Existia uma época mais “simples” em Hollywood, um tempo onde qualquer pessoa com ambição e uma câmera poderia financiar e filmar seu próprio filme, os famosos “filmes B”, e com um pouco de sorte, poderia criar sua carreira nessa indústria. Diretores como o lendário Sam Raimi (Homem-Aranha e Evil Dead) surgiram assim. E é sobre isso que “Meu nome é Dolemite” se trata.

Meu nome é Dolemite conta a história real de Rudy Ray Moore (Eddie Murphy) comediante, ator e um dos nomes mais importantes da “blaxploitation” nos anos 70. Rudy passou toda sua vida em busca da fama e de entreter as pessoas por qualquer meio necessário, seja a comédia, música e até mesmo dança. Até que um dia, após ouvir as histórias de um morador de rua, contadas através de rimas e linguagem explicita, ele decidiu pagar para gravar essas histórias de um cafetão conhecido por Dolemite. E após trabalhar nesse material, começou a fazer performances interpretando o próprio Dolemite.

Após sucesso em algumas apresentações em um bar de Los Angeles, Rudy decidiu gravar seu “set” em seu apartamento e lotou de amigos e conhecidos para dar uma atmosfera de festa. Por causa da sua linguagem explicita, nenhuma gravadora quis distribuir seu disco. Com isso ele começou a vender por si mesmo, na loja de discos em que trabalhava, como se fosse algo proibido e censurado.

Rudy conseguiu uma certa notoriedade entre a comunidade negra, até que finalmente uma gravadora aceitou distribuir seu disco, o que alavancou sua carreira como Dolemite produzindo mais discos e shows através do país. Até o momento que ele decidiu fazer um filme, que é trama principal do longa da Netflix, uma escolha que mudou sua vida e a vida de muitos.

Meu canal favorito no Youtube é o “Red Letter Media”, um canal feito por esse tipo de cineastas de filmes B que amam essas obras, esse amor é evidente na série de vídeos que eles têm chamado “Best of the worst”, que em parte é sobre descobrir essas fitas VHS antigas desses filmes e ir desvendando essa época estranha e interessante da história do cinema norte-americano.

Episódio de “BOTW” sobre um dos filmes de Rudy.

O proveito que os integrantes do “RLM” tiram desses filmes podem ser do tipo irônico, de dar risada do nível técnico baixo que esses filmes possuem, ou às vezes genuinamente gostar da criatividade e estilo que essas obras têm. Um tipo especifico de filmes que eles costumam encontrar são os “Vanity Project”, filmes que homens delirantes produziam e se escalavam como protagonistas. Nesses filmes, eles se faziam o homem mais interessante e talentoso do mundo, engraçado, inteligente e estrelas de ação que sabem lutar, atirar, dirigir e escalavam mulheres bem mais novas para serem seu interesse amoroso, o que sempre gerava um contraste hilário com a aparência física que eles tinham -literalmente pareciam com seu vizinho barrigudo-, e atuações vergonhosas. Mais notoriamente desse tipo de filme B saíram lendas como Neil Breen (Fateful Findings).

Por um olhar de fora, parece que Rudy é um homem desse tipo. Financiou um filme e se escalou como protagonista apenas por ego e se fazer esse “Badass” que luta Kung-fu e tem um grupo de mulheres lindas lutando com ele. Mas Meu nome é Dolemite mostra que isso não é verdade, Rudy acreditava em si mesmo, em seus amigos que ele estava trabalhando, que alguém iria querer ver seu filme e o mais importante, ele estava fazendo um filme que ele gostaria de assistir mesmo que a ideia tenha sido rejeitada por todos os estúdios, até mesmo os conhecidos por blaxploitation.

Ele deu tudo que tinha para fazer esse filme, os direitos do seus discos para conseguir empréstimos, e até mesmo deixou de morar em seu apartamento para poder pagar a equipe e o set que ele arrumou, chegando a ter que morar no mesmo.

Meu nome é Dolemite é o retorno triunfal de Eddie Murphy, que depois de passar um período estranho de sua carreira com filmes que não exploravam seu verdadeiro potencial e alguns anos de pausa, volta como um de seus ídolos. Seria muito fácil Murphy, um comediante e ator de sucesso de Hollywood, fazer graça da história de Rudy e quão baixo o nível técnico de seus filmes eram, com cenas de ação com péssima coreografia e atuações não convencionais. Porém, Eddie mostra seu amor por essa história e entregar uma atuação verdadeira e sensível a respeito de um homem que nunca aceitou um “não” como resposta e seguiu seus objetivos arriscando tudo que tinha e não tinha para alcança-los. Ele mostra uma pessoa real com inseguranças em baixo dessa forma mais cartunesca de agir, fazendo ser impossível não torcer por Rudy em sua luta.

Rudy (Eddie) e Lady Reed (Da’Vine)

A sensibilidade de Rudy aparece melhor nas cenas com Lady Reed (Da’Vine Joy Randolph), -protegida de Rudy-, que ele descobriu em um bar após um de seus shows e acreditou em seu potencial. Os dois acreditam um no outro e criam uma relação muito bonita ao longo do filme, que culmina na cena onde Lady Reed agradece Rudy pela oportunidade de poder ver uma mulher como ela, negra e gorda, na grande tela, algo que nunca havia acontecido.

Enquanto estava na limousine em rumo para premier, após ler críticas extremamente negativas de seu filme, que o mesmo mal conseguiu lançar, Rudy estava incerto sobre se alguém iria aparecer para ver o longa. Então olhou para sua equipe e falou sobre o quanto estava orgulhoso do que produziram juntos. Mas para sua surpresa, centenas de pessoas apareceram na premier para assistir seu filme. Rudy produziu algo que ele estava orgulhoso e sabia que era algo que ele, e pessoas como ele, gostariam de ver, e as pessoas gostaram. Dolemite quebrou recordes e se tornou um dos maiores sucessos de 1975, arrecadando 12 milhões de dólares com um orçamento de 100 mil.

A história de Rudy e o amor de Eddie me tocaram de uma maneira profunda. Eu venho trabalhando nesse site desde 2016 e não só nele, como na minha vida pessoal, várias portas foram fechadas. A “queda” do Retalho Club sendo um exemplo delas. Mas eu nunca desisti, igual Rudy que descobriu diversas pessoas habilidosas e diferentes, com suas próprias formas de se expressar e trouxe uma voz para cada uma delas. Eu também achei meu grupo de pessoas assim, que me trouxeram novas perspectivas sobre o mundo e que eu, e o Retalho, ajudamos a se expressarem. Criando um conteúdo que acima de tudo, nós estamos muito orgulhosos de ter produzido e é isso que me motiva a seguir em frente.

Esse texto é uma carta de amor para as pessoas que nunca desistem dos seus sonhos e de quem são, por mais difícil que pareça continuar tentando, para o retorno do Retalho, que muitas portas ainda sejam fechadas na nossa cara, e para Rudy Ray Moore por que: “Dolemite was his name, and fucking up motherfuckers was his game”.

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