Esta crítica está livre de spoilers

Se existe uma palavra que possa definir O Farol, essa palavra seria “provocação”. O novo filme do diretor Robert Eggers (A Bruxa), desde o seu primeiro frame provoca o espectador a embarcar numa jornada psicológica e misticista, que levantará várias questões e colocará a dupla protagonista formada por Robert Pattinson e Willem Dafoe em inúmeras situações extremas.

A trama se ambienta em uma Europa do final do século XIX quando os dois faroleiros Thomas Duke (Dafoe) e Ephaim Winslow (Pattinson), chegam em uma ilhota no meio do mar para desempenhar as suas funções. Winslow é um novato, então precisará aprender e seguir as ordens de seu superior todos os dias, o que vai acabar criando posteriormente uma relação de inimizade

A premissa que aparenta simples de início, é desenvolvida com genialidade por Eggers em um roteiro que foi co-escrito com seu irmão Max Eggers. Não existem respostas óbvias ou claras neste filme, e isto é completamente intencional para que o seu espectador possa as conseguir através de sua própria interpretação. Entretanto, isso não significa que o diretor não tenha criado algumas situações propositais para automaticamente conduzir o espectador a uma resposta específica.

Toda a estética foi feita para que se houvesse a impressão de que este é de fato um filme do começo dos anos 1900. O formato de tela escolhido é o 4:3, sua coloração é preto e branco e foram utilizadas lentes desta época para que a proposta fosse passada com dignidade e que fosse muito importante para ambientar os sub-textos de sua trama.

Se nos dias atuais nos encontramos em situações onde tem que ser colocado em discussão a masculinidade moderna, com discussões sobre toxidade, desejos sexuais, exploração do trabalho e outros assuntos, o filme se ambienta de propósito nessa época onde muitos dos pensamentos eram considerados retrógrados, mas que alguns prevalecem atualmente. Em uma das ambiguidades, podemos claramente ver que Winslow é explorado duramente por Duke, mas ao mesmo tempo o rapaz se sente ofendido por talvez não considerar aquele trabalho de limpar a casa como algo de homem.

Mas o teor sexual que o filme provoca talvez seja o maior dentro desta discussão. Há uma figura de uma sereia em miniatura, que Ephaim acha logo no começo. Com o decorrer da história, essa vai se tornando a única figura feminina presente no local, o que vai criando fantasias sexuais em sua mente, assim como o vai transformando da pessoa mais comportada e calada a alguém descontrolado e feroz – com a atuação impecável de Pattinson que dá tudo de si para dar vida a esse personagem.

Mesmo que haja uma inimizade por conta da relação pesada de trabalho, no final das contas, como dois homens tradicionais, o álcool acaba unindo os dois protagonistas que em certos momentos até parecem dois grandes amigos, bêbados e cantando músicas da pirataria. Mas assim como a masculinidade, essa relação é frágil e em todos os momentos parecem a beira do colapso e ainda por cima, coloca a narrativa para o espectador em risco, já que entramos num ambiente misterioso com uma mitologia por trás e com protagonistas o tempo todo fora de si por conta da bebida, ficando difícil distinguir o que é real ou não.

O Retalho foi gentilmente convidado pela Vitrine Filmes para a cabine e coletiva de imprensa. O Farol estreia nos cinemas brasileiros em 2 de janeiro de 2020.

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