Este texto contém spoilers do filme

Enquanto eu dirigia o filme, tentei expressar um sentimento específico à cultura coreana, e pensei que estava cheio de “coreanismo”, visível à vista de quem olha de fora, mas quando foi exibido após a finalização, todas as respostas de diferentes audiências foram mais ou menos as mesmas, o que me fez perceber que esse tema era universal, na verdade. Essencialmente, todos vivemos num mesmo país, chamado Capitalismo, o que pode explicar a universalidade das respostas” – Bong Joon-Ho

Quando fui assistir a Parasita, apesar de ter fugido de todos os detalhes possíveis, já imaginava que seria um filme que fosse tratar de desigualdades sociais, mais precisamente sobre luta de classes. Mas logo em sua primeira cena, não imaginava que fosse me identificar tanto e ver uma cena que me ocorre todos os dias: a procura de uma rede wi-fi aberta para conectar o WhatsApp, porque a rede anterior onde estava conectado mudou a senha. Isso mostra que a família se apresenta com dificuldades para ter uma rede própria na residência ou para contratar um pacote de dados mensal, pois provavelmente não há como sobrar dinheiro com tantas outras contas para pagar e pouca renda entrando.

(Reprodução/CJ Entertainment)

Moro no Brasil, mais especificamente na periferia da Zona Sul de São Paulo. Foi impressionante ver que algo assim também acontece na Coreia do Sul, um país com valores culturais completamente diferentes do nosso. O diretor Boog Joon-Ho não poderia ter descrito melhor quando menciona o capitalismo como o fator que justifica essa realidade e é o grande centro que acaba ligando todos os países dos mais diferentes tipos.

Nota-se: este não é um filme que vai dizer que o capitalismo é horrível e o comunismo ou o socialismo são a solução. Nada mais é do que uma lupa passando por cima das falhas que este sistema econômico gera nas divisões sociais. As pessoas mais pobres sempre serão vistas como marginalizadas, pessoas que fedem, possuem poucas oportunidades na vida, mesmo que tenham totais capacidades de serem pessoas bem de vida, como é o caso do filho Ki-woo (Choi Woo-shik), que mesmo sendo extremamente inteligente é constantemente reprovado nos vestibulares e não consegue ingressar na faculdade. Já as pessoas mais ricas costumam a viver numa bolha onde tudo parece existir para servi-las e que é extremamente normal ser assim. A vida parece ser mais fácil e se torna fácil ser mais simpático, ingênuo – porém desde que não haja alguém cruzando a linha que afete essa bolha.

Na transição de segundo para terceiro ato, acontece uma forte chuva na cidade e que acaba por alagando a casa da família Kim e de todos os outros moradores da região. Por outro lado, a matriarca da família Park aparece depois louvando a chuva, que teria limpado o ar, sem nem considerar a tragédia que a mesma causou. Ironicamente, uma situação parecida aconteceu em São Paulo no dia 10 de janeiro (Imagem original: Um Filme me disse/Reprodução/CJ Entertainment)

O capitalismo não pode ser resumido apenas em um sistema que permite a troca de favores, existe muito mais por trás disso, porém todas as vezes que alguém tenta alertar sobre acaba tendo a sua voz silenciada ou modificada. Karl Marx por exemplo, escreveu O Capital em 1867 e continua atual até os dias de hoje, porém suas ideias são distorcidas ou confundidas ao ponto de ignorarem sua crítica extremamente válida e só o associam como um dos “pais do Comunismo”. Por favor, não pense que você que mora em um condomínio ou conseguiu uma oportunidade de sair de uma vida miserável, acha que todos possuem chances nesse mundo e nem ignore os comentários contra esse sistema, pois só estarão sendo ignorantes e mentindo para si mesmos.

O roteiro passa com brilhante sutileza esses detalhes mencionados acima (não atoa venceu um Oscar na categoria), nos diálogos e nos simples gestos dos atores. Principalmente quando vem a ocorrer o grande plot-twist e se revela que já havia um casal de parasitas infiltrados na casa, logo após em um diálogo, a família protagonista discutir sobre todos os outros em que eles passaram a perna já deveriam estar em um novo emprego. Após a descoberta, ambos começam a criar uma rivalidade, mesmo estando em situações completamente parecidas.

A governanta e seu marido, os outros parasitas da casa (Reprodução/CJ Entertainment

Se existe um herói ou vilão nessa história? Claro que não! Conceitos de certo e errado são extremamente questionáveis quando estamos falando de comportamento social no mundo real e o cinema sul-coreano consegue como poucos contar uma história onde conseguimos entender exatamente o porque de todas as ações e ou odiar os personagens por conta disso ou comprar a ideia e ir afundo na jornada e achar “ok” a antiga governanta Moon-gwang (Jeong-eun Lee) sofre uma concussão após ser derrubada da escada pela mãe da família Chung-sook (Hye-jin Jang) numa tentativa de evitar que a farsa toda fosse descoberta.

Mas este momento é escolhido pelo diretor e roteirista como uma crítica lá na ferida as classes baixas que ao invés de se unirem contra os que estão em cima, preferem travar uma guerra entre si onde um quer estar em uma posição de superioridade ou de poder sobre o outro. Quando mais poder rebaixar o outro, maior controle será possível exercer sobre um individuo ou grupo. Enquanto isso, os ricos e poderosos mantém uma relação harmoniosa entre si, mesmo que seja tudo um jogo de aparências, é um jogo que acaba funcionando dentro de suas vontades.

Com todos esses pontos e ainda vários que podem me fugir agora, assistir a Parasita foi um turbilhão de emoções. Uma hora pude dar risada, em outra me ver em tela, depois ficar tenso, me revoltar, me questionar e por fim me emocionar. Além de um grande comentário sobre o mundo, ainda é um dos melhores filmes já feitos em anos e precisou vir da Coreia do Sul para que esfregasse na cara algumas verdades necessárias para serem vistas. Talvez se a Ancine não estivesse sendo assassinada, poderíamos ver mais obras do tipo por essas terras Brasileiras.

O filme estará disponível em breve exclusivamente no Telecine

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