Carro chefe da Netflix e um dos maiores sucessos dos streamings atuais, a série Stranger Things teve lançada ontem (01/07) sua quarta (e penúltima!) temporada. Em comparação com a primeira parte, com 7 episódios de aproximadamente 75 minutos de duração (com exceção para o episódio 7, com 98 minutos), a segunda parte chegou com uma configuração diferente, de apenas dois episódios de 85min e 150min, respectivamente.

Desde o lançamento dos trailers e materiais promocionais para a segunda parte, além de entrevistas dos Irmãos Duffer, showrunners da série, que prometeram um “banho de sangue” e a morte de personagens queridos. Os fãs levantaram inúmeras teorias sobre quem estaria sorteado na tal loteria da morte, e as apostas variavam entre Steve Harrington (Joe Keery), Max Mayfield (Sadie Sink) ou Eddie Munson (Joseph Quinn).

Sobre o roteiro

Uma conclusão de temporada repleta de muita ação, música e aventuras no melhor estilo Stranger Things, essa segunda parte trabalhou muito bem com a perspectiva de “mente grupal” dos perigos oriundos do Mundo Invertido. Sendo assim, a dispersão dos personagens principais em núcleos lidando com facetas diferentes desses perigos, ligados e emaranhados diretamente no Vecna foi um excelente recurso de narrativa, apresentando os plots aos poucos, sem cansar o espectador.

No entanto, embora seja uma série voltada ao público infanto-juvenil, a trama ainda precisa amadurecer em alguns aspectos. Pontos interessantes e questionamentos foram deixados de lado na trama, criando furos de roteiro ou interrogações sem respostas. Por exemplo, onde foi parar a 008, apresentada na segunda temporada? Por que ela não é sequer mencionada em nenhuma das memórias relacionadas ao laboratório de Hawkins?

Outro tópico que prometeu muito na primeira parte, mas acabou ficando de lado é a formação de milícias religiosas inspiradas por Jason Carver (Mason Dye). Seu grupo particular ainda ganha algum tempo de tela, mas de forma muito superficial, e a perspectiva cristã que motivava o ódio ao clube Hellfire parece ter sido suavizada de alguma forma.

Já sobre as mortes, os showrunners parecem ter medo de matar algum personagem querido do público, preferindo inserir novos personagens, construí-los de forma carismática e cativante, e eliminá-los na mesma season. Vimos isso antes com Bob Newby (Sean Astin) na segunda temporada, e nessa segunda parte da quarta temporada, temos o mesmo acontecendo com Eddie Munson.

A morte de Eddie emociona muito mais pelo apego do público ao personagem, rapidamente abraçado pelo fandom, e pelo significado de sua relação com Dustin Henderson (Gaten Matarazzo). No entanto, foi uma morte desnecessária, que não influenciou em muita coisa o curso dos eventos, e na verdade não impactou em quase nada nos acontecimentos finais. Muito mais impactante (e madura para o roteiro) teria sido a morte de algum personagem do núcleo principal, sem medo de rejeição do público, uma vez que a morte de personagens recém-introduzidos acaba sendo uma alternativa um tanto “preguiçosa” para o desenvolvimento da trama.

Propaganda anticomunista?

Questão polêmica desde a inserção dos soviéticos na terceira temporada, a questão da propaganda anticomunista é justificada na série por dois fatores:

  1. Além da ambientação histórica nos anos 80, a série sempre buscou emular a estética e as principais características de obras de ficção científica desse momento. Tendo em vista a Guerra Fria como pando de fundo e a própria função de Hollywood (desde seu surgimento!) como propaganda liberal estadunidense, não é de se estranhar que os soviéticos viessem a ser representados como vilões. Embora seja uma temática batida, acaba fazendo sentido dentro da proposta da série, que é replicar a nostalgia. No entanto, vale salientar que mesmo dentro da obra podemos perceber que há uma espécie de “dois pesos, duas medidas” na própria representação que nos é apresentada.
  2. Como mencionado anteriormente, Hollywood surge num contexto propagandístico e nunca perdeu esse teor, apenas o mascarou de maneira mais sutil em alguns casos. Sendo assim, a indústria do streaming, que bebe diretamente dessa fonte não está imune a essa influência. Vale salientar a importância da sétima arte enquanto ferramenta político-propagandística e cabe ao espectador manter uma visão mais crítica acerca das representações de nações, etnias e grupos políticos que contrariem a ordem hegemônica perpetrada pelos Estados Unidos, a exemplo dos soviéticos (e russos de maneira geral), chineses, comunistas, indígenas e movimentos antirracistas. Sendo assim, Stranger Things também se insere nesse espectro.

Considerações finais

Do ponto de vista técnico, a quarta temporada dá um show de fotografia, efeitos audiovisuais e cenas de ação bem orquestradas. É impossível não se emocionar com as cenas em que Eleven (Millie Bobby Brown) demonstra toda a maturidade que vem adquirindo desde a primeira temporada, e é incrível ver a mudança da personagem tanto em relação à lida com suas habilidades, quanto no desenvolvimento de suas relações interpessoais.

A trilha sonora continua a ser parte importantíssima da trama, e se na primeira parte tivemos grande destaque numa cena para a canção Running Up That Hill (A Deal With God), da britânica Kate Bush, na segunda parte temos uma cena emocionante envolvendo a clássica Master of Puppets, do Metallica. Todas as canções reproduzidas na série estão disponíveis na playlist oficial do Spotify, não deixe de conferir!

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