Já não é de hoje o interminável debate acerca da representatividade feminina nas mídias. Uma discussão muito longa e repleta de desdobramentos importantíssimos. Discussão essa que tem ganhado cada vez mais força com o advento do uso em massa da internet e das redes sociais. Mas se há algum tempo, a pauta tem sido a presença feminina nas mais diversas obras, se modificando para cobrar a representatividade de diversas etnias e de diversas sexualidades, atualmente muito se tem debatido acerca da qualidade dessas representações. Afinal, qual o efetivo valor dessa representatividade se ela vem acoplada a papeis de gênero e/ou estereótipos raciais? Ela realmente ajuda a modificar um determinado paradigma ou apenas cristaliza uma imagem pré-concebida, reafirmando o status quo?

As críticas a serem feitas aos estereótipos femininos explorados à exaustão nas mais diversas mídias são intermináveis, e vão desde quadrinhos e animações a filmes e séries, passando por livros e pelo teatro. O teste de Bechdel, desenvolvido pela cartunista estadunidense Alison Bechdel nos anos 80, sinaliza que para uma representação feminina satisfatória, uma obra precisa possuir ao menos duas mulheres, que dialoguem entre si sobre algum tema que não envolva um homem. A partir desse teste, pode-se delinear uma problemática: apenas a inclusão de personagens femininas, cujos destinos e desenvolvimentos estejam ligados a um personagem masculino não é suficiente para ser o modelo de representatividade ideal.

Sendo assim, vale a pena discorrer um pouco acerca dos principais e mais populares estereótipos de personagens femininas.

A “donzela em perigo”

Um dos estereótipos femininos mais clássicos, traz a mocinha indefesa e doce, que precisa constantemente ser resgatada e cuja principal participação nas tramas se resume a interesse amoroso do protagonista, além de um papel de suporte emocional em aventuras. Dependendo do tipo de obra e do teor da trama, pode ser submetida a violências de tipos variados como forma de atingir uma terceira pessoa (geralmente o protagonista). Nos casos de violência, a mesma pode ser justificada na trama como um “desenvolvimento de personagem”.

Kirsten Dunst como Mary Jane em Spider-Man (2002)

A Femme Fatale

Outro grande estereótipo, utilizado à exaustão por Hollywood e enaltecido por um suposto “empoderamento”, a femme fatale exala sensualidade e é comumente descrita como uma mulher sexy, fatal e que se utiliza dos homens como brinquedos. Quase sempre colocadas como vilãs ou anti-heroínas, manipuladoras e sem escrúpulos, associando a ideia de uma mulher sexualmente livre a um caráter duvidoso.

Ademais, a persona da femme fatale está sempre associada a uma mulher considerada belíssima e sempre dentro dos padrões irreais de estética feminina. Quando se trata de animações, essa irrealidade chega a beirar o absurdo. Esse estereótipo, além de reforçar os moldes estéticos, coloca liberdade sexual lado a lado com beleza padrão e comportamentos problemáticos, sendo assim extremamente contestável o suposto empoderamento trazido por essas personagens.

Um grande exemplo de Femme Fatale, Selina Kyle/Mulher Gato, uma das mais icônicas vilãs do Batman, vivida por Michele Pfeiffer em 1992.

A mulher forte com um emocional frágil

Outro estereótipo delicado, traz mulheres que passam a sensação de serem fortes e independentes, compenetradas e até um pouco agressivas em alguns casos, capazes de praticamente tudo, mas que na verdade são frágeis e desmoronam com facilidade, precisando apenas de um homem que lhe dê amor e “quebre” essa barreira. Já é hora de compreender que mulheres independentes podem genuinamente ser assim e isso nem sempre é uma persona criada para esconder fragilidade, bem como já é também hora de desmistificar o amor romântico como cura para todos os problemas de personagens femininas.

Existe uma ramificação ainda mais específica desse estereótipo que é amplamente utilizada por Hollywood, que é a imagem da mulher corporativa e bem sucedida que é solitária e deprimida por não possuir um amor romântico, como se: 1) a mulher só consegue ser bem sucedida profissionalmente se abdicar de todos os outros aspectos de sua vida; 2) O amor romântico é o ápice da vida de qualquer mulher, e na sua ausência, nenhuma outra conquista tem tanto peso em sua felicidade individual.

Sandra Bullock, em “A proposta” (2009)

A mulher negra secundária

Ultimamente esse estereótipo tem sido muito mais discutido e criticado, e o não faltam exemplos desse tipo de personagem. A mulher negra que é colocada quase como uma “cota de participação” e cujo plot é completamente secundário, podendo ser usada também como alívio cômico, na figura da mulher briguenta e barulhenta.

Dificilmente possui um desenvolvimento que não esteja diretamente atrelado aos protagonistas, podendo ser a babá/empregada/governanta no caso de mulheres mais velhas, e a conselheira/amiga/faz tudo no caso de mulheres mais novas. Esse estereótipo só reforça a ideia de protagonismo da branquitude e do papel subserviente que é comumente atribuído a mulheres negras.

As Patricinhas de Beverly Hills (1995)

A mulher asiática sedutora ou subserviente

Outros dois estereótipos raciais largamente utilizados se referem a mulheres asiáticas, mais comumente do leste asiático. Seja o da menina nerd com uma mecha colorida que entende de quase tudo relacionado à tecnologia, sendo extremamente inteligente, embora com uma inteligência quase que completamente mecanizada, dentro da persona de “pessoa asiática inteligente e desprovida de carisma/beleza”.

Outro clássico estereótipo é o da mulher asiática exótica, profundamente erotizada e quase sempre especialista em artes marciais. Muitas vezes esse último estereótipo pode estar associado à figura da femme fatale, já mencionada anteriormente. O terceiro estereótipo mais comum relacionado à mulheres asiáticas diz respeito à figura da mulher subserviente e centrada, que segue uma hierarquia e um código de conduta rígidos, fruto da interpretação eurocêntrica e ocidental acerca da filosofia e do pensamento orientais.

A personagem Hatsumomo, do filme “Memórias de uma Gueixa” (2005) é um ótimo exemplo de uma mulher asiática sexualizada e exotizada ao extremo.

A mulher indígena animalesca

A zoomorfização da figura de personagens indígenas infelizmente é um recurso amplamente utilizado, baseado geralmente em interpretações equivocadas acerca dos ritos individuais de cada povo, de suas cosmogonias, idiomas e organizações sociais. Para além da figura da nativa selvagem animalizada (e quase sempre sexualizada) temos também a da indígena “iluminada” em relação a seu povo e seus semelhantes, que arrisca tudo defendendo, guiando e ensinando o colonizador branco pelo qual ela porventura se apaixona.

Vale salientar que essa segunda persona é extremamente ofensiva, visto que além dos estereótipos reforçados, ainda tenta “suavizar” o processo predatório e profundamente violento que foi a invasão do continente americano (ou Abya Yala, termo mais apropriado e acurado), bem como romantiza as relações entre nativos e europeus, que foram muito mais pautadas em estupros e outras violências diversas do que em um processo de “civilização” dessas populações. Na literatura brasileira temos exemplos como Iracema, de José de Alencar.

No Brasil temos como principal exemplo desse tipo de personagem a obra Iracema, onde a nativa, além de completamente sexualizada, é interpretada no filme “Iracema, a virgem dos lábios de mel” (1979) por uma atriz que sequer é indígena.

Os exemplos aqui listados são apenas uma pequena parte daqueles utilizados em tão larga escala. Vale salientar como boa parte desses estereótipos são vendidos como uma ideia de “representatividade e empoderamento”, especialmente aqueles com recortes raciais, seguindo a lógica falaciosa de “melhor uma representação do que uma ausência”. Muito embora já se discuta muito acerca desses estereótipos e sua representação nociva (e diversas obras tentem quebrá-los), é visível a reminescência e a reformulação dessas imagens, que atualmente acabam por atingir muito mais as personagens não-brancas.

Tendo em vista que tais mídias são parte do sistema de oferta e demanda do mercado, no momento de se reivindicar a demanda de um melhor ajuste na representatividade feminina, vale uma análise mais intrincada acerca do teor dessas representações. E essa mudança e reestruturação ultrapassam a tela, tendo muito mais a ver com os bastidores: porquê deixar que roteiristas, ilustradores, diretores e escritores homens (e majoritariamente brancos) tenham o monopólio de criação e representação, quando se pode dar oportunidades a mulheres nessas mesmas funções (mantendo suas devidas liberdades criativas) e diversificar não apenas as personagens, mas também as autoras das mesmas?

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