Loki é hoje, ao lado do Thor, um dos personagens com a maior longevidade dentro do MCU. Devido a isto, o personagem já assumiu várias personas ao longo dos anos, sendo vilão, aliado, traidor e um herói, culminando em sua morte em Guerra Infinita. Mas como um bom trapaceiro, isso não foi o seu fim, retornando através de uma linha do tempo alternativa onde ele consegue fugir da Batalha de Nova York com o Tesseract.

No entanto, como nada que ele se propõe a fazer dá êxito, sua captura pela AVT faz com que ele passe por novos maus bocados. Assim, a sua série solo aproveita a situação para desenvolver o personagem com mais cuidado e minúcias, estudando o que faz o Loki ser um Loki.

Mas não seria o MCU sem algo que servisse para expandir o universo e isso fez com que a experiência da série imergisse num mistério que prolongou por seis semanas. E por este lado, vemos o estúdio se desprendendo de qualquer conceito realista ou pé no chão que o gênero de super-heróis já propôs um dia. Se antes os termos de multiverso, terras alternativas, evento nexus, variante e entre outros, eram vistos como complexos, hoje eles estão no mainstream.

Assim, a Marvel tem uma produção que nas mãos erradas poderia se perder com enorme facilidade. Mas por sorte, não foi o caso. Para evitar repetições de assuntos já comentados aqui no site, confira nossos outros artigos durante essa cobertura.

Loki (Tom Hiddleston) in Marvel Studios’ LOKI exclusively on Disney+. Photo by Chuck Zlotnick. ©Marvel Studios 2021. All Rights Reserved.

O enredo

A partir do momento em que Loki (Tom Hiddleston) é apreendido pela AVT, ele se vê numa posição de subordinado, o que vai contra todos seus objetivos. Em todos esses anos, ele acredita estar destinado a um propósito glorioso, onde irá controlar uma civilização, seja Asgard ou a Terra, e será responsável por guia-los a um futuro próspero. Mas seus meios para atingir este fim sempre envolvem mortes, trapaças e um certo sadismo de sua parte ao fazer tudo isso.

Logo, a AVT acaba servindo como um processo terapêutico no qual ele terá que confrontar a si mesmo, de forma literal. A organização caça variantes de Loki pela linha do tempo, pois eles são uma ameaça à linha do tempo sagrada. Mobius (Owen Wilson), um trabalhador fiel a sua empresa, o recruta para ajudar a entender a mente de um Loki e usá-lo para capturar a variante mais perigosa.

O estudo de personagem feito em cima do Loki é bastante intrigante e interessante. Estamos falando de um vilão, que já cometeu atrocidades e quase escravizou a Terra. Mas ele é muito mais do que apenas um vilão, sua complexidade prende a atenção do espectador e o roteiro brilha nessa abordagem.

Cidadela dos Lokis

Loki (Tom Hiddleston) in Marvel Studios’ LOKI exclusively on Disney+. Photo courtesy of Marvel Studios. ©Marvel Studios 2020. All Rights Reserved.

No estudo sobre quem são os Lokis, a série brilha fazendo referências aos quadrinhos e a mitologia nórdica trazendo as mais diversas variantes. Sylvie (Sophia Di Martino), a sua semelhante feminina, é a que mais tem destaque e é a maior força no combate contra a AVT. A organização exterminou sua realidade pois notou um evento Nexus nela, a prendendo ainda criança. Após ela escapar, ela decide treinar por anos para acabar com os “fascistas temporais”, como ela faz questão de mencionar ainda de forma errônea.

No episódio 5, temos a presença de outras variantes que roubam a cena, como o Loki Clássico (Richard E. Grant) , Kid Loki (Jack Veal), Loki Orgulhoso (DeObia Oparei) e um Loki Jacaré. Ainda há a presença do Vote Loki, em referência a um arco recente do personagem nos quadrinhos, além de outras versões não identificadas.

Esse é um momento que justifica a presença de Michael Waldron na criação da série. Ele foi responsável por alguns roteiros de Rick and Morty, série que já tratou de variantes e universos alternativos diversas vezes. Inclusive, a Cidadela dos Ricks, local onde todas as versões de Rick Sanchez coexistem, é muito semelhante à ideia do Vazio, onde os Lokis coexistem.

Estes momentos permitem ao roteiro viajar em suas ideias e só aumenta o valor de entretenimento que a série oferece. Mas não é só um entretenimento pelo entretenimento, como também é um estudo interessante sobre narcisismo. Afinal, não existe metáfora melhor sobre o assunto do que contar uma história de alguém que se apaixona por si mesmo, se sacrifica por si mesmo e se confronta com si mesmo.

Um primor técnico

Reprodução/Marvel Studios

A estética de Loki é algo único dentro do MCU. Ao entrarmos na AVT junto com Loki, deparamos com um ambiente que soa tedioso e nos faz lembrar porque a burocracia é tão tediosa. Mas ao mesmo tempo, existe uma certa contemplação do ambiente ao redor, dos prédios grandiosos e da cidade que cerca aquele lugar. A trilha sonora é um dos pontos mais altos da série por isso, por remeter uma longa viagem por este lugar além do tempo.

Em momentos em que a ação toma conta, a compositora Natalie Holt muda completamente o tom, trazendo uma trilha que emerge a ameaça. Ouvir as músicas dos créditos é sem dúvidas uma das partes mais prazerosas da experiência.

No entanto, o único ponto negativo são as cenas de ação, ainda que não seja nada grave. A Marvel está investindo em grandes novos talentos do cinema e da TV que possuem uma sensibilidade de contar boas histórias. A diretora Kate Herron provou seu domínio no trabalho com Sex Education e sabe como prender a atenção do espectador. Mas as cenas de ação são bem fracas e cheias de corte, sendo esquecíveis. O único ponto alto é um plano sequência que acontece no terceiro episódio.

MCU não é mais só cinema

O universo cinematográfico da Marvel não é apenas só sobre cinema. Inicialmente, até durante as discussões sobre WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal, se acreditava que essas séries do estúdio iriam apenas expandir o universo, mas quem o movimentaria seriam os filmes. Loki vem para mostrar que as coisas não serão assim.

A trama por trás da AVT é algo que vai repercutir em outras produções místicas do estúdio. Futuramente, quando começarmos a falar sobre os preparativos do maior evento desta Fase 4, teremos que citar esta série como essencial neste processo. Isso mostra o quão ousado é o plano de misturar a mídia cinematográfica e da televisão como apenas uma.

Recentemente tivemos uma conexão ainda mais forte com filmes e séries vista em Viúva Negra – entenda mais aqui.

Falta um pouco mais de coragem em temas delicados

Este é um ponto já abordado em outro artigo neste site, mas é importante colocar como um defeito nesta temporada. Existem temas delicados que a série propõe a falar sobre, como fascismo e bissexualidade por exemplo. No entanto, o roteiro parece se contentar com o pouco que oferece sobre estes assuntos.

A discussão superficial da série trata a AVT como uma organização fascista, mas ao falar tão pouco sobre o assunto, apenas banaliza o termo. Já a revelação de que Loki é bissexual não passa de algo para fazer barulho na internet, sem ter sequer um momento em que isso seja aproveitado pelo roteiro. Este é um problema recorrente na Fase 4 e soa como se fosse uma interferência executiva em cima do criativo.

A Marvel Studios opera como se estivesse com medo de tratar destes assuntos, pois estaria prejudicando a venda de licenciados. Na verdade, é como se fazer o mínimo fosse motivo de palmas, algo que de fato acabou acontecendo em alguns momentos. É preciso que isso seja revisto nas próximas produções para que não fique apenas no campo da superficialidade. Assim como é possível falar com tanta qualidade sobre universos alternativos, é possível entrar em questões de sexualidade e governos totalitários sem muitos problemas.

Veredito

Reprodução/Marvel Studios

Loki é uma série que possui dois tipos de narrativa: a que vai falar sobre o personagem e a que vai expandir e dar início a uma nova saga na Marvel. Em ambas, o público vai encontrar uma experiência satisfatória e digna do Deus da Trapaça. E a cena pós-créditos dá a melhor novidade por quem acompanhou a série até seu último episódio: a história vai continuar pra segunda temporada.

Se enganou quem achou que a Saga do Infinito fosse o ápice do MCU. Pelo contrário, foi apenas a ponta do Iceberg, que agora dá ao estúdio a liberdade de seguir fielmente os conceitos dos quadrinhos. Que venha as próximas produções desta Fase 4!