Iniciada em 1993 com uma série de livros que contou com 8 volumes, a saga polonesa The Witcher já foi adaptada das mais variadas formas; de filmes e séries a games e jogos de tabuleiro. Escrita por Andrzej Sapkowski, a história do Bruxo Geralt de Rívia, tem conquistado fãs ao redor de todo o mundo. Um universo mágico, repleto de magia após um antigo acontecimento fenomenológico intitulado “Conjunção das Esferas”, dentro de um continente não identificado, povoado por elfos, anões, ananicos e outros tipos de criaturas, numa organização bem clássica de RPG.

Geralt de Rívia é um bruxo (Wiedźmin), uma espécie de corrupção de jovens humanos que eram forçados a mutações extremas. Essas mutações os imbuíam de sentidos sobre-humanos e os permitia usar um tipo de magia rudimentar, os sinais. Essa classe foi criada e aperfeiçoada com o objetivo de caçar monstros e proteger as pessoas. Em contrapartida é excluída da sociedade, e por muito tempo se cria um estereótipo de que bruxos são criaturas monstruosas e aberrações sem coração.

O bruxo Geralt de Rívia, na adaptação para a netflix, vivido por Henry Cavill, e em sua versão digital mais recente, no game The Witcher 3: Wild Hunt.

Quando somos apresentados a Geralt, vemos o resultado de um levante popular contra a classe dos bruxos. Ataques são feitos contra as fortalezas de bruxos, divididos em “escolas”, e estes foram massacrados por populares. Na trama, apenas os bruxos que se encontravam fora de suas fortalezas, em missões, é que sobreviveram aos ataques. A narrativa nos leva então a Geralt ora em suas andanças como caçador de monstros, ora em sua jornada junto à princesa Cirilla de Cintra, a quem ele adota como uma filha.

Dentro do universo dos livros e a continuação de sua narrativa no game The Witcher 3: Wild Hunt, a palavra de sucesso é imersão. Uma história tão complexa e cheia de minúcias, composta ora de contos, ora de narrativa corrida (em relação aos livros); e composta também de pequenas missões cotidianas ou uma trama longa a ser percorrida (no caso do game). E um dos fatores mais decisivos nessa imersão é certamente a criação e desenvolvimento de um universo complexo; isto é repleto de minúcias nas escalas micro ou macro, comportando assim vários conceitos contemporâneos ao espectador, entre eles o conceito de tempo. Conceito esse dividido aqui em tempo histórico e tempo cronológico.

No tempo cronológico estão todas as noções de tempo mais curtas, desde agora e ontem até uma semana ou 10 anos. Isso porque o tempo cronológico se baseia nas marcações de tempo individuais. Dentro do universo The Witcher isso pode ser sentido mais claramente no game, onde um dos fatores de imersão se encontra na possibilidade de realizar missões ocasionais, enquanto passa por um lugar aparentemente aleatório; na ampla gama de atividades puramente cotidianas que se pode fazer; e nas missões que demandam que você espere alguns dias até buscar sua recompensa, marcando bem o pretexto de tempo cronológico.

Outro exemplo da utilização do tempo cronológico no game se encontra nos livros, recortes e cartazes que se pode encontrar ao longo do cenário; demonstrando como acontecimentos anteriores (perfeitos fanservices para aqueles que leram com os todos os detalhes os livros) ou mesmo decisões tomadas pelo jogador interferem na vida atual, delineando assim percursos de uma história do tempo presente.

Já o tempo histórico por definição é aquele que transcende a noção de marcações de tempo individuais, e se baseia na necessidade de guardar uma memória impactante a uma sociedade. O tempo histórico demanda assim, uma formação prévia daquele que o descreve. São marcadores de tempo histórico conceitos como Idade Média, Brasil Colonial, Pós-modernidade, entre outros. E em comparação à imersão induzida pela escala micro e pela noção de cotidiano dentro do game; nos livros essa imersão se dá por meio do tempo histórico e de uma escala macro.

Tendo no início de cada capítulo uma considerável variedade de trechos de documentos fictícios que dentro do universo dos livros poderiam ser considerados como fontes históricas; compêndios históricos, livros de ciências mágicas, registros dinásticos, pinturas, diários e cartas. E é por meio desses trechos que o autor induz o leitor atento a fazer um trabalho micro-histórico, comparando o contexto micro (a jornada de Geralt que acompanhamos em segunda pessoa) com o contexto macro – por meio dos trechos selecionados de maneira a elucidar o contexto histórico daquele universo, levando o leitor a compreender melhor os rumos da narrativa.

Sendo assim, temos aqui um universo muito bem construído e trabalhado, de maneira a justificar a longevidade da saga e suas mais diversas adaptações, trabalhando sempre com o fator da imersão, e a utilização de recursos (propositalmente ou não) historiográficos associados às estruturas narrativas.