O Retalho foi convidado pela Disney para a cabine de imprensa de Viúva Negra

Natasha Romanoff deve ter sido uma das protagonistas menos aproveitadas do MCU. Enquanto os membros originais dos Vingadores tinham as suas aventuras solo em cada fase do estúdio (exceção do Hulk, mas ainda com um filme), a Viúva Negra apenas figurava como coadjuvante. No entanto, essas participações sempre davam dicas do seu passado, o que fazia o público se interessar por sua história.

Após anos de espera e de muitos pedidos, a Marvel Studios finalmente decidiu produzir um filme sobre a personagem. Mas não dá para disfarçar a sensação de desperdício, pois Vingadores: Ultimato colocou um fim definitivo em sua jornada. Ou seja, qual seria a importância de acompanhar um filme fora de hora?

A resposta demorou um pouco mais que o esperado. Viúva Negra estava previsto para 2020, no entanto, a pandemia da Covid-19 fez com que o filme atrasasse em um ano. O que era para ser a primeira produção da Fase 4, se tornou a quarta produção deste novo momento do estúdio. No final das contas, isso acabou ajudando bastante a impressão final sobre o longa.

Passado traumático

Reprodução/Marvel Studios

O filme abre com um longo flashback mostrando a infância de Romanoff (Scarlett Johansson). Ela vive com uma família de fachada, com seu pai Alexei (David Harbour), sua mãe Melina (Rachel Weisz) e sua irmã mais nova Yelena (Florence Pugh). Eles estavam ali para adquirir informações secretas do governo americano para uma agência russa, até que um dia, o objetivo foi concluído.

Com isso, eles vão para Cuba, onde o casal deixa as duas crianças nas mãos de Dreykov (Ray Winstone), que as leva para a Sala Vermelha. Lá, elas recebem treinamento para se tornarem armas letais russas e poderem realizar missões que impactem a política mundial.

O tempo avança e acompanhamos Natasha logo após o fim de Guerra Civil. O Secretário Ross (William Hurt) está atrás da heroína por ter quebrado o tratado de Sokóvia, a obrigando a viver isolada da sociedade. Mas quando surge o Treinador, ela se vê tendo que confrontar as pendências deixadas pelo seu passado.

História mais intimista

Reprodução/Marvel Studios

As vantagens de ser a protagonista de sua própria história, é de que há mais tempo de tela para explorar detalhes que jamais seriam possíveis num filme de equipe. Durante o seu isolamento, o filme faz o público ficar íntimo de Natasha, principalmente após ter visto cenas do seu passado. Nota-se um cuidado para afastar a visão sexualizada usada em outros filmes, preferindo explorar suas cicatrizes e o desgaste que toda a sua luta lhe causa.

Scarlett Johansson, que também atua como produtora, tem a oportunidade então de entregar seus melhores momentos como a Viúva Negra. Principalmente quando Florence Pugh entra em tela e ambas passam a contracenar juntas. Por compartilharem um passado trágico, ambas se entendem e acabam demonstrando um lado mais sentimental do que quando estão entre outras pessoas.

Isso faz um paralelo interessante com a Natasha que encontramos em Guerra Infinita e Ultimato por exemplo. Entendemos o que os Vingadores significam para ela e o peso que a derrota para Thanos irá causar ao seu emocional. Assim, o filme serve para juntar todas as peças para que o seu arco fique completo e sem pontas soltas.

Mas, Florence Pugh tem o seu espaço para brilhar individualmente. Só que, se a Marvel errou em não ter dado destaque para Natasha no passado, agora existe o cuidado para Yelena não ter o mesmo futuro. Logo, o filme trabalha para que o público se mantenha interessado pela personagem e queira vê-la em outras produções. Por isso, é bom ficar até o fim dos créditos.

Ótimos coadjuvantes
Reprodução/Marvel Studios

Uma boa história sem sempre precisa ter muitos personagens coadjuvantes, mas aqui tem dois de enorme destaque. Alexei, vulgo o Guardião Vermelho, é o responsável por arrancar risadas do público, com seus diálogos vergonhosos que mereceriam o selo Tio do Pavê. Inclusive, é curioso que David Harbour vem se especializando em ser um pai disfuncional, mas carismático, levando em conta o seu papel em Stranger Things.

Já Melina é uma personagem que possui um pano de fundo muito interessante, mas pouco desenvolvido. Quando o roteiro parece estar lhe dando mais espaço, a trama acaba se deixando levar pelas resoluções malucas do terceiro ato. Este que aqui, contém os maiores problemas do filme de uma só vez.

Uma história simples, uma ação grandiosa

A diretora Cate Shortland faz um ótimo trabalho conduzindo a trama por um lado mais pé no chão, que dê espaço a suas protagonistas terem momentos mais suaves. Mas este é um filme de super-herói, logo precisa ter suas sequências de cenas de ação. Ainda que quebre o ritmo da narrativa, as cenas são bem construídas e possuem grandes momentos. Fãs de franquias de ação como Missão: Impossível, 007 ou Jason Bourne irão identificar algumas referências prestadas dentro de Viúva Negra.

No entanto, o terceiro ato aposta para uma enorme destruição que gera pouca comoção, principalmente pelo roteiro deslizar muito neste momento. A história escrita por Ned Benson e Jac Schaeffer (essa última responsável por criar WandaVision) de fato entrega um bom filme sobre as personagens principais. Mas, a partir do momento que precisa resolver o conflito com os antagonistas da trama, parece estar desconectado de tudo que o MCU já apresentou até aqui.

Está clara a tentativa de contar uma história sobre controle mental, criando metáfora sobre como homens acabam tomando posse de mulheres e obrigando-as a fazerem coisas contra sua vontade. É um tema interessante, mas que entra em um aspecto quase que sobrenatural, ainda que explicado como ciência. Talvez tenha faltado coragem em abordar a fundo este tema, o que resultou em um ponto nada marcante do filme.

Isso vem sendo um problema das últimas produções do estúdio aliás, e falamos mais disto sobre a discussão que Loki promoveu sobre fascismo – clique aqui.

Veredito

Reprodução/Marvel Studios

Existem dois pontos de vista sob Viúva Negra. O primeiro é o mais óbvio, que é a viagem ao passado que o filme propõe. Sabemos qual será o seu destino, logo, temos a justiça que ela tanto merecia, seja pelo reconhecimento de um filme solo, como também dentro da narrativa do MCU como um todo.

Já o outro ponto está relacionado ao futuro, como a personagem de Florence Pugh e sobre o tom do filme. Ao longo destes mais de dez anos de universo, muito se falou sobre a fórmula da Marvel e como ela deixa os filmes mais do mesmo. Desde que as séries do Disney+ estrearam, podemos ver um certo amadurecimento nas narrativas e isto está sendo transportado também para o cinema, com os dois formatos conversando entre si.

Mas é importante que no futuro, se ouse mais nas narrativas que se proponham a falar sobre pautas importantes. Não dá para ficar falando de racismo, machismo e fascismo, sem colocar o dedo na ferida e expondo os problemas que criam essas situações.

Ainda assim, Viúva Negra consegue ser um filme único, seja nos seus acertos e nos erros do terceiro ato, que aquece o terreno para as produções que virão pela frente. Que venha a Fase 4 e de tantas outras desta nova saga do MCU.

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Revisado por Maria Oliveira