Figuras emblemáticas da cultura pop, os super-heróis têm por principal mote a questão dos ideais. Suas particularidades e individualidades são primordiais para definir sua identidade e seu modus operandi na hora de combater o crime. Diversos fatores influenciam na formação do caráter desse justiceiro, e o meio no qual é moldado interfere diretamente no produto final, a exemplo do Superman e a adoção dos ideais de justiça e altruísmo, incutidos pela criação num ambiente familiar saudável e regido por esses conceitos.

Da mesma maneira, a formação militar juntamente com o trauma proveniente da perda da família, moldaram Frank Castle e o transformaram no Justiceiro, um vigilante que se utiliza de assassinato, tortura e outros métodos violentos em sua tática de combate ao crime.

Dessa forma, os ideais seguidos por determinados heróis passam a se fundir com a persona criada para esconder suas identidades civis, e estes passam a representar e espelhar princípios éticos quase sempre atrelados à ideia de passar segurança para a população a ser protegida.

Identidades e personas: a questão da representatividade

Desde seu surgimento nos anos 30 até os dias atuais, o gênero de quadrinhos de super-herói passou por inúmeras mudanças e foi angariando cada vez mais público, com personagens que marcaram época e continuam a encantar públicos de todas as idades, com histórias sendo publicadas com regularidade até hoje. Inicialmente com um escopo muito limitado de personagens – muito atrelado à hegemonia masculina e branca dominante até então – as principais empresas de quadrinhos foram diversificando seus heróis à medida que o público consumidor foi aumentando. Sendo assim, a passos lentos começam a surgir heróis não-brancos, LGBTs, mulheres e afins (embora muitos desses tenham representações no mínimo questionáveis no que diz respeito à quebra de estereótipos pretendida).

Como afirmado anteriormente, a persona de um herói é moldada pelos seus ideais, sendo esse o motivo pelo qual muitas vezes heróis que pertençam a uma minoria carregam sua identidade pessoal atrelada à identidade heroica (motivo pelo qual o whitewashing em personagens não-brancos configura um apagamento pesado na maioria das vezes). Mas será que representatividade de verdade é só criar cada vez mais personagens pertencentes a minorias, individualizando cada vez mais as demandas, e manter o status quo dos principais personagens inalterados?

Quando o uniforme se torna maior do que quem o veste

Seguindo o fluxo narrativo dos principais heróis de quadrinhos (desde os anos 40 aproximadamente), é de se esperar que determinados personagens ao longo de seu percurso tenham vivido inúmeras experiências e envelhecido (salvo alguns casos) ou não conseguido mais lidar com os percalços de ser um super-herói. A partir daí há certa diferenciação entre a persona do super-herói e sua identidade civil, e em alguns casos, a representação de certos ideais éticos se torna tão atrelada àquela figura heroica, que ela se torna muito maior do que a identidade de seu portador.

Sendo assim, não deveria ser de se estranhar que esses heróis passem à frente seus mantos e tornem aquele nome heroico em algo muito maior do que a identidade de qualquer portador, como vimos acontecer recentemente com muitos personagens. E dentro de uma noção de representatividade e equidade, por que incomoda tanto que heróis clássicos cujas identidades civis sejam de homens brancos se aposentem e passem seus mantos a não-brancos ou a mulheres ou a LGBTs?

As primeiras tentativas de diversidade e suas reações

Exemplos de reações negativas de fãs tradicionalistas não faltam. Com o anúncio de Jane Foster assumindo o Mjolnir e se tornando a Poderosa Thor em 2014, a internet foi tomada por fãs que criticaram arduamente a escolha da Marvel Comics em deixar que uma mulher assumisse o martelo. Na contramão do que previam alguns, a HQ foi sucesso de crítica e vendas, mostrando que assim como o Mjolnir, alguns legados são muito maiores do que seus portadores.

Coração de Ferro também foi alvo de críticas por parte do público conservador. Ter uma jovem negra assumindo a armadura do Tony Stark causou imensa indignação entre uma parcela dos fãs, embora o retorno financeiro tenha sido muito bom, a ponto de ser confirmada a produção de uma série solo da heroína na Fase 4 do MCU, prevista para 2022.

Mais recentemente, a série Falcão e o Soldado Invernal trouxe Sam Wilson, o Falcão, assumindo o escudo do Capitão América, anteriormente nas mãos de Steve Rogers, o primeiro Vingador. Muito embora a aposentadoria de Steve e a passagem para Sam tenham sido meticulosamente construídas, o público mais conservador reagiu negativamente ao fato de um homem negro sem o soro do super-soldado assumindo o papel de um herói que em cada detalhe seu representa os Estados Unidos da América.

Crítica ou preconceito?

Uma vez que a aposentadoria ou morte de alguns heróis é inevitável para manter um bom ritmo narrativo nas histórias sem apelar para constantes reboots dos universos ou criação de terras alternativas, qual a grande problemática em inserir maior diversidade dentro dos uniformes de heróis já renomados e que carregam ideais tão nobres?

Não é uma questão de mero apego a identidades como Steve Rogers ou Tony Stark, mas sim uma problemática mais ampla, que acomete boa parte do público nerd: a manutenção de privilégios representativos e a reminiscência de ideias racistas, misóginas e LGBTfóbicas, que deveriam estar fora das histórias de super-heróis ou relegadas a terceiro plano, com a mera criação de personagens diversos, mas mal trabalhados ou com pouco tempo de tela.

Sendo assim, vale sempre lembrar que o mercado de quadrinhos e afins se renova de acordo com as demandas de seus consumidores, e com a diversificação do público leitor e as cada vez mais intensas reivindicações sobre questões de representação e diversidade (além da qualidade dessas representações), é natural e esperado que as empresas estejam a par dessas discussões e adaptem seus produtos.

A diversidade existe e deve ser reivindicada nas representações midiáticas, embora esse não deva ser o único passo, muito menos o principal na resolução de problemas minoritários. Considerar que os ideais e princípios éticos carregados por alguns super-heróis são muito maiores que eles mesmos, podendo ser assumidos por qualquer pessoa que carregue esses ideais é o primeiro passo rumo à equidade nessas representações.