Os acontecimentos de 2020 nem de longe são o que alguém um dia desejou viver em apenas um ano. Pandemias, vulcões em erupção, uma ameaça de guerra mundial, um enxame de gafanhotos, um furacão bomba e entre outros eventos que seriam inimagináveis há um ano atrás. Apesar de um desejo de que as coisas melhorem, é nítido que existe uma falta de esperança em cada indivíduo e uma sensação de que o mundo conhecíamos antes, não vai existir de novo.

Me pegando a esse pensamento, por coincidência me deparei no Twitter com um vídeo antigo de Christopher Reeve falando sobre como ele enxergava o Superman filosoficamente e sua resposta foi simples: “um amigo“. Esse vídeo tem como contexto uma sociedade que ainda se encaminhava para ser essa que conhecemos, em meados de 1987, mas ele tinha uma visão de que as pessoas estavam cada vez mais desconectadas, sem conhecer os seus vizinhos e desconfiadas com o próximo. Então as pessoas não precisavam de um cara com músculos para as salvarem, elas precisavam de um amigo que as fizessem sentir bem.

A figura do Homem de Aço já passou por diversas interpretações ao longo de sua existência, afinal já são mais de 80 anos e o mundo atravessou por diversos conflitos históricos que fez mudar inúmeras perspectivas. Por conseguinte, abriu-se margem para que muitas pessoas – e até mesmo artistas – não entendessem bem o que um ser dotado de todas as forças possíveis poderia representar para humanidade, sendo este ser um super-herói.

Reprodução/Warner Bros.

Para alguns, ele é uma espécie de tirano que utiliza a sua imagem de Clark Kent para satirizar a vida mundana dos humanos enquanto os salva sob a capa (Tarantino em Kill Bill), outros fazem o Superman ser uma espécie de policial que segue à risca o que está na lei e age como o sistema judiciário (Frank Miller em qualquer história que já escreveu), e tem quem adora fazer alusões religiosas do que aconteceria se um Deus estivesse entre nós (Zack Snyder no DCEU).

Para entender o Superman, é necessário compreender que ele representa a verdade, a justiça e um ideal pela qual lutar. Apesar de sua força ser útil para combater os vilões que ameaçam o mundo e o universo, é o seu amor pela humanidade que o faz ser diferente dos outros heróis e um símbolo de inspiração, para que as pessoas se lembrem de que elas são boas e podem fazer boas ações. Ele representa o melhor que nós podemos ser.

Em Superman All-Star de Grant Morrison, uma pagina bastante tocante o mostra impedindo uma adolescente de cometer suicido, a fazendo acreditar no quão forte ela é e que consegue suportar a sua dor, sem querer se concentrar no mundo exterior.

Reprodução/DC Comics

Em contraponto quando olhamos para a figura do Clark Kent, ele é apenas um cara normal, todo atrapalhado, tímido, com um emprego, suas contas para pagar, o amor de sua vida e um amor por onde ele veio. Ele não é uma sátira ao nosso modo de viver, como um bom jornalista ele precisa ser os olhos atentos da sociedade e opta por seguir uma vida normal nas horas vagas, pois só assim ele consegue entender a graça de ser humano.

Essa visão do personagem vem sendo replicada desde que Superman – O Filme chegou aos cinemas em 1978. Muitos dos trejeitos que Reeves deu ao personagem, pode ser visto nas animações e em histórias em quadrinhos, além do roteiro focar muito mais na sua essência do que em contar uma história sobre o mundo em perigo eminente. Uma das cenas que sempre aparecem na internet é quando um ladrão tenta assalta-lo em um beco e ele lhe responde: “você não pode resolver os problemas da sociedade com uma arma“.

Normalmente nas postagens que essa cena é publicada, as respostas são sempre “ah, mas só em filme mesmo” ou “sendo o Superman é fácil falar isso”. Em 2001, foi publicada a HQ Olho por Olho? que coloca o Homem de Aço em conflito com o grupo chamado A Elite, que começa a questionar as ações do herói em não matar os seus inimigos, alegando que isso só contribui para que eles fujam e continuem matando inocentes.

Na resolução, quando o embate deixa de ser ideológico e se torna físico, Kal-El ilude Manchester Black, o líder da equipe, o fazendo acreditar que todos os membros estavam sendo mortos em combate. Já aterrorizado, Black então recebe um sermão do Superman de que ele nunca fará de outro jeito, o provando um ponto de que a partir do momento que a força se prevalece sobre o outro, isso dará o poder de fazer absolutamente tudo e esse poder é nocivo.

Cena da adaptação Superman contra a Elite – Reprodução/Warner Bros.

Quando coloco no título que o mundo nunca precisou tanto do Superman, isso se reflete em diferentes questões. No cinema atual não existe uma história que realmente seja inspiradora e interessante, então existe uma geração que vai crescer achando que a visão do Zack Snyder é a versão definitiva quando não é; não existe uma perspectiva de um filme que honre esse legado já que existem pessoas dentro da indústria que diz que seria difícil de adaptar (quando não é) e o mais importante: essa é uma geração que precisa se inspirar em algum ideal e acreditar que ainda podemos ser bons como indivíduos e com isso transformar sociedades.

Em dias em que acordamos desolados e sem imaginar um futuro próximo que seja próspero, a questão que permeia Superman – O Retorno do início ao fim tem uma resposta: o mundo precisa do Superman.

Confira abaixo o vídeo citado durante o texto:

Este artigo teve como base o texto “Frank Miller não entende o Superman” do CBR

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