Este texto pode conter spoilers da trama de Loki até aqui

Com a chegada do quarto episódio e a revelação das mentiras por trás da AVT, Loki levanta algumas questões além de seu enredo místico. Como Sylvie (Sophia Di Martino) havia sugerido no episódio anterior, os Guardiões do Tempo não passam de fascistas temporais, que controlam o que eles bem entendem. E de fato, a série utiliza esse contexto para discutir o assunto de forma bem sutil.

Desde os primórdios da Marvel Comics, as histórias de super-heróis possuíam contextos políticos para existirem. O Capitão América por exemplo, é fruto da propaganda americana contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial, cuja primeira capa é dando um soco na cara de Hitler. Propaganda essa que colaborava para que os Estados Unidos fossem vistos como um país paternalista, suavizando a política do Big Stick.

Sendo assim, não é de se espantar que suas produções live-action também falem sobre diversos assuntos da sociedade. Falcão e o Soldado Invernal já havia trazido discussões importantes sobre racismo e a importância de um herói negro e agora Loki segue pelo mesmo caminho, ainda que de um jeito Disney de falar sobre os assuntos.

Os Fascistas Temporais ou apenas autoritários?

A agência trabalha para impedir que se criem ramificações na Linha do Tempo Sagrada que não estejam previstas pelos Guardiões do Tempo. Ou seja, não existe o livre-arbítrio por parte do indivíduo. Tudo o que alguém faz, é porque houve uma autorização. Caso contrário, se qualquer decisão tomada tiver partido por livre e espontânea vontade, as Pessoas-Minuto aparecem para apagar a realidade.

Esta realidade é aceita através de uma propaganda que vende a história de que no começo, tudo era um caos. Com a chegada dos Guardiões do Tempo, eles conseguiram restaurar a ordem e a protegendo em um fluxo contínuo para que nada pudesse acontecer novamente. Assim, todos os funcionários não passam de criações destes seres, destinados a apenas cumprirem ordens.

Logo, eles atuam de forma autoritária, impedindo qualquer ato rebelde que tente quebrar a ordem estabelecida. Apesar da série nomear os líderes por trás da AVT de fascistas, precisamos partir do ponto que fascismo é um movimento com muitas características ligadas a políticas econômicas de Estado.

Logo, estamos diante de um sistema autoritário e não fascista, por mais que hajam pequenos elementos que os coincidam.

O poder da propaganda

Neste episódio, descobrimos que os Guardiões do Tempo na verdade não existem. A partir disto, podemos entender que toda a propaganda criada para justificar a existência da AVT, por mais que levante questões, é bastante funcional. Ela utiliza de elementos que já estavam presentes no universo e vilaniza as pessoas que vão contra eles.

Isto se assemelha com a ascenção de outros regimes autoritários, como o nazismo por exemplo. Hitler e sua equipe usaram as ideias de eugenia, racismo e antisemitismo para criar sua narrativa e conquistar o apoio das massas. Em casos mais recentes, podemos ver a ascenção da extrema direita através do medo ao comunismo, ainda que ele sequer existisse nessas sociedades, como o Brasil. Esses preconceitos já existiam na Europa, logo a propaganda foi certeira em ressuscitar essas idéias.

Ainda assim, é perigoso quando a série os nomeiam como fascistas pois isso banaliza o termo e passa uma falsa impressão. No entanto, essa não seria a primeira vez que a Disney/Marvel trataria um assunto de forma superficial.

Quem está por trás disso?

A Marvel é conglomerado capitalista, assim como qualquer outro estúdio ou empresa. Logo, existe um cuidado mercadológico com os assuntos polêmicos para não causar uma aversão do público no geral. O objetivo acima de tudo é o lucro e se a pauta o prejudica, ela vai suavizar o tema. Não que a discussão perca a sua importância, mas não irá se aprofundar na raiz do problema. A pauta racial de Falcão e o Soldado Invernal por exemplo, não questiona o papel da branquitude perante a discriminação. Este é um tópico essencial ao estudar o assunto, mas fica de lado pois mercadologicamente seria perigoso.

No caso de Loki, o assunto pode servir apenas para que o vilão principal seja visto como uma grande ameaça. Existe ainda a possibilidade de ter uma conexão com o Kang, o Conquistador, vilão que estará em Homem-Formiga e a Vespa 3, logo, apresentá-lo como fascista temporal o deixaria com um status perigoso para o futuro do MCU.

Mas que a reflexão deixada pela série não fique em vão, cabe ao espectador refletir mais além das cenas com efeitos especiais. Governos autoritários desta forma podem aparecer a qualquer momento, disfarçados com uma mensagem de ordem. Inclusive, é o que tem acontecendo desde que a extrema direita começou a ascender no fim da última década.

Logo, sendo ficção ou um tema apresentado de forma superficial, não se pode ignorar a grande ameaça que o fascismo é para a sociedade.

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Revisado por Maria Oliveira