controle de atividades espaciais que é apresentada sem muito contexto. Claro que isso pode vir a ser explicado futuramente, mas por agora, é decepcionante tão pouca informação.

Veredito

WandaVision não é a produção mais diferente que a Marvel já fez. Na verdade é exatamente tudo o que o estúdio já fez até aqui. Temos uma pequena história individual com elementos que vão ser importantes em um futuro evento. Sem grandes ideias mirabolantes jogadas sem sentido, apenas uma história contida.

E está tudo bem, o resultado final é uma trama bem contada e coesa que entrega uma boa contextualização para o grande evento do multiverso. Mas desde o início, até mesmo no título da série, o foco mesmo era desenvolver este casal que não tinha a oportunidade de protagonizar a própria história.

Daqui um ano, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura chega aos cinemas e até lá novas teorias serão criadas, fazendo nós fãs terem algo para distrair.