O Retalho teve acesso ao game graças a equipe da Capcom Brasil e Warner Bros.

Resident Evil ficou famoso na geração do PlayStation One por ser um dos pioneiros do gênero survival horror. Uma de suas principais características era o constante leva e trás de itens, um ambiente contido, conspirações na história e criaturas bizarras. Essa fórmula seguiu adiante nos três games clássicos e foi reinventada em Resident Evil 4, trazendo mais ação e dinamismo para a franquia. Os outros dois seguintes no entanto, iriam mais a fundo na ação, o que criaria uma ruptura entre os fãs.

Por isso que na E3 2016, a Capcom surpreendeu a todos com o anúncio de Resident Evil 7 como uma experiência contida. Foi um retorno as raízes com uma repaginada de conceitos, a ponto de conquistar novos fãs e tentar agradar os mais antigos. A trama se passaria em uma mansão no interior dos EUA, com uma família de seres psicopatas e prontos para devorar Ethan, o novo protagonista.

A nova proposta da Capcom teve uma rejeição inicial, mas logo se transformou em hype após as demonstrações trazerem um pouco do gameplay clássico. Logo, o game foi um sucesso de vendas e uma volta por cima de uma franquia que parecia morta.

Quatro anos depois, chega a sua sequência, chamada de Village (cuja as letras iniciais formam um 8 em algarismo romano). Como toda boa continuação, a promessa era entregar uma experiência tão boa quanto seu antecessor. Mas também precisava responder algumas questões deixadas para trás e qual era o papel desta nova trilogia no enredo que está sendo contado desde 1996.

Bem-vindo ao Vilarejo

Reprodução/Capcom

A história começa três anos após Resident Evil 7. Ethan e sua esposa Mia tiveram uma filha, chamada Rose, e para superar os eventos traumáticos da Louisiana, se mudam para a Europa. No entanto, a relação dos dois parece meio conturbada pelo que aconteceu e não consegue deixar para trás os assuntos mal resolvidos. Tudo só piora quando Chris Redfield invade a propriedade do casal, assassina Mia e sequestra Rose e Ethan.

Sem muitas respostas, eles são levados em um comboio, que após um acidente acaba caindo em um vilarejo. Ethan acorda e percebe que sua filha sumiu e passa a investigar o seu paradeiro, descobrindo que o vilarejo serve a uma entidade. Esta é chamada de Mãe Miranda, uma mulher centenária com muitos mistérios ao seu redor. Ela acaba colocando as mãos em Rose, o que a faz abandonar seu povo e focar apenas em seus filhos. Como consequência, Lincanos (uma espécie de lobisomem) são jogados no vilarejo e passam a atacar os habitantes.

Os filhos de Miranda são: Lady Dimitrescu, Heisenberg, Salvatore Moreau e Donna Beneviento. Todos eles possuem habilidades sobre-humanas, o que os fazem ser armas biológicas. Inserido nesse jogo complexo, Ethan tem o objetivo de derrotar os filhos de Miranda e recuperar sua filha, antes que seja tarde demais.

Resident Evil nas suas mais diferentes essências

Reprodução/Capcom

Village traz um gameplay que remonta a diversos games da saga, ao mesmo tempo que possui uma identidade própria. O castelo da Lady Dimitrescu é uma experiência similar ao primeiro e sétimo Resident Evil, em um ambiente grandioso com puzzles e áreas secretas. Já os confrontos com a vilã e suas três filhas, se parecem com as perseguições de Mister X e Nemesis em RE2 e RE3 respectivamente.

Mas quando estamos explorando o vilarejo, a experiência se torna próxima do quarto episódio da franquia e as semelhanças não são poucas. Ethan carrega uma maleta que pode ser aumentada ao longo do game, tal como acontecia com Leon. Ao decorrer da campanha existe: um mercador pronto para te vender armas e melhorias; existem inimigos de alto porte a serem eliminados; uma sequência de batalha contra chefe na água e com um barco e o próprio vilarejo. Tanto o game de 2004 quanto este aqui, apresentam um cenário gótico e misterioso, aonde o protagonista é apenas um estrangeiro em busca de uma garota.

Como se isso não fosse o bastante, ainda existem sequências mais voltadas para a ação, que remetem a Resident Evil 5. Essa salada se mostra coesa com a própria narrativa de Village, que busca fazer amarrações de acontecimentos passados da franquia com esta nova trilogia. Ou seja, temos aqui um resgate à essência da franquia que já se mostrou bem fragmentada em propostas.

A parte em que o game mantém a identidade própria está na perspectiva em primeira pessoa, que funciona para dar mais imersão. O cenário ao redor, assim como os inimigos, possui uma escala gigantesca, que passa de início uma sensação de inferioridade perante a situação.

Village entre pontos altos e baixos

Reprodução/Capcom

A mistura de diferentes abordagens que a franquia já teve ao longo do tempo, oferece um jogo bem amplo nas suas possibilidades. Não tem tempo pro game se perder em repetições e começar a ficar enjoativo, pois o tempo todo está apresentado novos inimigos e cenários. No entanto, isso traz como consequência um ponto negativo.

A campanha possui apenas 10 horas de gameplay, o que está dentro da média da franquia no geral. Mas com tantos personagens interessantes, eles acabam perdendo todo o seu potencial e sendo jogados de lado. O maior exemplo disso é a Lady Dimitrescu, utilizada no marketing e que fez Village ficar em alta desde que foi anunciada. Sua presença dura apenas em questão de duas horas e depois disso parece que nunca esteve ali.

Faltou tempo para desenvolver mais os seus personagens e fugir do óbvio. Dimitrescu possui um passado que relembra as histórias clássicas de vampiros, como o Conde Drácula. Isso nunca foi abordado em Resident Evil, e pelo jeito continuará sem ser abordado. No fim, ela é só mais uma arma biológica e que tem zero impacto da trama.

Nesse sentido, parece também que o roteiro forçou algumas situações para complicar o simples. Por exemplo, toda a história de Chris poderia ser resolvida com um único diálogo ou a vida de Ethan poderia ser mais fácil se ele procurasse entender o que estava acontecendo. Próximo ao final, o jogador pode questionar diversas questões que mostram que o game se esgueira em soluções superficiais que parecem complexas.

No entanto…

Para sermos justos, existem personagens que conseguem no pouco tempo que possuem, roubar a cena. Um exemplo é a sequência em que Ethan enfrenta a Donna Beneviento. A sequência é baseada apenas na base do terror psicológico e gráfico, fugindo um pouco do que o jogo se propõe.

Heisenberg acaba tendo uma participação maior do que os outros, o que faz ter mais carisma e camadas na sua composição, sendo responsável por fazer algumas revelações. É uma pena que a resolução do seu personagem ainda se mantenha nos mesmos defeitos de Dimitrescu, em proporções maiores até, mas o saldo ainda é positivo.

Exploração é a chave

Resident Evil Village possui um mapa razoavelmente pequeno, mas cheio de vida para explorar. Para seguir o caminho principal, ele é bem intuitivo, já que com pequenas dicas de objetivo, o jogador já sabe exatamente o que fazer. No entanto, existem diversos caminhos secretos que levam a áreas secundárias, que recompensam o esforço do jogador com itens e tesouros valiosos, que podem ser trocados por dinheiro.

Nesse caminho, é possível se deparar com alguns chefes secundários, que agregam um desafio maior, mas são tão divertidos de se enfrentar quanto os principais. Alguns detalhes da história também ficam escondidos através desta exploração mais ampla, o que certamente torna a experiência mais completa e gratificante.

Recolhendo todo o equipamento necessário, é possível chegar em chefes mais casca-grossa e ter vida fácil com um estoque pesado de munição e explosivos. Ainda assim, é preciso administrar bem os seus recursos para os momentos certos, pois são escassos e pode vir a ser mais difícil de encontrar futuramente.

Ethan Winters

Reprodução/Capcom

Introduzido em Resident Evil 7, Ethan é um personagem que trouxe pouco carisma. Por isso, o roteiro de Village faz questão de aprofundar sua história e trazer algumas respostas referentes ao seu comportamento. É nítido que aqui ele age como um protagonista nato, e não alguém que só reage ao que está acontecendo ao redor, porém ainda está longe do ideal.

Não existe nenhuma explicação plausível para que ele não possua um rosto. A ideia dos desenvolvedores era fazer com que o jogador pudesse se colocar no seu lugar, mas isso é difícil quando o mesmo já é colocado como um homem branco. Afinal, como que ficam todas as mulheres, homens negros e amarelos (ainda pensando que este é um jogo japonês) nessa situação?

Outro problema de identificação está no objetivo primário de Ethan. Ele quer apenas salvar sua filha, mas o jogo oferece mistérios relacionados ao vilarejo, que se torna mais interessante buscar essas respostas. Aqui se encontra uma ruptura entre jogador e personagem ainda mais brusca.

Veredito

Resident Evil pode muito bem ser uma aventura numa mansão abandonada ou numa crise mundial. A forma que a história é contada pode ser em câmera fixa, atrás dos ombros ou em primeira pessoa. Village estabelece que tudo isso e um pouco mais é o que fez a franquia ser grande por 25 anos e continuará sendo no futuro. Há espaço para ideias novas e elas podem casar com o que já aconteceu e está tudo bem.

Ainda está longe de ser perfeito, é claro. Existem problemas que poderiam ser sanados, como dar mais tempo de desenvolvimento a seus personagens, dar aos protagonistas um pouco mais de elo humano e que possam ser mais fáceis de se identificar. Mas a Capcom está percorrendo o caminho certo. Não se sabe ainda como será o 9º capítulo, mas será difícil não manter as expectativas altas.

Nota: O game foi testado em sua versão de PS4 e não foi identificado nenhum problema de performance. Pelo contrário, Village leva o console a potência e não fica devendo para consoles atuais.

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