Na onda de remakes e adaptações que tem tomado o mercado audiovisual nos últimos anos, inúmeras franquias têm repaginado suas histórias a fim de angariar não só os fãs nostálgicos, mas também uma nova geração que não teve contato com os materiais originais. Uma dessas franquias (e que já tem um longo histórico de adaptações multiplataforma) é Resident Evil, originalmente um game de estrondoso sucesso da Capcom.

Antecedentes

Uma das grandes problemáticas em remakes de franquias clássicas é que muitas vezes, o público novo e os fãs nostálgicos não possuem um denominador comum de interesses e expectativas. E esse foi um dos grandes problemas enfrentados pela franquia Resident Evil, que começou em 1996 com o primeiro game, para PlayStation e foi adaptada para o cinema em seis filmes, sob a direção de Paul W. S. Anderson e estrelada por Mila Jovovich.

Embora tenha arrecadado globalmente mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria, os filmes de Anderson angariaram intensa rejeição por parte da comunidade gamer, pelas adaptações de roteiro e pela ausência ou superficialidade na representação de personagens chave para os games. A “esperança” para esse grupo estava no filme Resident Evil: Welcome to Racoon City (2021), que não angariou opiniões muito boas (com uma aprovação de apenas 30% da crítica), e nem rendeu bem em bilheteria.

Roteiro

Dito isto, Resident Evil: A Série, chegou ao catálogo da Netflix no dia 14/07 e logo entrou na lista de títulos mais assistidos da plataforma. No entanto, acumulou diversas críticas negativas, especialmente pelos fãs da franquia. A trama segue duas linhas temporais: o mundo pós-apocalíptico de 2036, e o mundo pré-catástrofe em 2022.

Em 2022, as “gêmeas” Jade (Tamara Smart) e Billie Wesker (Siena Agudong), filhas do renomado cientista da Umbrella Corporation, Albert Wesker (Lance Reddick) se mudam para New Racoon City, e após uma série de acontecimentos esquisitos, começam a investigar as relações entre o pai delas e a Umbrella, ao mesmo tempo em que lidam com o cotidiano adolescente. Nessa linha do tempo temos muito suspense e uma ambientação interessante, com personagens interessantes, como a vilã Evelyn Marcus (Paola Núñez), filha de James Marcus, um dos fundadores da Umbrella Pharmaceuticals. No entanto, nessa linha do tempo, a história acaba se arrastando muito ao longo dos 8 episódios, trazendo uma visão.

Já em 2036, somos apresentados a uma Jade Wesker adulta, mãe e cientista (e sem a presença da irmã Billie), que monitora zumbis e os estuda, buscando uma possibilidade de controlar a praga e oferecer uma chance à humanidade. Durante uma pesquisa de campo as coisas começam a dar errado, e a personagem acaba indo parar numa fortaleza de sobreviventes, com a Umbrella Corp. atrás dela.

Pontos fortes & pontos fracos

É possível dizer que enquanto um material original, a série é razoavelmente boa, trazendo duas linhas temporais interligadas e que traçam um paralelo entre a ideia de “normalidade” e “caos”. Diversos aspectos do universo Resident Evil estão atualizados ao contexto de 2022, como forma de conectar uma nova audiência ao cânone da franquia, e a ambientação de um mundo 14 anos após o apocalipse zumbi é bem executada, apesar das divergências em relação ao material original.

No entanto, se considerarmos a série enquanto adaptação, temos uma história que muito vagamente lembra Resident Evil, e traz poucos elementos dos games e filmes, apesar das referências. No aspecto técnico, a série traz diversos acertos e demonstra todo o investimento, apesar dos zumbis terem efeitos estranhos (o que muito provavelmente se justifica pelo fato de terem se passado 14 anos desde o apocalipse.

A inserção de personagens não-brancos, de um casal LGBT+ e de mulheres em posição de liderança é executada de maneira muito orgânica, não sendo alvo de estranhamento e não constituindo um empecilho à trama, o que é um ponto que deve ser ressaltado e sublinhado!

Muito embora pensado para conquistar a audiência jovem, a série não consegue se conectar de maneira satisfatória com esse público mais “leigo”, devido à ausência de contextualização para uma série de conceitos comuns ao universo Resident Evil, como a Umbrella Corp., o T-vírus e a clonagem.

Considerações finais

Se você espera uma série completamente fiel ao universo Resident Evil, com a presença de personagens cânones como Claire e Leon, não é aqui que vai encontrar. De forma geral, a série não consegue agradar aos fãs, embora construa boa parte de seu roteiro à base de referências, e como material original deixa muitas pontas soltas – provavelmente como gancho para uma segunda temporada – e pode acabar fazendo com que o espectador perca o interesse. No entanto, se considerada isoladamente, é uma ótima diversão, e promete muitas respostas caso seja renovada para uma próxima temporada.

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