(Esse texto contem spoilers de The Last of Us Part II)

Eu amo The Last of Us. A história do sobrevivente fechado emocionalmente Joel e a menina lutadora Ellie tentando atravessar o país, cruzando por pessoas com relações que fazem paralelos ao que a relação dos dois podem ser, fortalecendo lentamente seu laço e com um final perfeito, se tornou o meu vídeo game favorito de todos os tempos.

Um final tão perfeito inclusive, que eu fiquei em conflito se uma sequencia com Joel e Ellie era realmente necessária. E eu fiquei com esse conflito comigo por 99.99°% das minhas 25+ horas jogando Parte II…. Até que eu cheguei na última cutscene.

Para um pouco de contexto, Joel morre no inicio do jogo. Uma decisão arriscada que serve de motivação para dar início a história e passar para o jogador o tom do jogo. Uma motivação que eu não comprei.

Apesar de eu amar o Joel e concordar com sua decisão no final da parte um, eu sei que o que ele fez foi “errado” e apesar de não julgar, sei que qualquer consequência direta a ele, seria justificada. E no início do jogo, não sabemos exatamente por que Abby e seus amigos queriam vingança, mas mesmo se não fosse pelo que ele tinha feito aos Vagalumes, seu passado sombrio aparece de maneiras sutis em vários momentos durante a parte um. Joel era um sobrevivente, apesar de podermos justificar suas ações, seria inocente pensar que não haveriam consequências e que as pessoas em busca de vingança, estariam erradas em fazê-la.

Eu não odiei Abby em nenhum momento, entendi a motivação da Ellie, mas não tomei para mim e para piorar, a morte do Joel e mexer naquela história perfeita servir apenas de motivação me fez sentir que toda aquela experiencia era meio desnecessária.

Então chegamos na reta final, Ellie quase havia morrido em seu primeiro combate com Abby e apesar de ter sobrevivido para criar um filho com Dina, seu estresse pós traumático causado por ter visto a morte de Joel, não a deixou aproveitar aquela vida. Apesar de tudo, Ellie ainda precisava de sua vingança.

Ela encontra Abby e Lev por um fio após terem sido capturados por um grupo, enquanto os dois estavam em busca dos vagalumes. Ellie, que foi até lá na intenção de acabar com tudo de uma vez por todas, acaba salvando os dois e está prestes deixar ele irem, mas a imagem de Joel torturado volta a sua cabeça novamente e ela não pode deixar quem causou tudo isso ir, ela tem que acabar com aquilo naquele lugar, ou até morrer tentando.

A luta acontece e Ellie está prestes a matar Abby, depois de tudo, talvez ela finalmente consiga achar paz, então outra lembrança de Joel bate na sua cabeça e ela desiste de matar Abby e a deixa partir.

Ela volta para sua casa, agora vazia já que Dina era contra a sua busca por vingança dessa vez, e tenta tocar no violão a primeira música que Joel havia tocado para ela, mas meio que sem sucesso, já que ela perdeu dois dedos na sua luta com Abby. Tudo isso é importante para simbolizar o quanto perdeu em outra cruzada por vingança, o amor de sua mulher e seu filho JJ, e a última conexão que tinha com seu “pai”.

Ellie se relembra da memória que fez com que ela deixasse Abby partir. Foi sua última conversa com Joel, onde decide tentar perdoar ele por ter mentido e tirado o sentido de sua vida (e morte) parando a cirurgia que ia usar o cérebro dela para achar a cura do cordyceps. Joel foi egoísta e parou algo que a própria Ellie queria, mas com isso deu a possibilidade dela ter uma vida feliz e, naquela mesma noite, dar o primeiro beijo na mulher que ama. Então a possibilidade de perdoar ele, que mesmo após ter “perdido” Ellie não se arrepende de ter feito o que fez, não parecia algo terrivelmente impossível de se fazer.

Aí entra Abby, que não só matou alguém que Ellie amava, mas tirou a possibilidade de perdoar Joel. Mas colocando em pespectiva, ela matou a pessoa que tirou tudo de Ellie, o que fez sua jornada em busca de vingança parecer um pouco invalida e se ela é capaz de perdoar (ou tentar perdoar) ele, também não parece terrivelmente impossível perdoar Abby, que deixou a Ellie sobreviver em duas oportunidades diferentes. Joel deu a oportunidade de Ellie crescer e se apaixonar, Abby deu a oportunidade de Ellie fortalecer esse amor e criar um filho. Mesmo em contextos diferentes, as ações são similares.

Neil Druckmann fecha o jogo de maneira genial com uma cena, que não só dá uma maior profundidade a motivação da Ellie, como transforma ela na única personagem com um arco que faz com que o “perdão” final seja sincero e genuíno, e é por isso que para mim, essa cena salvou o jogo.

The Last of Us Part II pode não ser tão bem montado e redondo quanto seu antecessor, mas só de conseguir tocar em uma história perfeita, tomar uma decisão extremamente arriscada e no final conseguir justificar sua existência e fechar tudo tão bem, já é muito mais do que eu podia pedir da sequência de meu jogo favorito.

E caso não tenha funcionado para você e ainda odeie Abby, eu não sei se jamais vai conseguir perdoar The Last of Us Parte II, mas poderia tentar.

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