Basta a simples menção ao termo “Idade Média” para que surjam diversas imagens comumente associadas ao período: enormes castelos fortificados, guerras e batalhas sangrentas, feudos e nobres, cavaleiros e seus códigos de honra, camponeses, padres e realeza. E quando se trata dessa temática dentro da cultura pop, há uma infinidade de representações em diversas mídias: filmes, games, RPGs, quadrinhos, séries e livros. Pode-se dizer até certo ponto, que o imaginário de fantasia medieval norteou boa parte da história dessas mídias, e não faltam títulos que possam exemplificar o sucesso dessa categoria, tão tradicional e tão atual em suas várias roupagens.

É de conhecimento comum que o público consumidor inicial do nicho geek se centrava na figura do homem branco de classe média/alta, mantenedor de certos privilégios sociais. Com a crescente diversificação do público consumidor, as empresas do segmento nerd tendem a flexibilizar seus produtos de forma a abarcar a maior quantidade possível de fãs, e consequentemente, de rendimentos. Junto a essa dinamização de público temos também a crescente onda de debates sociais encabeçados por grupos minoritários e a demanda por representatividade nas mídias.

Essas mudanças nem sempre agradam aos fãs “originais”, em especial no que tange às mídias que envolvam ficção medieval (um segmento que possui alguns dos fãs mais ferrenhos e contrários à ideia de representatividade, por vários motivos). Um dos argumentos levantados pelos mesmos perpassa a ideia de que pelo embasamento e ambientação histórica dessas obras, colocar minorias em papeis de destaque não-estereotipados é inverossímil. Mas será que é possível falar de Idade Média e representatividade sem cair na falácia do anacronismo?

Escola de medicina islâmica.

O que é Idade Média? Senso comum versus pesquisa histórica

Dentro da historiografia (ciência que estuda a escrita da história e suas abordagens teórico-metodológicas), a própria marcação de tempo é um quesito extremamente relativo, já que perpassa especificidades culturais e geográficas. Há uma convenção de se utilizar o calendário gregoriano e dividir os períodos em “eras” ou “idades”, partindo do surgimento da escrita como ponto inicial e tendo o nascimento de Jesus Cristo como marco zero da história (por isso a utilização dos termos a.C. e d.C.). Essa divisão é feita em: Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea. Tendo em vista o eurocentrismo desse modelo, buscar-se-á aqui, utilizá-lo como modelo comparativo e geral de divisão do tempo, tendo em vista que este último não se fixa a questões geográficas. Sendo assim, o ano 632 é o mesmo na Europa, na América, África, Ásia e Oceania, modificando-se apenas a marcação que é feita do mesmo.

Segundo o calendário gregoriano então, a Idade Média corresponde ao período de tempo entre o século V e o século XV, tomando como marcos respectivamente a queda do Império Romano Ocidental e a queda de Constantinopla. Há de se convir que são marcos profundamente ocidentais e eurocentrados. Dentro do senso comum, pode-se dizer que a primeira imagem que é associada com o termo Idade Média costuma ser a de uma estrutura sociopolítica e econômica intitulada Feudalismo. Caracterizado pelo enfraquecimento da figura monárquica e da presença forte da Igreja Católica em diversos aspectos burocráticos e cotidianos, o feudalismo descentralizou os poderes, distribuindo-os entre uma nobreza detentora de terras, e por consequência, de riquezas e da produção de gêneros alimentícios e afins. Uma das principais características desse período é a institucionalização da ideia de Suserania e Vassalagem, onde o suserano e seu vassalo faziam um acordo (quase sempre mediado pela Igreja, tendo em vista o caráter religioso desse contrato) em que este último deveria servir ao primeiro, que por sua vez tem por obrigação acudir e proteger o mesmo. É importante pontuar que diferente do que comumente é colocado, esse acordo de ajuda mútua não se empregava apenas ao nobre e seu camponês, mas também ao nobre que prestava vassalagem a outro de estatuto maior, que por sua vez também poderia ser vassalo de outro nobre mais intitulado e daí em diante.

A compreensão dessa estrutura se faz extremamente necessária, uma vez que esse sistema permitia a um rei que convocasse seus vassalos para uma guerra, e estes convocassem os seus[1]. É também primordial ressaltar que a religião estava de tal modo entremeada no Estado que boa parte dos registros oficiais é feita pela Igreja[2], caracterizando mais uma vez o caráter de especificidade do Feudalismo. Portanto, levando-se em consideração que o sistema feudal foi específico da Europa Ocidental durante este período, é realmente justo associar a Idade Média inteira apenas a um sistema limitado geograficamente, ignorando os processos históricos do resto do mundo?

“[…]Uma vez que, como é evidente, tantas sociedades separadas pelo tempo e pelo espaço só receberam a designação de feudais por causa das suas semelhanças, verdadeiras ou supostas, com a nossa feudalidade, o que importa antes de tudo isolar são as características desse caso-tipo.”[3]

A eterna dicotomia céu-inferno era um dos principais aspectos culturais dentro da Europa Feudal.

Idade Média numa perspectiva global

Ao se analisar então, a ideia de Idade Média como uma marcação de tempo e não como uma estrutura social/política ou como sinônimo de Feudalismo, tem-se uma multiplicidade de campos de análise partindo do ponto geográfico. Entre os inúmeros exemplos de civilizações e povos, destacaremos aqui um povo de cada continente.

Em contato constante com o mundo europeu, temos o Islã, marcado pela ligação entre Estado, comércio e religião, se expandindo a partir desses três pilares no Oriente Médio e norte da África, sem contar com a medicina mais avançada do mundo até este momento. Mais ao sul no continente africano, temos o Império de Gana, numa região entre o rio Níger, o rio Senegal e o deserto do Saara, marcado pelo comércio e pela exploração do ouro, dominando regiões próximas. Na América temos impérios indígenas grandiosos, a exemplo dos Maias na Mesoamérica, com amplo desenvolvimento da agricultura, com destaque para os complexos sistemas de irrigação e para os sistemas de escrita, matemática e arquitetura próprios e extremamente característicos.

Glifos maias oriundos de Palenque, México.

Na Ásia, no período medieval temos civilizações como o grande Império da China, responsável por diversas criações e inovações tecnológicas posteriormente adotadas pela Europa, bem como uma das primeiras civilizações a instituir concursos públicos e um maquinário estatal (apoiado em bases filosóficas próprias) extremamente eficiente. Outro grande exemplo de civilização asiática nesse período se centra no Japão, que durante o período medieval experimenta certa paz entre guerras e vê florescer a escrita, a literatura e a poesia como forma de expressão cotidiana.

Com todos esses exemplos, vê-se que não há qualquer outra explicação para a associação entre Idade Média e Feudalismo que não a existência de uma perspectiva extremamente eurocêntrica. A partir disso, considerando a multiplicidade de povos, etnias e afins durante essa marcação temporal, é realmente inverossímil falar em representatividade em obras que se baseiem no medievo?

Murasaki Shikibu (973 d.C.- 1014 d.C.), autora do Genji Monogatari, um dos maiores clássicos da literatura japonesa e mundial.

Representatividade em mídias baseadas no medieval: as falácias e possibilidades

Neste ponto, cabe desmistificar algumas falácias enraizadas no senso comum no que tange às mídias tradicionais que representem ficções medievais, que vêm a ser utilizadas como “argumento” contra a expansão de personagens que fujam ao estereótipo do homem branco medieval. A priori, cabe uma reflexão do ponto de vista racial: considerando a grande diversidade de povos e civilizações complexas, é mais do que natural que uma ficção que tencione basear-se no medievo possua personagens não-brancos em papel de destaque, sem que isso constitua um anacronismo ou uma estratégia de representatividade puramente comercial. Uma das obras contemporâneas que acerta em criar uma multiplicidade de povos e etnias é a série de livros As Crônicas de Gelo e Fogo, ainda que os personagens centrais sejam descritos de forma caucasiana, embora com diferenças em seus fenótipos.

Pode-se também trazer personagens LGBT+ sem que isso configure um anacronismo, uma vez que as noções de sexualidade são muito fluidas mesmo no medievo feudal. Antes do período inquisitorial (que se estabelece na Idade Moderna e não na Idade Média, como o senso comum nos leva a pensar), tem-se relatos de romances e de relações homoafetivas[1], além de que, ao se considerar a multiplicidade cultural desse período, há de se convir que as noções e as definições de gênero são completamente variáveis.

Já no que tange à questão feminina, temos exemplos históricos de mulheres que se letraram e fizeram a diferença no campo político, a exemplo de Christine de Pizan e seu Romance da Rosa, questionando diversos aspectos da ideia do amor cortês dentro de uma lógica de mundo feudal em que a mesma estava inserida. Para além do mundo feudal na Europa, temos autoras como Murasaki Shikibu no Japão, além de alguns relatos de rainhas guerreiras na África, como a lendária rainha Amina. A partir disso, qual a problemática histórica oferecida por obras baseadas no medievo que apresentem mulheres fortes e independentes? Uma obra que nos traz inúmeros exemplos de mulheres fortes que não sejam resumidas a mero enfeite ou escada para desenvolvimento de um protagonista masculino é a série de livros The Witcher, do polonês Andrzej Sapkowski.

Poster da série baseada nos livros e jogos da franquia The Witcher.

Considerações finais

A partir das diversas problemáticas aqui assinaladas, pode-se perceber que a estrutura central e comum a boa parte das mídias que trabalhem com Idade Média possuem um olhar não apenas eurocêntrico, como também conservador em certa medida. Toda obra possui um caráter político, e é produto do meio social em que foi produzida. A escrita da história por si só também é extremamente política, bem como os seus usos.

Sendo assim, a partir do momento em que se utilizam estruturas e argumentos tomando como base a “acuracidade histórica” como forma de excluir minorias que poderiam sim ser representadas em determinadas mídias sem que houvesse anacronismos, percebe-se como o universo geek, por mais avanços que tenha feito em relação a essas questões, ainda possui inúmeros tabus. Faz-se então profundamente necessário quebrar o elo forjado entre o senso comum e equivocado do que é medievo (senso comum esse que é criado com uma finalidade também política) e a exclusão de determinados grupos sociais de representações midiáticas como público consumidor e que pode (e deve) se ver representado nas mídias que consome.      


[1] Dois exemplos pungentes aqui são as obras “O nome da Rosa” e “As Brumas de Avalon”, que trazem exemplos de romances homocentrados, embora com algumas conotações relativamente negativas.


[1] É importante salientar que até o estabelecimento do Estado Nacional na Idade Moderna, a ideia de nação e exército nacional na Europa Ocidental era nula, sendo o poderio militar muito mais regionalizado ou composto por mercenários.

[2] Não se pode colocar a ideia de religião e Estado nesse período segundo a forma como vemos hoje, pois constituiria um anacronismo.

[3] BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal,1939, p. 504 

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