Produções que se passam num mundo que foi tomado por zumbis estão em alta a muito tempo, já que desde que The Walking Dead se iniciou (em 2010), ficamos nos perguntando como as coisas seriam caso se passasse no Brasil. Então a Netflix chegou com Reality Z, que junto da Conspiração Filmes e direção de Cláudio Torres (A Mulher Invisível, O Homem do Futuro), fez uma adaptação da minissérie britânica Dead Set (2008), trazendo o tão aterrorizante apocalipse zumbi para as praias cariocas.

A trama inicia-se nos mostrando um pouco do reality show Olimpo (que funciona da mesma forma que o Big Brother, onde mantém um grupo de pessoas confinadas e transmitem tudo para o país todo), porém logo chega a notícia de que o Rio de Janeiro foi tomado por zumbis e que o único lugar seguro é o estúdio da emissora. Além de os sobreviventes precisarem lidar com os mortos-vivos, deverão também enfrentar os sobreviventes, que com muita ganância, farão de tudo para se manterem a salvos.

Como já era esperado de uma série dessa temática, é impossível não fazer alguns comparativos com The Walking Dead, já que assim como a série americana, somos levados a um cenário em que humanos dos mais diversos possíveis devem se juntar para tentar sobreviver, porém poucas coisas realmente se repetem, fazendo com que a sensação de um prato requentado não apareça como era esperado. A história não apresenta somente um único grupo central, como normalmente vemos na maioria dos seriados, porém isso faz com que não haja muito tempo para que nos apeguemos muito aos personagens que possuem cenas chocantes, retirando um pouco do peso dos acontecimentos.

Apesar de toda a narrativa principal falar sobre a sobrevivência no fim do mundo, diversas outras linhas narrativas são criadas no decorrer dos episódios, porém o seriado não soube muito bem como aproveitar isso, já que quase todos os ganchos que poderiam deixar a história num nível muito superior são deixados de lado. Com personagens totalmente caricatos, o elenco conta com atuações de medianas para baixo, além de não possuírem carisma algum (o que acaba ficando ainda pior quando o roteiro tem preguiça em desenvolver as histórias de cada um, mesmo com muitos dos personagens sendo já conhecidos no universo da série), e nenhum desses problemas conseguem ser salvos por participações especiais, como Sabrina Sato e Jesus Luz (modelo e ex namorado da cantora Madonna). Entretanto, mesmo com a baixa qualidade na atuação, é preciso levar em conta que alguns dos personagens mostram uma grande evolução desde suas primeiras aparições (contanto isso infelizmente demora para acontecer, já que o seriado possui apenas dez episódios).

Por muitas vezes seriados são salvos pela trama e pela imersão que o roteiro causa, porém como dito anteriormente, Reality Z peca muito em querer inovar a temática apocalipse zumbi, já que tudo é feito de forma muito forçada desde o começo. Entretanto, devo dizer que as coisas começam a melhor um pouco na metade dessa primeira temporada, onde a história parece começar a andar com suas próprias pernas, porém várias vezes acaba levando a expressão “chovendo no molhado” ao pé da letra, já que empaca por diversas vezes.

Mesmo com todos os defeitos citados anteriormente, preciso falar sobre alguns dos poucos pontos positivos do seriado. Tendo em vista a quantidade e qualidade da maior parte dos programas nacionais da Netflix, este é com certeza um dos mais inovadores, criativos e que mais valem a pena de assistir, já que com todos os grandes problemas é possível se entreter desde o começo, querendo muito saber como será o final da temporada. Devo também comentar sobre as maquiagens e caracterizações no geral que foram utilizadas no decorrer dos episódios, já que são muito superiores as que estamos acostumados nas produções nacionais, então é possível dizer que estão quase que no mesmo nível das produções internacionais (como Z Nation e até mesmo The Walking Dead, que está sendo tão citada neste texto por ser a maior série de zumbis da atualidade). Outro ponto a ser ressaltado é a trilha sonora, que é composta por músicas brasileiras quase que por completo (com pouquíssimas músicas internacionais).

Além de tudo, devo mencionar que a trama acaba transmitindo diversas mensagens importantes para o mundo atual, que se encontra em quarentena por conta do Coronavírus. Desde o começo do seriado vemos as pessoas tratando tudo aquilo com descrédito, dizendo que era mentira ou continuando suas vidas normalmente, e começam a se importar apenas quando são acometidas ou algum conhecido morre (isso sem contar com o egoísmo que muitos apresentaram durante o surto). Outro ponto que foi abordado é o racismo, já que um personagem negro é considerado traficante desde a primeira vez que aparece, assim como a grande maioria da população negra é tratada (crítica que se encaixa muito bem com a realidade que estamos vendo no mundo todo, já que protestos contra o racismo ganharam ainda mais força com a morte de George Floyd, que foi morto asfixiado por um policial branco por, supostamente, tentar utilizar uma nota falsa como pagamento).

Apesar de ter se encontrado apenas no final da temporada, deve conseguir evoluir muito numa possível continuação, já que a produção não tem medo de fazer grandes apostas (mesmo que algumas delas são deixas de lado rapidamente), e pode se tornar uma das mais importantes séries nacionais caso consigam melhorar nas questões anteriormente citadas. Ainda sem confirmação do segundo ano do seriado, o último episódio dá a entender que a história ainda não se encerrou.

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