O Retalho foi convidado pela Warner Bros. para a cabine de imprensa

Com quase 30 anos de existência, a franquia de jogos de luta Mortal Kombat já passou por diversos altos e baixos ao longo do tempo. Mesmo assim, se manteve relevante através dos elementos que tornaram sua essência. Não tem como falar “Fatality” ou “Get over Here“, sem lembrar dos personagens marcantes e da violência intensa que os combates apresentam.

No entanto, esse brilho não aparece quando o assunto é o enredo. Na realidade, até o 9º game canônico lançado em 2011, nenhum outro se preocupou em apresentar uma trama coesa e bem amarrada. Mas mesmo com esse aprofundamento, que rendeu mais duas sequências, no fundo a história é uma grande farofa que apenas serve para justificar o caos e a brutalidade vista em tela. Mas a ausência de um roteiro bem escrito nunca foi um problema, já que o que importava de fato era o fator diversão oferecido pelos jogos.

Tendo isso em mente, como uma adaptação cinematográfica de Mortal Kombat poderia acertar? Em 1995, Paul W.S. Anderson entregou um filme que hoje pertence ao cinema trash, mas tem uma identidade própria que conquistou os fãs da franquia. Em 2021, o novato diretor Simon McQuoid teve a missão de reapresentar esse universo nas telonas e agradar um novo público.

Reprodução/Warner Bros.

Bem-Vindo ao Mortal Kombat

O roteiro assinado por Greg Russo e Dave Callaham toma a liberdade para criar conceitos, personagens e detalhes da história original. O protagonista por exemplo, é Cole Young (Lewis Tan), um lutador fracassado que possui uma marca de dragão no corpo. Um certo dia, Jax (Mehcad Brooks) consegue rastrear o garoto ao saber que Sub-Zero está caçando-o. Sem muitas explicações, ele informa que a marca é um convite a lutar pelo Plano Terreno no Torneio Mortal Kombat.

Plano Terreno é o que seria o nosso mundo, que vive em guerra com a Exoterra, uma Terra Alternativa aonde existem diversos seres malignos e poderosos. A Exoterra já venceu 9 vezes o torneio e se conseguir vencer pela 10ª vez, eles poderão controlar e escravizar a raça humana.

Cole larga sua família na intenção se protegê-la e se une a Sonya Blade (Jessica McNamee), parceira de guerra de Jax. Juntos, eles formam uma aliança com Kano (Josh Lawson), um mercenário nada confiável que também possui a marca e tem informações sobre aonde achar outros combatentes liderados por Raiden (Tadanobu Asano).

Este primeiro ato introdutório é bastante satisfatório, pois respeita a lore mais recente dos games ao estabelecer as regras deste mundo. Para quem for ter um primeiro contato com a franquia, conseguirá entender sem grandes problemas. Os fãs notarão algumas pequenas referências escondidas e algumas alterações, que não são comprometedoras.

Reprodução/Warner Bros.
No entanto…

Apesar de uma apresentação de universo bastante interessante, falta muito desenvolvimento em praticamente tudo. A começar por Cole Young, o protagonista que parece um coadjuvante sem nenhum carisma, o que impede do público criar uma ligação com ele. A sua jornada se resume ao clichê de encontrar uma força interior que irá despertar seus poderes adormecidos. Afinal, o filme explica que toda pessoa que possui a marca do dragão, consegue conjurar poderes.

Nunca foi dito nos games ou nos quadrinhos que os poderes dos personagens eram fonte interna por conta de alguma marca. Eles simplesmente existiam junto de diversas outras criaturas bizarras que não precisavam de uma justificativa para existir. Assim, o filme complicou algo que era simples. Já que isso não era o bastante, o roteiro deixa mais complexo ao dizer que a marca pode ser passada de pessoa a pessoa, caso alguém assassine um portador.

Reprodução/Warner Bros.

Ao mesmo tempo que isso ocorre, personagens clássicos como Kabal, Reiko, Mileena, Nitara, Goro e as menções aos Deuses Antigos, se tornam apenas fan-services mal feitos. Nesse sentido, para saber quem são esses personagens, é necessário ter um conhecimento prévio dos games, e mesmo quem tenha, se frustrará com o destino que eles recebem.

Faltou ousadia e criatividade para trabalhar o universo em mãos e com calma. Mas ficou também uma impressão de que tudo colocado neste filme, foi apenas uma preparação do que pode se tornar base para futuras sequências. Mas não deixa de ser uma atitude irresponsável, já que sequer sabemos qual será a continuidade da franquia nos cinemas.

FIGHT

Reprodução/Warner Bros.

Se existe um quesito onde o filme respeita fielmente os games, esta é a parte técnica. Do visual as coreografias, fica claro que existe um carinho e respeito pelas obras originais. A classificação +18 permite que haja diversos tipos de fatalities, sangrentos e nojentos, mas que arrancam um sorriso do fã. Nas cenas de luta, é possível identificar combos e até algumas piadas relacionadas aos jogadores, como Liu Kang (Ludi Lin) apelando na rasteira.

O maior problema está na direção e nos cortes durante as lutas. Em um certo momento, existem diversos combates acontecendo ao mesmo tempo. Pois o filme vai alternando de um em um e dando pouco tempo para processar o que está acontecendo em tela. É uma pena, pois mesmo sem muitos takes inspirados, o diretor Simon McQuoid consegue filmar de forma que o espectador não se perca.

Os efeitos especiais estão dentro da média, levando em consideração o orçamento para o projeto. Mas em alguns momentos se compromete ao recriar o Reptile por exemplo, que possui um visual genérico e fraco na ação, quebrando toda a imersão.

Veredito

Reprodução/Warner Bros.

Mortal Kombat de 2021 às vezes acerta no fan-service, outras acaba entregando uma boa introdução a um novo público e chega num momento que não consegue fazer nenhuma das duas coisas. Mesmo assim, no fim do dia, é possível sair da sessão com um saldo positivo tendo em mente o que a franquia é nos games.

Podemos questionar algumas decisões no enredo, mas a obra original já é cheia de decisões questionáveis. Sendo assim, o filme capta a essência mais importante que é a diversão em ver lutas sangrentas, combos violentos e frases icônicas. Pode ser que uma futura sequência expanda o universo e apresente mais conceitos conhecidos, já que com uma base estabelecida neste primeiro, abre margem para ousar mais.

Portanto, não há porque olhar com rejeição a este projeto, que tem potencial de sobra para fazer sua marca nos cinemas.