Chegamos à metade do ano, e vem aí mais um filme da Marvel Studios dando as caras nos cinemas. Com o lançamento de Thor: Amor e Trovão, o catálogo do estúdio passa a ter vinte e nove produções. Muitas dessas acabaram sendo sustentadas por uma fórmula de sucesso em contar histórias e trazer retorno financeiro, ainda que sejam genéricas.

Mas por outro lado, há os diretores que ousaram brincar com os limites impostos, como James Gunn. Guardiões da Galáxia influenciou a indústria com seu uso de música pop dos anos 70 e estilo de humor mais “sujo”. Graças ao sucesso comercial, a Marvel procurou trazer mais dessa pegada para a sua franquia e foi quando Taika Waititi vendeu uma ideia ao estúdio que trazia uma cena de ação do Thor ao som de Immigrant Song do Led Zeppelin.

Os dois primeiros filmes do deus do trovão estão na lista do mais puro suco do clichê do MCU. Isso se não forem um dos piores já lançados até hoje. Há uma clara falta de noção do que fazer com um protagonista tão poderoso e uma vasta mitologia. Assim ambos caíram em tédio absoluto e praticamente não desenvolveram o Thor, ao contrário do Capitão América ou Homem de Ferro por exemplo. Então Taika chega na Marvel para salvar o personagem.

Ragnarok é um reboot temático, já que descarta qualquer ponta deixada pelos antecessores. Há mais cor, cenas de ação criativas, uma comédia que vai para o lado da breguice e trouxe também o que mais faltava: um arco para o Thor. Só assim ele caiu nas graças do público, que ao fim de Vingadores: Ultimato queria ver mais de suas aventuras.

Após três anos de espera, essa aventura enfim chegou. Mas será que Thor: Amor e Trovão se mantém nessa nova pegada?

Enredo

Chris Hemsworth as Thor in Marvel Studios’ THOR: LOVE AND THUNDER. Photo by Jasin Boland. ©Marvel Studios 2022. All Rights Reserved.

Após a batalha final contra Thanos, Thor Odinson (Chris Hemsworth) seguiu para o espaço junto com os Guardiões da Galáxia. Eles passam a realizar missões juntos, mas com o tempo as coisas se tornam repetitivas demais, a ponto do deus do trovão se sentir sem propósito. Todos aqueles que ele um dia amou estão mortos ou saíram de sua vida com um simples bilhete, o que aumenta ainda mais sua amargura.

As coisas começam a mudar quando um ser chamado Gorr (Christian Bale) surge jurando matar todos os deuses. Thor logo parte para impedi-lo, já que os planos de seu novo inimigo podem dar um fim em sua vida. Só que para sua surpresa, Jane Foster (Natalie Portman) agora está ao seu lado para lhe ajudar na batalha, portando consigo o Mjölnir. Korg (Taika Waititi) e Valquíria (Tessa Thompson) compõem esse time de guerreiros formado para salvar Nova Asgard com muito amor e rock n’ roll.

Amadurecendo a fórmula

Christian Bale as Gorr in Marvel Studios’ THOR: LOVE AND THUNDER. Photo courtesy of Marvel Studios. ©Marvel Studios 2022. All Rights Reserved.

Uma das maiores críticas em cima de Ragnarok envolve o timing cômico do filme. A história para de acontecer no segundo ato pois há uma necessidade de emplacar uma piada atrás da outra. Em Amor e Trovão, Taika aprende com seus erros e entrega um filme focado e mais maduro. O humor pastelão ainda está presente, até com mais liberdade para algumas piadas que chegam a ser impróprias para crianças. No entanto, há um equilíbrio maior com o drama, parte essencial para a trama de Jane e Gorr. Aliás, os fãs dos quadrinhos escritos por Jason Aaron serão bem recompensados com passagens bem fiéis às páginas.

Outro ponto de destaque é a duração de apenas uma hora e cinquenta minutos. Dessa forma o filme não perde o fôlego e segue num ritmo constante do início ao fim. Apenas no segmento aonde Thor vai em busca de Zeus (Russell Crowe), que as coisas parecem sair do controle. Há uma certa enrolação e repetição de piada que ao final gera uma sensação de que poderia ser mais enxuto. Mas é como se fosse um grande solo de guitarra no meio de uma canção, que mesmo exagerando consegue retomar ao ritmo inicial sem muitos problemas.

Falando em rock, esse filme é uma grande homenagem ao Guns N’ Roses. Sweet Child O’Mine não só está nos trailers, como faz parte da trilha-sonora em dois momentos importantes, além de outras canções da banda como Paradise City, November Rain e Welcome to The Jungle. Essa estética rock n’ roll dá uma personalidade bem cativante a esse Thor e torna a aventura ainda mais envolvente

Explorando um novo gênero

(L-R): Natalie Portman as Mighty Thor and Chris Hemsworth as Thor in Marvel Studios’ THOR: LOVE AND THUNDER. Photo by Jasin Boland. ©Marvel Studios 2022. All Rights Reserved.

Thor: Amor e Trovão é um filme de ação, mas também traz elementos de uma comédia romântica. O relacionamento entre Thor e Jane ganha profundidade e fica interessante pela primeira vez na franquia. Diverte ver eles lidando com situações cotidianas e ver os motivos que levam um deus nórdico e uma humana não darem certo. Quem gosta de clichês sairá bem satisfeito.

Só que nem tudo são flores. Jane tem uma motivação muito forte, mas está colocada na trama apenas para o crescimento de Thor como herói. Essa decisão criativa é bastante questionável em comparação à sua importância nos quadrinhos e até mesmo pelos rumos tomados nesse filme. A personagem tem a motivação mais forte já vista no MCU, mas acaba sendo muito mal aproveitada. Isso gera um final fraco e descartável, o que enfraquece a experiência como um todo.

Por outro lado, é interessante como Taika traz outras formas de amor para dentro da história. Há o amor familiar nos Guardiões da Galáxia, o luto nas motivações da Valquíria, o amor paterno com Gorr e até com objetos. O filme transforma o Mjölnir e o Rompe-Tormentas em personagens com sentimentos, sendo essa uma das dinâmicas mais divertidas de assistir. Uma pena que ao abordar relações homoafetivas exista uma imposição de limites por parte da Marvel.

Veredito

(L-R): Natalie Portman as Mighty Thor and Chris Hemsworth as Thor in Marvel Studios’ THOR: LOVE AND THUNDER. Photo by Jasin Boland. ©Marvel Studios 2022. All Rights Reserved.

Thor: Amor e Trovão é tudo o que se espera de um filme dirigido por Taika Waititi, só que amadurecido. Você vai se divertir com as cenas de ação acompanhadas por uma boa trilha sonora, vai rir de algumas piadas e achar outras absurdas, mas talvez horas depois da sessão já não lembre tanto assim do que aconteceu. Só que esse estilo provoca controvérsias e há quem não goste. Nesse caso, será muito difícil que o diretor agrade essa parcela do público, que tende a ficar ainda mais frustrado.

No geral, há um potencial desperdiçado que poderia tornar esse filme memorável. Nada que o torne ruim, longe disso. Só que com tantas obras nesse vasto MCU, esse acaba se tornando mais um. Se você não se importa com isso e fica satisfeito com a simplicidade, então vai aproveitar bastante a experiência. Caso contrário, já vá com expectativas baixas para não se decepcionar.

Revisado por Maria Oliveira

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