As animações da Disney por um bom tempo, seguiram uma mesma receita com pequenas alterações a cada novo filme lançado. Isso não necessariamente significa que são mais do mesmo, mas que já sabemos o que esperar quando assistir. Por isso que, com a chegada do seu 59º filme animado, Raya e o Último Dragão chamou a atenção por ousar a estar fora da casinha.

Afinal, estamos falando de um filme que introduz uma nova princesa, mas em dentro de um contexto completamente diferente. Na trama, após o reino de Kumandra se dividir, um espírito centenário chamado de Druun, foi libertado transformando toda forma de vida em pedra. Assim, a guerreira solitária Raya parte na jornada de encontrar Sisu, o Último Dragão que foi responsável por expulsar essa força do mal.

Um novo significado de Princesa da Disney

Frozen foi um marco para as histórias de princesa por quebrar o clichê do príncipe encantado e focar no amor entre duas irmãs. E é importante reconhecer a influência desta narrativa aqui, que por sua vez foge totalmente de uma trama que envolva romance ou algo do tipo. Pelo contrário, as primeiras tomadas do filme muito mais lembram um faroeste, com a princesa aqui peregrinando por desertos em busca de seus objetivos. Se tornando depois um filme de assalto, em todos os elementos possíveis do gênero.

O roteiro acerta em criar essa personagem forte de forma natural, sem deixar levar por exposições ou criar situações impossíveis para enaltecê-la. Ela é forte pois é destemida, possui uma missão de grande importância para a sua vida e está disposta a tudo para alcançar seu objetivo.

Assim, qualquer público que for assistir ao filme conseguirá se conectar com suas motivações e carisma. E claro, servirá como uma grande representação ao público infantil feminino, que tem grandes chances de sair replicando seus golpes em brincadeiras.

Namaari – Reprodução/Walt Disney Studios
A união faz a força

Existe um subtexto bem explícito em Raya e o Último Dragão no que se diz respeito a colaboração. Isso podendo ser levado em dois sentidos, no âmbito da política como no pessoal mesmo. Kumandra poderia ter prosperado caso todos os povos tivessem se unido, mas por conta da ganância e dos interesses próprios, eles se separaram e tornou a luta contra o Druun extremamente difícil.

O filme então abre a discussão para que haja uma reflexão com aqueles que consideramos como inimigos. Muitas vezes podemos ver situações aonde não damos ao próximo a opção de confiança, e o define como inimigo. Mas no fim do dia, ambos estão lutando por um mesmo objetivo, criando novos conflitos apenas por supor demais ou discordar de certos métodos.

A antagonista de Raya, Namaari, é desenvolvida sob este contexto e promove um dos terceiros atos mais interessantes das animações da Disney. É um outro grande acerto do roteiro que foge do estereótipo da rivalidade feminina por conta da inveja. Os motivos do confronto aqui envolve diversos tons de cinza, nos levando a questionar quem poderia estar certo e errado.

Raya – Reprodução/Walt Disney Studios
Tão bom que falta mais

Raya e o Último Dragão é uma das animações mais longas da Disney, com quase 2h de duração. Porém esse tempo passa rápido com a agilidade que a trama oferece, o que por um lado traz um ritmo agradável, por outro passa uma sensação de “quero mais”.

Os cenários são extremamente lindos e que renderiam grandes momentos, mas a história pede que um novo local seja explorado e nunca mais vemos uma determinada cidade ou deserto. Ainda por cima, existem momentos de viagem entre um lugar e outro que há uma construção dos personagens secundários, que segue os clichês de histórias deste tipo.

Isso faz com que se perca um pouco da sensação de gravidade do problema, ainda que seja mantida uma urgência para a resolução. A gravidade só está presente nos momentos finais, o que prejudica o impacto que os diretores pensaram em causar.

Raya e Sisu – Reprodução/Walt Disney Studios
Veredito

Raya e o Último Dragão no fim do dia é uma boa aventura que foge dos padrões Disney (que inclusive sequer possui canções), mas peca em não se arriscar muito. Entretanto, seu espetáculo visual dá ao espectador uma boa sensação em sua exibição, sendo uma boa opção de entretenimento para todas as idades.

Será interessante ver o impacto da personagem Raya daqui uns anos, como símbolo de representatividade e como influenciará as próximas produções – tal como Frozen serviu para isto sete anos atrás. Caraterísticas ela tem de sobra e não é atoa que carrega todo este filme nas costas.

Obs: O lançamento foi realizado em cinemas selecionados e no Disney+ pelo Premier Access por um custo adicional. Entretanto, em abril o filme estará disponível aos assinantes como parte do catálogo normal. Fica a critério do leitor decidir se vale o pagamento de R$ 69,90 ou se espera mais um tempo.