Lançado oficialmente pela netflix na última quinta-feira (29), o anime Yasuke traz a história do samurai negro, uma das figuras históricas mais interessantes do período mais famoso da história japonesa, o período de guerra civil, ou Período Sengoku. Encomendado ao Estúdio MAPPA, responsável por produções recentes e de grande sucesso comercial como Shingeki no Kyojin, Dororo e Jujutsu Kaisen, tem como diretor e produtor-executivo LeSean Thomas, além de trazer o premiado Lakeith Stanfield (de produções como Corra!, Judas e o Messias Negro e Atlanta) como voz do protagonista.

A figura por trás da lenda

Enquanto figura histórica, Yasuke é uma grande incógnita e a maior parte das informações que se tem sobre ele partem de especulações e de longos trabalhos de investigação minuciosa. Acredita-se que tenha sua origem em Moçambique, muito provavelmente vindo do povo Yao, embora também hajam teorias de que ele viria da Etiópia ou Sudão do sul.

Durante o século XVI, Portugal empreendeu e expandiu suas viagens dentro da Carreira da Índia – rota comercial que ligava Lisboa à Ásia – e com o auxílio dos jesuítas, chega ao Japão em 1542, encontrando um país em guerra civil, dividido em territórios comandados por nobres militares que guerreavam entre si, intitulados Daimyo.

Não demora para que os portugueses, estabelecidos em Nagasaki, se adaptem à situação japonesa. Percebendo que não seriam capazes de conquistar o país pela força, investiram no comércio direto com determinados Daimyo, e a missão jesuíta tem intensa importância na intermediação dessas relações, bem como na criação das primeiras gramáticas de tradução da língua japonesa. Nesse contexto insere-se também a escravidão africana, uma vez que os cativos eram figura carimbada dentro das viagens da Carreira da Índia, que perpassavam também a África.

E é nesse contexto que se insere Yasuke. Escravizado desde a infância, chega ao Japão como cativo do visitador jesuíta Alessandro Valignano em 1579 aproximadamente. Lá causa enorme frisson numa sociedade até então muito fechada, e que jamais havia visto um negro. As fontes nos contam que Oda Nobunaga, o primeiro dos três grandes líderes militares do período, interessou-se pela figura curiosa e o levou para seu serviço. Sendo referido como o único estrangeiro presente nas forças de Nobunaga, pressupõe-se que este teria aprendido a falar a língua japonesa. Após a morte de Oda e a derrota de seu filho, Nobutada, perde-se o rastro de Yasuke. Algumas fontes afirmam que este teria sido capturado e entregue como escravo aos jesuítas em Kyoto, embora não passe de uma especulação.

Enredo e construção de personagens

Embora a própria história de Yasuke já seja por si só um grande épico digno de shounen, a adaptação traz um toque sobrenatural dentro do enredo: 20 anos após a morte de Oda Nobunaga e a derrota de seu filho – Oda Nobutada, Yasuke se aposenta da vida de samurai e passa a trabalhar como barqueiro num pequeno vilarejo no interior.

No entanto, estranhos acontecimentos envolvendo Saki, uma pequena garota com poderes sobrenaturais e um grupo de mercenários fazem com que Yasuke volte a brandir sua espada em defesa do equilíbrio do país. Dividido em seis episódios de aproximadamente 30min cada, a história introduz muitos elementos e questões e não elucida quase nenhum deles.

Os vilões são apresentados de maneira brusca, e suas motivações não são explicadas, dando um tom muito superficial à história. Muitos elementos e problemáticas são citados: presença católica em solo japonês; estranhamento dos nativos acerca da origem étnica de Yasuke; o treinamento samurai ofertado ao protagonista por Oda Nobunaga; o misterioso colar que aparece inúmeras vezes na trama, além do estranho grupo de mercenários completamente deslocado do contexto japonês.

Nenhuma destas questões é respondida, assim como ficam em aberto questões como a origem dos poderes de Saki e o passado de Yasuke antes da chegada ao Japão, uma vez que o mesmo chega ao arquipélago nipônico já adulto.

Começando de maneira sangrenta e com o roteiro demorando a engatar, o expectador chega aos dois últimos episódios com a sensação de que a história se perdeu em algum ponto e cada vez mais se enrola, para chegar a uma conclusão extremamente simplificada e com um “final feliz”. A classificação indicativa de 18 anos certamente diz mais respeito à violência das lutas do que à complexidade do enredo, que se baseia no clichê de luz versus sombras e não traz nenhuma grande reflexão ou jornada impactante.

Enquanto adaptação histórica

Enquanto adaptação histórica, Yasuke se vale de inúmeros estereótipos, e não pontua questões que seriam de primordial importância na jornada do herói, como sua origem africana e seu contexto de escravidão. No que diz respeito ao passado de Yasuke, este sempre é referido com o termo “servo”, com uma conotação negativa que não se encaixa bem no contexto histórico, uma vez que o próprio termo “samurai” vem do verbo saburu, significando “servir”.

Sendo assim, um samurai é antes de tudo, um servo de seu Daimyo, e a não-observância desses pequenos detalhes nos dá conta de como a produção ignorou o contexto da escravidão e exploração africana que também permeou (e muito) a presença portuguesa na Ásia. Mesmo os figurinos de nobre europeu atribuídos a Yasuke antes de ser levado por Nobunaga são inverossímeis e incongruentes com sua condição.

A estética e os figurinos estão também deslocados, o que é curioso, uma vez que o Estúdio MAPPA foi o responsável pelo lançamento de Dororo em 2019, cuja trama se passa praticamente no mesmo período histórico que Yasuke.

O uso equivocado de conceitos como Onna Bugeisha e Daimyo também acaba por imprimir um caráter estereotipado à obra, ignorando diversas discussões atuais e interessantes que poderiam ser destacadas, como o papel das mulheres na arte da guerra. Em relação ao grupo de mercenários que faz algumas aparições como vilões no início da série (e assumem o papel de anti-heróis ao final), diversas incongruências podem ser destacadas, como a existência de um mecha avançadíssimo tecnologicamente (utilizando recursos como visão infravermelha e afins) em pleno século XVII. Destaque também para o estereótipo carregado pela personagem Nikita, uma mulher russa com a habilidade de se transformar em urso gigante.

As complexidades da história militar desse período são também muito simplificadas, a exemplo da traição do general Mitsuhide, que na trama é motivado por pura ganância e ódio pela inclusão de estrangeiros e mulheres nas fileiras de Nobunaga. A própria figura de Oda Nobunaga é trazida também de maneira intensamente romantizada, ignorando que suas alianças “incomuns” tinham mais a ver com acumular todos os recursos possíveis em sua missão de unificar o Japão, do que necessariamente uma tentativa de ser inclusivo.

Considerações finais

Pode-se concluir então, que Yasuke traz uma ótima premissa inicial, bem como um time de produção excelente. No entanto, o roteiro superficial e as incongruências com a figura do samurai negro, nos fazem ver que a obra peca tanto como adaptação histórica quanto roteiro ficcional. Talvez tenha sido um tanto pretensioso por parte da produção trazer tantos elementos e não aprofundar nenhum deles.

Ou talvez seguir uma linha narrativa que não tivesse tantos elementos sobrenaturais e nos apresentasse a longa jornada deste guerreiro, da África até seus últimos dias em terras japonesas; o estranhamento numa terra distante e sua evolução como guerreiro seria uma aposta um pouco melhor.