Este texto contém spoilers de The Last of Us: Parte II

Filmes, séries e games talvez nunca tenham tido um público tão engajado como nesses últimos anos. Isso explica os números incríveis que as produções atuais conseguem fazer nos seus primeiros dias (principalmente nos cinemas, antes da pandemia), com recordes de arrecadação e de audiência. Mas isso coincide também com a época do fan-service, onde muitas histórias acabam sendo contadas através de uma formula já visando agradar quem irá assistir. Na maioria das vezes, isso realmente funciona. O sujeito consome aquilo por umas horas, o agrada e depois segue a sua vida.

Mas o audiovisual é também uma representação artística, com artistas por trás daquilo que consumimos, então é comum que alguém com alguma grande ideia decida fazer um trabalho que seja inteiramente autoral. O problema é que isso acaba correndo um risco de quando chegar ao público, muitas vezes acabar sofrendo uma rejeição, principalmente se for dentro de uma franquia consagrada com uma base de fãs estabelecida. Independente da real qualidade do resultado final, a maioria das discussões são sempre pelos motivos errados e que prova uma coisa: o público médio não consegue consumir histórias.

Dois exemplos recentes são Star Wars: Os Últimos Jedi e The Last of Us: Parte II. Ambas as obras tiveram uma ótima recepção da crítica, porém o público acabou condenando as obras por um motivo até parecido: a forma como os “protagonistas” foram tratados na história e o fim dado para eles. O argumento é que a história contada é um completo “lixo”, pois arruinaram “personagens amados” e não tiveram uma representação digna.

A figura do protagonista é confundida muitas vezes com a figura do herói clássico ou do super-herói, aquele que é dotado de qualidades bondosas, é o escolhido com o dom de mudar o mundo, passa por grandes aprendizados para ter um final satisfatório onde terá aprendido algo e terá uma evolução como pessoa. Essas figuras são bem convenientes de se acompanhar, pois é agradável de se identificar, querer buscar algum tipo de inspiração e são seres imaculados.

Como tudo existe um mas, aqui vai um bem grande e que deveria ser óbvio: não existem apenas esses tipos de heróis e/ou protagonistas. Também não existe nenhuma regra que diz que um personagem deve se manter apenas dentro de um arquétipo. Mas ao pegarmos a onda dos astros de ação dos anos 80 e 90, tomamos uma noção do porque hoje isso acaba se tornando problemático.

Esses filmes têm como contexto histórico a Guerra do Vietnã e como os Estados Unidos precisavam vender seus valores e ideias, ao mesmo tempo que difamasse os seus rivais russos e até o povo vietnamita. A franquia Rambo por exemplo, nasceu criticando as guerras e como os soldados são recebidos, mas passou a ser uma história de ação que faz o público torcer para que o personagem de Stallone mate todo mundo, afinal, ele está “do lado certo da história” e “eles” (os russos e vietnamitas) que são os vilões.

Não podemos fingir que essa não foi uma propaganda de sucesso, pois não só serviu para criar uma geração de estadunidenses adeptas a este ideal mais conservador, como também influenciou outras culturas como a nossa aqui do Brasil também, o que explica a aversão a filmes nacionais por exemplo. Mas o que deixa mais escancarado a influência disso, está na aversão a histórias que mostram que o bem e o mal são conceitos mais complexos do que parecem e que precisam ser discutidos.

Pois é meu caro nerd, por mais que seja uma ficção, classificar alguém como inimigo é muito mais difícil do que acaba parecendo e num mundo que está cada vez mais se desamarrando de idéias ultrapassadas, isso se reflete nas obras que consumimos.

Então ao voltarmos a Star Wars: Os Últimos Jedi, o que acaba acontecendo é uma subversão da figura de Luke Skywalker, a lenda que derrotou Darth Vader e contribuiu na queda do Imperador. Ao invés dele ser um homem cheio de glórias, o que encontramos é um homem quebrado e amargurado que se isolou após fracassar com seu aprendiz (Kylo Ren). Isso já foi o suficiente para deixar o “fã” maluco, “como assim o maior herói da galáxia é um homem amargurado?” – ele se pergunta.

Se ele é perguntado sobre como ele gostaria de ver Luke no filme, ele responderá o imaginando ser o ser mais poderoso de todos os tempos, com uma cena que vai mostrar o quão forte ele é e salvará a galáxia de novo no fim do dia. Uma figura sem defeitos. Mas em ponto algum Rian Johnson queria contar essa história, muito pelo contrário, ele queria subverter essa expectativa e contar remontar à figura do a figura do herói trágico.

Esse conceito vem desde a Grécia Antiga, quando Aristóteles definiu essa figura como aquele que através de um erro em suas ações ou mesmo por conta do destino, ocasiona uma grande tragédia e ele viverá sob esta culpa. O que torna a discussão dentro de Star Wars um tanto que ridícula, é que este é o mesmo arco que George Lucas utiliza para o Mestre Yoda entre a trilogia prequel e a clássica, já que o mesmo sente ter errado com Anakin e se isola em Dagobah. Mas o ódio gratuito vem apenas porque Luke era o protagonista.

The Last of Us: Parte II é talvez mais trágico ainda, já que aquele que acompanhamos a história no primeiro game, Joel, nunca foi um herói. Na verdade, o roteiro deixa bem claro desde o começo que ele não vai trabalhar com esse conceito, pois em um mundo que está há 25 anos em colapso, muitas questões éticas e morais já foram abandonadas. Então todos são unicamente seres-humanos com falhas e acertos durante sua trajetória e qualquer fim para qualquer personagem deste mundo, tem seus motivos. Mas (sempre tem o “mas”) uma parcela de fãs não foi capaz de dissolver essa história e o considerou herói, mesmo que acabasse com a chance da humanidade ter uma cura por conta de uma atitude egoísta.

Joel morre nas primeiras horas da história e o que mais revoltou a comunidade, é que a sua assassina viraria uma protagonista. Abby, teve seu pai morto por conta das ações do contrabandista e se ela fosse a protagonista desde o primeiro, claramente veríamos este cara como o ser mais cruel de toda humanidade. Ou seja, insistir que ela é a vilã e o final deveria ter sido com sua morte, é demonstrar ignorância e atestar que não faz a menor ideia do que está consumindo.

Pessoalmente como alguém que está ingressando na industria do entretenimento como jornalista, vejo que este se torna um problema enorme pois quando as pessoas tomam essas opiniões precipitadas, elas buscam figuras que vão validar suas opiniões de alguma forma e usam contra grandes veículos que normalmente estão contra aquele argumento. Isso vale para filmes, jogos e séries que recebem notas negativas da imprensa e os fãs acabam adorando e vale para o oposto, que é exatamente o caso aqui.

Ações do tipo só dificultam ainda mais o trabalho da mídia e deixa os jornalistas vulneráveis a linchamentos e exposição na internet, além da velha acusação de que a nota foi paga pela empresa dona daquele produto. A grande verdade é que na maioria das vezes o crítico não se preocupa com a reação da empresa, mas sim dos próprios fãs que podem não entender o que realmente está sendo dito naquele texto por conta de uma certa expectativa precipitada.

Quando The Last of Us: Parte II obteve mais comentários dos fãs no Metacritic do que o primeiro jogo de 2013, porém com todos sendo críticas detonando a história e o game em si, apenas 0,9% (contagem feita pelo próprio PS4) haviam terminado de fato jogando. Ou seja, por mais que uma parcela só negative por conta da velha rixa de consoles, existiam pessoas que realmente não tinham jogado e estavam querendo atacar quem já tinha finalizado (a imprensa) por ter gostado. É uma distopia que só a internet pode oferecer.

Lembrando que apesar deste texto defender a qualidade das obras, isso não significa que as elas são perfeitas, longe disso. Os dois exemplos usados aqui podem sim ser alvos de críticas por outros fatores que são bem mais interessantes de se discutir, como toda a jornada de Canto Bight em Os Últimos Jedi que apresenta uma quebra de ritmo enorme para a trama, ou a estrutura narrativa de The Last of Us: Parte II. E são apenas exemplos, podem haver várias discussões em torno de algo, o que não dá, é esvaziar o conceito de representatividade pelo capitalismo, sem refletir melhor na construção dos personagens para além das classes minoritárias que eles representam, principalmente quando esses são os protagonistas da vez.

Isso é um ponto cujo alguns “influenciadores” ( e esses alguns nem podem ser considerados especialistas de opinião) tem sua parcela de culpa, ao fazer títulos e capas chamativas querendo debater se “tem lacração” naquilo que está sendo lançado. Sinceramente, chega até ser clichê falar isso, mas podemos ser melhores e entender que um protagonista não tem que ser o estereótipo do homem hétero bombado e forte em músculos e sentimentalmente, já seria um bom começo.

2 COMENTÁRIOS

  1. ótimo texto
    caramba, eu não entendo como algumas pessoas não conseguem se colocar na pele dos outros hahaha…
    tlou 2 foi uma historia sobre ódio, vingança e as consequencias disso, o arco do joel ja tava fechado no primeiro game, não precisávamos mais dele ali… aliás, ele é um personagem mais raso da franquia (de certa forma) já que ele é o estereótipo do homem musculoso e sem sentimentos, mas o arco dele fez ele aprender a amar a ellie e aceitar as fraquezas e dependencias dele (mesmo que ainda de forma egoista).
    a historia dos dois tlou foram tão sutis em construir a nossa empatia pelos personagens, mas mesmo assim muito poderosas…
    pena que algumas pessoas se fecharam pra isso e perderam essa experiencia incrivel =/

  2. Tlou 2 é um jogo onde seu principal foco é na narrativa, porém, para um jogo ser bom ele não precisa necessáriamente de uma história complexa ou coisa do tipo. Se o que importa pra vc é só a história então vai ler um livro ou assistir um filme, pois vc não vai jogar videogame só pela história.

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