Texto publicado originalmente no dia 18 de Junho de 2018, no site “Retalho Club“.

O clipe de “Fadinha” se inicia com uma apresentação de Frimes, onde, logo em seguida, a mesma aborda a censura que sofre utilizando anagramas e termos geralmente encontrados na ficção cientifica. Em um dos frames é citado que o mundo foi atacado violentamente pelo YT EMRT, que nada mais é que um jogo de palavras para (YT) Youtube e (EMERT) Temer – o atual presidente do Brasil e responsável pelas censuras em questão. O trecho de apresentação segue, quando Frimes diz “Á bordo da nave AI-5…”, uma clara referência ao Ato Institucional número 5, que foi o golpe que deu poderes quase absolutos para o regime militar em 1968, onde a tortura em busca de respostas foi liberada etc. O fato de YT EMERT ser um covil de torturadores e como o corpo e voz de Frimes são silenciados também são contestados. A mesma alega que a revolução está apenas começando e que integridade amor e união são as armas para combater toda a repressão presente.

“Fadinha” já possui um peso enorme, por ser a arte de uma Drag Queen do Nordeste; uma pessoa ganhando espaço num lugar repleto de tanta homofobia e xenofobia, mas que foi tirado da mesma, ironicamente e lamentavelmente, logo após o dia da luta contra a LGBTQfobia. Mas ao invés disso prejudicá-la, acredito que trouxe ainda mais vida e voz para Frimes.

A música e videoclipe em questão são de uma extrema genialidade. “Eu já desenvolvi meu próprio processo criativo: produzo os beats, crio uma melodia com vocais, depois construo e melodia e harmonia, back vocals, e enfim o processo de mix e master…” –  Frimes para entrevista com a POPline. O clipe também foi totalmente caseiro e conta com uma equipe inteiramente do Maranhão. E a direção, roteiro e montagem são do Lucas Sá. Frimes tem um estilo único e busca diversas inspirações, desde Alexander Mcqueen até os animes SailorMoon e Sakura CardCaptor. Já no quesito musical, a cantora Grimes tem uma grande influência sobre a mesma. O videoclipe não tem apenas falas que nos remetem á ficção cientifica; em uma das cenas temos Frimes saindo de um casulo, uma referência a Matrix.  

O cenário musical brasileiro vem se tornando cada vez mais incluso, com mulheres, LGBTQ + etc. Um grande exemplo disso são cantores Jalão, Aretuza Lovi, Gloria Groove, Lia Clark, Jade Baraldo, Jojo Maronttinni e agora tema a Frimes ainda mais ativa. Anos atrás o que mias tínhamos eram cantores homens, brancos e héteros liderando este posto. Todavia, mesmo que estas pessoas estejam ganhando seu espaço é importante salientar que estamos apenas no início de conquistar devidamente a liberdade de expressão/artística, pois isso que aconteceu com Frimes só deixa mais claro como a homofobia e todo preconceito continuam presentes. Vemos isso até em outros países, onde clipe da Rihanna, por exemplo, como Needed Me ou Bitch Better Have My Money têm restrição de idade, mas de outros artistas, como Marron 5 em Animals, têm cenas explícitas de nudes, sague etc. e permanecem intactos, pois são julgamentos totalmente diferentes onde a etnia, gênero e orientação sexual são analisados no lugar do conteúdo em si.

Em dezembro AI-5 completa 50 anos, e Frimes deu uma clara lição do que foi este ato e de como o mesmo prejudicou e ainda prejudica o progresso de tantas pessoas. Fadinha não se trata apenas de uma música, mas sim do rompimento do silêncio e censura contra as minorias.

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