Talvez seja um consenso que todos desejariam que 2020 fosse um ano diferente. A pandemia do Covid-19 trouxe diversas complicações no dia-a-dia, criou novos costumes e extinguiu os antigos. Entretanto, chegando ao fim desta turbulenta experiência, é possível ainda retirar pequenos aprendizados e momentos que serão levados para o resto de nossas vidas.

Este é um paralelo interessante que consegui traçar com Mulher-Maravilha 1984, que depois de quatro adiamentos chegará aos cinemas brasileiros e no HBO Max nos países disponíveis.

Diferente de outros longas recentes da DC Comics, a segunda aventura solo de Diana Prince (Gal Gadot) carrega consigo uma mensagem simples e que não deixa de ser grandiosa em seu impacto, como uma boa história de super-herói deve ser.

Reprodução/Warner Bros.

A história

O enredo se desenvolve sob três pilares: Diana, Barbara Minerva (Kristen Wiig) e Max Lord (Pedro Pascal). A protagonista ainda vive o trauma e o luto da perda de Steve Trevor (Chris Pine) no filme anterior, que se passa 70 anos antes. Trabalhando em um museu de artefatos antigos, ela conhece Minerva e logo começam a estudar um misterioso artefato mágico que concede desejos a quem o tocar. Lord então aparece como um interessado na peça para executar o seu plano.

A trama é extremamente previsível e o roteiro assinado por Patty Jenkins e Geoff Johns sabe disso. Sendo assim, o filme não tenta esconder por muito tempo quais serão as grandes reviravoltas em momentos críticos, mas se desenvolve de uma forma que deixa a previsibilidade coesa e bem construída – dando uma satisfação ao espectador que não ficará frustrado por já saber o que pode acontecer.

Por falar sobre desejos, o filme entra em um pensamento filosófico, mas ao mesmo tempo que não se deixa cair em um tom sombrio como os filmes anteriores da DC. Para isso, o roteiro precisou contar muito com as atuações do elenco que entrega performances de alto nível. Gal Gadot entrega facilmente sua melhor interpretação da Mulher-Maravilha em seu quarto filme como a personagem, conseguindo transmitir emoções e dar veracidade a elas. Isso impacta na performance de Kristen Wiig, fazendo sua admiração por Diana ser algo realmente possível.

Mas todos os méritos precisam ser dados a Pedro Pascal, pois seu personagem é extremamente difícil por estar sempre dividido entre o drama e o cafona. E isso poderia ser um dos maiores problemas do filme já que ele é importante para a conclusão desta história, e uma decisão errada poderia ter colocado toda a mensagem final por água abaixo.

Reprodução/Warner Bros.

Os anos 80…

Após o sucesso de Stranger Things, se criou uma fórmula nas produções mais recentes ao falar sobre os anos 80. Quatro anos depois, é possível notar um desgaste nesta fórmula e uma falta de originalidade em abordar o período, geralmente caindo na armadilha de apenas inserir elementos da cultura pop (como filmes e músicas) com o único intuito de referenciar, agregando pouco ao material.

Em Mulher-Maravilha 1984, Patty Jenkins soube aproveitar a ambientação histórica sem cair no “mais do mesmo”. Isso graças à narrativa que apresenta as maravilhas desta época ao mesmo tempo que Steve Trevor vai descobrindo sua nova realidade. Aliás, é divertida a forma sutil com a qual o filme repete de forma inversa os momentos em que Steve apresenta uma Londres na Primeira Guerra Mundial.

Mas os anos 80 não foram escolhidos apenas pela estética, mas sim como forma do filme conseguir provar o seu ponto de forma coerente. Existia uma grande tensão entre Estados Unidos e Rússia nesta época graças ao avanço da Guerra Fria e um medo de eclodir um confronto nuclear entre os dois polos políticos.

Uma vez que o filme se sustenta sob a filosofia do desejo, nada mais justo escolher um período onde as pessoas não poderiam desejar mais uma mudança na geopolítica mundial, o sucesso pessoal, o ódio ao inimigo, o ódio ao próximo, entre outras coisas. É uma situação que pode ser equiparada, em níveis diferentes claro, com o 2020 que vivemos hoje e a mensagem por mais pura e leve que seja, é eficiente para as futuras gerações.

Reprodução/Warner Bros.

A parte técnica

Uso excessivo de CGI é um problema enorme em filmes do gênero e aqui parece que dois passos foram regredidos. Todas as cenas de ação tem um problema com os efeitos por serem fracos e simples demais e isso é uma autossabotagem do filme.

A coreografia parece ser montada de propósito na base do exagero, numa tentativa de deixar as coisas mais divertidas, mas falha pois como os efeitos não são de alto nível, acaba tornando alguns momentos dignos de galhofa – o que não seria um problema se não fosse pela narrativa que não segue este lado.

Enquanto o primeiro filme conseguia entregar cenas emblemáticas como a da Terra de Ninguém, este ficará devendo neste quesito. É de se questionar já que o projeto custou US$ 200 milhões aos cofres da Warner Bros. e temos exemplos claros de filmes com orçamentos menores que conseguem entregar cenas de ação aceitáveis.

Por toda via, isso não compromete a experiência final, já que esses momentos tomam um tempo bem específico do filme e não duram por muito tempo, dando espaço para que o texto brilhe. Aqui é preciso fazer um elogio a trilha-sonora de Hans Zimmer, que mesmo reutilizando trechos de outros filmes do DCEU, consegue evocar emoção durante todo o filme e ainda manter o espectador atento.

O filme que precisávamos

Após um ano turbulento, é bom ter uma opção de entretenimento com personagens que gostamos, uma história bem contada e por que não, uma mensagem para ser levada ao sair da sala de cinema.

Em 1984, Diana Prince lutava a favor da verdade e contra a mentira, o oportunismo e a ganancia. No fim, aquilo que nos faz ser bons seres humanos prevalece de todo mal que possa existir, por mais difícil que seja a realidade. Ela nos faz mais fortes e pessoas melhores dia após dia.

Em 2020, basta entrar na sua rede social mais próxima e se deparar com fake news de todos os tipos possíveis, políticos negando uma pandemia que tirou a vida de milhares de pessoas, distorcendo fatos do passado, tudo pelo próprio bem pessoal que essa situação pode causar.

Por mais inocente que seja acreditar que no final a verdade sempre prevalecerá e os mentirosos perderão, é uma forma de consolo depois de tudo que passamos e vivemos até aqui. Não existe ato de heroísmo maior que esse.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui