Quando WandaVision chegou ao seu fim em março, um dos pontos ressaltados sobre a série era que a Marvel não estava arriscando em sua fórmula. Na ocasião, acreditava que o estúdio continuaria usando temáticas diferentes para aplicar seu modelo de sucesso e ganhar o público. No entanto, não demorou muito para que Falcão e o Soldado Invernal estreasse e mudasse um pouco as estruturas do MCU.

Ironicamente, a expectativa era algo contrário a primeira impressão deixada pelo primeiro episódio. O material promocional indicava apenas que veríamos um buddy cop movie de super-heróis que brigariam o tempo todo e no final se acertariam. Mas o texto por trás da série, escrito por Malcolm Spellman, traria diversas camadas a mais a toda essa história e que diferente de um filme tradicional, não seria apenas um subtexto, mas parte essencial da jornada.

O êxito em conseguir pregar essa subversão ao MCU pode ser vista nas redes sociais. Ao longo de seis semanas, a série instigou os fãs da Marvel a discutirem imigração, racismo, representatividade, política e qualquer outro assunto que esses temas desencadeiam. E diferente do tradicional, como subtexto ficaram as referências aos quadrinhos clássicos.

Sendo assim, a série se sustenta em diversas tramas secundárias, alternando entre acertos enormes e erros bobos.

A aceitação

John Walker (Wyatt Russell) em FALCÃO E O SOLDADO INVERNAL exclusivo no Disney+. Cortesia de Marvel Studios. ©Marvel Studios 2021. All Rights Reserved.

A série se passa alguns meses após o fim de Vingadores: Ultimato. Após Thanos ter dizimado metade da população do universo, a Terra teve cinco anos para se reconstruir. Com isso, muitas pessoas que antes eram deslocadas, começaram a serem aceitas e terem moradia e empregos. Mas com os heróis voltando no tempo e revertendo a ação, isso implicou num abandono dos governos a essas pessoas que ficaram, solicitando sua retirada. Com isso, surge Karli Morgenthau (Erin Kellyman) e os Apátridas, um grupo de super-soldados que começam a realizar ataques pelo mundo.

Ao mesmo tempo, Sam Wilson (Anthony Mackie) não se sente a pessoa certa para seguir o legado de Steve Rogers. Então ele deixa o escudo nas mãos do governo, que o entrega nas mãos de John Walker (Wyatt Russell), assumindo a identidade de Capitão América. Bucky (Sebastin Stan) sai de sua terapia pós-traumática pelos atos como Soldado Invernal, a ponto de tentar entender porque Sam fez o que fez.

São quatro histórias que um roteiro desorganizado se perderia fácil neles, mas aqui, Spellman reúne eles num único fio que os conecta. Todos os personagens principais estão lidando com a aceitação. Karli quer ser aceita novamente pelo seu país, Bucky quer ser aceito como uma nova pessoa e não quem ele era, Walker quer a aceitação popular de que é o novo Capitão América e Sam busca autoaceitação de que pode ser um símbolo tal como Steve foi.

No fim, não temos uma visão clara de quem é o herói e quem é o vilão. O cinza paira sobre esses personagens que mesmo que cheguem a assumir um lado na reta final, ainda é difícil não achar que suas causas são válidas e faz sentido.

Um herói social

Falcão/Sam Wilson (Anthony Mackie) em FALCÃO E O SOLDADO INVERNAL exclusivo no Disney+. Cortesia de Marvel Studios. ©Marvel Studios 2021. All Rights Reserved.

Quando Sam Wilson se torna o Capitão América nos quadrinhos, ele imediatamente provoca a rejeição das pessoas por suas pautas levantadas. O personagem não é só alguém que quer estar acima de tudo que representa um ideal, ele está ali para representar muitos que não possuem voz.

Nos filmes, Sam não possui tanto destaque, não passando de um sidekick do Steve Rodgers, então nunca ouve tempo para explorar quem ele era, ou seja, um super-herói negro. Neste formato de série, o personagem conseguiu tempo para desenvolver pontos de vista e opiniões próprias sobre assuntos que no mundo fora da ficção, são difíceis de debater. Mesmo assim, o roteiro não tem medo de arriscar e tocar o dedo em feridas da história americana.

Se o país sempre foi racista, temos isso exemplificado em Isaiah Bradley (Carl Lumbly), que foi torturado, sofreu experiências contra sua vontade e foi preso por querer fazer o certo. Se o país tem um legado manchado de sangue ao invadir outros países para impor sua “democracia”, uma simples cena bem enquadrada com John Walker consegue nos fazer lembrar disso. Assim, ambos personagens que são bem diferentes um do outro, conseguem conversar sobre o mesmo país e isso enriquece muito o enredo

A Marvel ao longo de sua história, ficou conhecida por tratar de pautas sociais de sua época. A criação dos X-Men e Pantera Negra que representa a luta por direitos civis nos anos 60 são um exemplo disso. São universos que por mais que tenha a fantasia e ficção de ser sobre heróis, consegue transcende para fora das páginas e conversa diretamente com a realidade. Sendo assim, a série consegue seguir a essência dos quadrinhos e ganha um enorme valor artístico.

Arcos secundários de altos e baixos

Sharon Carter/Agente 13 (Emily VanCamp) em FALCÃO E O SOLDADO INVERNAL exclusivo no Disney+. Cortesia de Marvel Studios. ©Marvel Studios 2021. All Rights Reserved.

Como mencionado, o subtexto da série é trazer referências dos quadrinhos – e aqui elas não são poucas comparadas as várias tramas principais. Temos o núcleo de Wakanda com a Ayo (Florence Kasumba), o retorno de Zemo (Daniel Brühl) e de Sharon Carter (Emily VanCamp). As duas primeiras citadas enriquecem o cânone do MCU, principalmente Zemo. Ao longo dos episódios, o personagem visto em Guerra Civil ganha novas características que agrada quem já gostava dele, assim como quem não gostava.

No entanto, a presença de Sharon resume bem os principais problemas que a série possui. A personagem parece não ter tempo para ser reintroduzida no universo, parecendo estar jogada no meio da situação. Suas motivações são bastante suspeitas e é difícil terminar essa jornada sem se incomodar com o rumo que algumas coisas levaram.

Mas o problema de tempo também ocorre na trama dos Apátridas. Eles possuem um excelente pano de fundo para discutir as consequências do arrebatamento de Thanos. Mas o pouco tempo para explicar melhor o que esses personagens estão fazendo, faz com que o grau de importância diminua. O último ato mesmo, se cria a partir de uma situação que a série sequer explicou como veio a parar ali.

Veredito

Falcão/Sam Wilson (Anthony Mackie), Soldado Invernal/Bucky Barnes (Sebastian Stan) e John Walker (Wyatt Russell) em FALCÃO E O SOLDADO INVERNAL exclusivo no Disney+. Cortesia de Marvel Studios. ©Marvel Studios 2021. All Rights Reserved.

Ainda assim, Falcão e o Soldado Invernal não perde sua consistência do início ao fim. Ela entrega boas cenas de ação, cenas divertidas, tal como um filme tradicional da Marvel. Mas a série vai além abordando pautas sociais importantes e faz isso com inteligência e qualidade. Cinema e TV são obras de arte e elas podem servir como entretenimento, mas dá para ser mais do que isso.

Sam Wilson surgiu como um personagem coadjuvante e agora está no panteão dos grandes protagonistas do MCU. E aos poucos, o número de personagens diversificados vão aumentando e isso é de uma importância enorme tanto para os atores que estão ganhando a chance de provarem seu valor, como para quem assiste. Imagine uma criança que tinha apenas o Pantera Negra como referência, agora ganhando mais um herói e com a chance de ganhar outros.

Sem entrar em muitos spoilers, mas o futuro é promissor e só nos resta aguardar para ver o futuro destes personagens.