O Retalho assistiu Velozes e Furiosos 9 a convite da Universal Pictures

Dentro do cinema e da literatura, o termo suspenção da descrença é bastante utilizado para nomear a vontade que o leitor ou espectador possui em aceitar algumas lógicas que não se relacionam com a realidade. Ou seja, animais falantes, pessoas que voam, entre outras coisas que sabemos ser impossíveis de acontecer. A suspenção da descrença é necessária para que histórias de super-heróis ou de fantasia sejam mais aceitas no nosso imaginário.

Mas em certos casos, ela ultrapassa alguns limites que nos fazem questionar até que ponto é possível tolerar o absurdo. É o que vem acontecendo com Velozes e Furiosos por exemplo, que após o seu quinto capítulo, começou a colecionar momentos inacreditáveis em seus filmes. Desde desvio de míssil com a mão, carros pulando de prédio em prédio, um submarino gigante no gelo e etc. No entanto, a franquia se sustentou sob o argumento de que é tudo pelo entretenimento e ainda havia uma história para contar.

Até que chegamos ao nono capítulo, Velozes e Furiosos 9, desafiando qualquer lógica, noção e bom senso, elevando a potência máxima de tudo que já foi visto. Na prática é uma atitude corajosa, mas na execução fica a pergunta de como é possível fazer o espectador se conectar com tanto absurdo a sua volta.

Reprodução/Universal Pictures

O Enredo…. mas que enredo?

Anos após o oitavo capítulo, Dom (Vin Diesel) vive isolado em uma fazenda com seu filho Brian e sua esposa Letty (Michelle Rodriguez). Tudo está em paz, até que Jakob Toretto (John Cena), seu irmão desaparecido, reaparece causando o caos atrás de um artefato que lhe dará o maior poder do mundo. Sem muita enrolação, o casal se reúne com Tej (Ludacris), Roman (Tyrese Gibson) e Ramsey (Natalie Emmanuel) e começam a caçar o irmão problemático.

Durante a trama, existem pequenos flashbacks mostrando o passado de Dom com Jakob, pois os filmes anteriores nunca mencionaram a relação dos dois. No entanto, estes são os únicos momentos em que a história tenta se desenvolver. O resto do filme prefere focar apenas na ação e não conta nenhuma história além da que a premissa propõe. Até mesmo o retorno de personagens queridos como Han (Sung Kang) e Mia (Jordana Brewster) são feitos pra usar a nostalgia a favor da ação.

O diretor Justin Lin decide de uma vez por todas abraçar o lado mais insano que a franquia veio usando nos últimos filmes, mas como paródia. Em certo momento, Roman chega a questionar que eles sejam mesmo humanos, já que passaram por tantas coisas e não há ferimentos. Funciona como uma esquete zombando dos filmes anteriores e que nada faz sentido.

A partir disso, o filme toma a liberdade para ser absurdo em todos os seus momentos. Ele vai ser na ação com um carro se balançando no cipó, vai ser na narrativa ao explicar porque um personagem morto voltou a vida e vai ser até nas justificativas usadas para as sequências de ação. Sim, pois não existe nenhuma vontade de explicar porque é preciso mandar um carro ao espaço. Dom deixa seu filho sozinho numa fazenda sem nem se preocupar em quem ia proteger a criança. Nada importa.

Excesso demais perde a magia

Reprodução/Universal Pictures

É certo de que cenas de ação malucas tendem a serem impressionantes, mas o seu excesso faz com que se tornem normais. É divertido que o filme se proponha a rir de si mesmo e queira ser absurdo o tempo todo, mas cansa. O céu já não é mais o limite para essa franquia, que se continuar nos próximos filmes querendo ir além do que já foi feito, pode ter algo que seja difícil de aceitar.

Por isso a discussão sobre a suspenção da descrença. Toda essa história começou com uma equipe sendo investigada por roubar carga de aparelhos de DVDs. O sucesso dela se deu por conta de personagens carismáticos e suas relações entre si, que forneciam um bom entretenimento e dava para se conectar. A partir do momento que a história abandona isso, tristemente coincidindo com a saída de Paul Walker, ela fica sem alma.

A família importa, mas no filme anterior eles abraçam alguém que acabou de assassinar um dos seus. Neste descobrimos que a relação de Dom com Jakob faz com que sua crença seja um tanto hipócrita, deixando a resolução mais óbvia possível.

Nada realmente importa, tudo pode ser desfeito e no fim do dia acaba em churrasco.

Pequenas boas ideias

Reprodução/Universal Pictures

Existem alguns méritos perante o caos que merecem um reconhecimento. O primeiro deles está em um dos vilões (único segredo mantido pelo marketing), que é um nerd do tipo babaca. Ele adora esbanjar machismo e acariciar o seu ego por conta de toda a sua riqueza. Em um dos momentos com Cipher (Charlize Theron apagada), ele aproveita para se comparar com Luke Skywalker em Star Wars. Podemos achar um tipo desse facilmente na internet, não é mesmo?

Outro ponto está na diversidade promovida pelo filme. A franquia sempre se preocupou em escalar atores que representassem o maior número de grupos étnicos diferentes. No entanto, apresentava problemas ao sexualizar as personagens femininas, algo que não é mais visto aqui. Mia faz sua melhor participação e mostra que é capaz de fazer qualquer coisa.

Além de claro, existir um pequeno comentário social quando Roman e Tej vão para o espaço. Ninguém acreditaria que dois homens negros da comunidade teriam alcançado tal feito, eles comentam. No entanto, nada vai muito além disto infelizmente.

Veredito

Reprodução/Universal Pictures

Até onde é possível ter a suspenção da descrença em Velozes e Furiosos 9? Sinceramente, ela sequer existe aqui. Caso o espectador esteja afim de revisitar a franquia e ver milhares de explosões e irrealismo sem nenhum comprometimento, irá haver diversão sem dúvidas. Mas quem queira encontrar um mínimo de lógica e comprometimento, esqueça.

Ainda faltam mais dois filmes para que chegue ao fim dessa grandiosa história e isso exige um cuidado por parte dos produtores e roteiristas. É hora de rever o que está funcionando nestes filmes e analisar a reação do público. Pois existe um grande risco das sequências extrapolarem tudo o que o cinema já estabeleceu como limite e isso não ser positivo para o espectador.

No mais, caso seja mais um sucesso de bilheteria, é difícil que isso aconteça. Portanto, sigamos acompanhando até aonde isso vai dar.

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