Texto publicado originalmente em 14 de julho de 2016, no site Retalho Club.

Sempre há uma figura cultural para marcar cada século, de cada lugar e, na França do século XIX nós temos Victor Hugo, com uma obra vasta e um grande impacto cultural com seus romances, peças teatrais e poesias. Victor Hugo foi um homem muito influente, não só na literatura, mas também na política, onde usava sua arte para discutir questões social, progressista e reformista, fazendo criticas à Paris de seu século pela injustiça que havia entre as diferenças de classe. E isso fica claro em todas suas obras, que são carregadas de referências históricas.

“Dante uma vez fez um Inferno com a poesia, e eu escrevo sobre o Inferno que é a vida real de nossa época.”

Uma das obras mais conhecidas e renomadas de Victor Hugo é Os Miseráveis, onde ele trabalha a questão da desigualdade social de 150 anos atrás, que infelizmente ainda está presente nos tempos modernos. Nesta obra ele também aborda a filosofia e religião. Falando sobre o liberalismo e positivismo que se aproximavam cada vez mais da Europa após a Primeira Revolução Industrial, tornando a ciência um marco na sociedade junto com novas regras, tanto econômicas quanto trabalhistas. Em relação à religião, a visão espiritista da existência da vida após a morte física é muito valorizada, já que o autor adotou durante seu exílio e, principalmente, após a morte de sua filha. Esta obra não é marcada apenas por questões sociais e religiosas, mas também pelo romantismo exagerado que tem consigo mortes dramáticas por uma causa pessoal, sacríficos, suicídios e afins. Estas características são, sem dúvida alguma, um dos principais clímax presentes no livro.

“A pobreza e o luxo são dois conselheiros fatais; um ralha, o outro lisonjeia.”

Junto com Os Miseráveis na lista de obras mais aclamadas, nós temos Notre-Dame de Paris, mais conhecida como O Corcunda de Notre-Dame. Este livro tem o objetivo de trabalhar as questões sociais envolta da Catedral de Notre-Dame; modo de vida, pobreza, diferenças sociais etc., e ele nos diz isso a partir do prefácio da obra. Ao contrário do que muitos pensam, a personagem protagonista do livro não é o Quasímodo, o corcunda, e sim a Catedral que está sempre à observar as atrocidades que ocorrem naquele lugar. A trama se desenvolve a partir de um amor envolvendo três personagens da obra: Cláudio Frollo, Esmeralda e Quasímodo. Um destes amores é marcado pela obsessão e automaticamente pela dor de não conseguir ter o que almeja. É uma leitura que te causa muitos sentimentos e, principalmente, a reflexão perante a cidadania e sua forma de demonstrar sentimentos ao próximo.

“Com o tempo, rebocaram ou rasparam (ignoro qual das duas coisas) a parede, e a inscrição desapareceu. Há uns duzentos anos que é costume fazer isso nos maravilhosos templos da Idade Média. As mutilações procedem de toda parte, de dentro e de fora. O padre reboca-os, o arcediago raspa-os, vem o povo que os deita por terra.”

Um outro romance de Victor Hugo é a obra O Homem que Ri. Digamos que este livro possa ser “comparado”, de um modo geral, com Notre-Dame de Paris – pelo menos suas personagens, analisando-as de uma forma mais rasa. A trama gira em torno de Gwynplaine que passa por uma deformação no rosto quando criança, onde sua boca é cortada e a partir disto ele vive como se estivesse sempre sorrindo. Muitas pessoas passam pela vida de Gwynplaine, caçoam do mesmo pela sua terrível aparência. Todavia, duas mulheres não têm aversão à mesma: uma delas, Dea, é cega e, a outra, uma duquesa qualquer. O clímax da trama chega no final onde muitos conflitos e dúvidas passam a aparecer. Esta obra de Victor Hugo é uma das que mais são deixadas de lado pelo publico comparada as outras. Mas também tem seu valor moral e social sobre o julgamento ao próximo e problemas políticos da época.
Uma grande curiosidade sobre O Homem que Ri é que após sua adaptação nos cinemas em 1928 o visual do Coringa foi inspirado em Gwynplaine, interpretado por Conrad Veidt. Então dai surgiu o palhaço com um largo sorriso no rosto.

Algumas obras de Victor Hugo já foram citadas, mas de todos os romances já escritos pelo mesmo o meu preferido é Os Trabalhadores do Mar. Neste livro o autor trabalha os elementos humanos e não-humanos. Forjando um herói que é tratado com desprezo e desconfiança pela sociedade. Sendo um livro escrito durante seu exílio ele retrata extremamente bem o desconforto de estar fora de sua zona de conforto em um lugar deveras estranho para si.
A obra se trata “de um livro escrito pela mão de um marinheiro, carpinteiro e ferreiro, que se apodera da forma do objeto e o modela, moldando-se também a ele”, como disse Focillon. O romantismo de Os Trabalhadores do Mar é algo surreal, onde o lindo se mistura ao triste. A trama é repleta de clímax nos apresentando personagens magníficos como Gilliatt, Deruchette, Lethierry emuitos outros. Cada um com sua motivação pessoal e, mesmo os que não aparecem tanto na história, têm seus papéis significativos para o desenvolver da trama.

“No momento em que o navio dissipava-se no horizonte, a cabeça desaparecia debaixo da água. Tudo acabou; só restava o mar.”

 Mesmo Os Trabalhadores do Mar sendo meu livro preferido devo admitir que, em termos de grandiosidade, Noventa e Três possui uma maturidade literária sem igual. Tendo como herói da trama Gouvin, que representa o revolucionário, e que tenta romper o mal com o bem verdadeiramente – diferente de todos presentes nesta história. Este livro fala sobre fraternidade, igualdade e liberdade em meio a guerra da Vendeia. A leitura apresenta a nós o desapego pela vida, te fazendo questionar se o ato de bravura é heroico ou por vezes de loucura das personagens.
E assim foi acrescentada mais uma brilhante obra aos romances de Victor Hugo.

Uma das melhores formas de se estudar a vida e obra do autor é à aproximação ao estudos da História; Revoluções, guerras, Industrialização e afins, dito que, suas obras são repletas de referências a essa época de conflitos do século XIX. Victor Hugo sempre foi um homem muito religioso que ao mesmo tempo acreditava no poder da Filosofia, trazendo para seus romances, peças e poesias, reflexões filosóficas e religiosas. E mesmo suas obras abordando a todo momento questões sociais e isto parecer “cansativo” para alguns, o autor sempre teve a audácia de fazer o diferencial mesmo abordando assuntos semelhantes. Talvez esse seja um dos seus maiores dons: mostrar que é possível lutar por uma causa – mesmo que isso não te prejudique diretamente -, utilizando o mesmo recurso, mas sempre mudando suas personagens e tornando-as únicas de uma forma especial e pessoal, onde, o mais minimo detalhe vale. E isso é uma outra curiosidade: Victor Hugo era alguém extremamente detalhista. Se você deixa passar um capítulo ou, até mesmo uma frase, seu compreendimento em relação à obra pode ser falho.

Há coisas que todos nós deveríamos fazer antes de morrer e, deixar de ler pelo menos uma obra de Victor Hugo, seria pecado.

“Não há nada como o sonho para criar o futuro; utopia hoje, carne e osso amanhã…”