Pouco menos de seis meses desde o lançamento de Soul, a Pixar traz ao Disney+ mais um projeto original, Luca. Este é o 24º longa do estúdio e traz o diretor Enrico Casarosa para realizar um projeto que o mesmo disse várias vezes em entrevistas se tratar de um trabalho pessoal. De fato, isso é visto em poucos minutos da animação, revisitando a sua infância no verão italiano.

Ao longo dos anos, a Pixar veio conquistando cada vez mais o coração do público por entregar animações que fogem do tradicional como animação. Nesse sentido, temos obras que entregam entretenimento para toda a família, ao mesmo tempo em que há material para reflexão após a sessão. Esse debate é proposto através de assuntos mais profundos, como em Divertida Mente e Soul, que evocam uma questão mais existencialista, mas há espaço também para discussões mais leves.

Esta é a proposta de Luca, que através de metáforas celebra momentos chave da infância num geral. Desde a fascinação pelo desconhecido; a imaginação de que ao realizar os sonhos atingirá a realização máxima; tudo é incrível e tudo é belo e para sempre. Mas todos precisamos passar por transformações e muitas delas acontecem nos momentos de rompimento com esses laços da infância. No fim, tudo acaba não passando de uma doce memória.

Luca e Alberto: os corações do filme

© 2021 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Luca (Jacob Tremblay) é uma espécie de híbrido de humano com peixe. Ao entrar em contato com a superfície, essa espécie pode conviver entre humanos e passar despercebido. Ao ter contato com água, escamas aparecem no corpo e revelam a sua forma original. Por conta disso, eles são vistos como monstros e são caçados por moradores da cidade de Portorosso.

Mesmo assim, Luca tem o sonho de conhecer o mundo que existe acima de si, mas seus pais o criaram para que seguisse as regras e nunca tivesse contato com humanos. Um dia, ele conhece Alberto (Jack Dylan Grazer), outra criatura marítima, mas que vive fora d’água. Logo, seu novo amigo começa a lhe apresentar as maravilhas da superfície e ambos começam a traçar planos para realizarem juntos.

A partir disso, o filme possui duas facetas a serem vistas.

A primeira é o desenvolvimento da amizade dos dois e o que isso significa. Luca passou sua vida dentro de uma bolha e ao sair dela, se depara com um imenso desconhecido. Alberto serve como um guia e sua única referência de conhecimento e coragem. Uma das ferramentas mais poderosas do roteiro é quando ele ensina o “Silenzio Bruno“, como mecanismo para superar suas inseguranças diante de um novo desafio.

Mas ao passar do tempo, essa amizade se torna uma nova bolha para Luca. Ao chegarem em Portorosso para que possam comprar uma moto (o que seria o maior objetivo de vida da dupla), essa bolha fica ameaçada quando eles conhecem Giulia (Emma Berman). Luca tem muito a aprender sobre os costumes humanos através dela e se fascina pelo que ela tem a ensinar. A partir disso, ele precisará encontrar o seu caminho para ser o dono de sua própria jornada.

Bons conceitos abandonados no caminho

© 2021 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

A segunda faceta encontra um lado que infelizmente o filme deixa completamente de lado. Não existe praticamente nenhuma outra criatura marinha além da família de Luca e Alberto. Logo, não há explicações de como eles vivem em sociedade, deixando uma brecha pro imaginário do espectador. De início, isso não chega a ser um incômodo, pois não teria muito a acrescentar a história da dupla.

No entanto, a resolução da trama tem dificuldades de convencer por abandonar seus próprios conceitos. Portorosso tem orgulho de ser uma cidade de assassinos de peixes e qualquer criatura do mar. Isso fica exposto em monumentos e nos restaurantes locais. Inclusive a cena de abertura deixa claro o ponto de vista dos humanos em relação aos “monstros marinhos”.

Sendo assim, não deixa de ser uma oportunidade perdida de ir mais a fundo e falar de preconceito. É claro que, exigir isto de um produto que leva o selo da Disney pode ser um pouco demais, mas já seria uma resolução mais viável do que a usada aqui.

Um espetáculo visual digno do litoral italiano

© 2021 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Tudo em Luca é belo e novamente a Pixar entrega um filme com alta qualidade técnica. Mas diferente das produções anteriores, o foco não está no realismo das texturas que chegam a ser foto realista. Pelo contrário, essa é uma das animações mais estilizadas do estúdio, que brinca com traços mais caricatos. A beleza parte da coloração que deixa o cenário vivo, usando cores que contrastam com o mar e o céu, além do sol em pleno verão italiano.

Portorosso tem inspiração aonde Casarosa nasceu, portanto a equipe não mediu esforços para que tivesse uma retratação digna. O espectador se sente como um turista conhecendo a cidade, que caso fosse real com certeza iria aumentar o turismo local.

A trilha sonora é um deleite aos ouvidos, que junto com as imagens promovem um encanto audiovisual. As musicas brincam com o lado mais inocente e puro em sua composição, com melodias que recriam a tarantela, gênero tradicional italiano, através do som do mar.

Veredito

Luca é acima de tudo uma reflexão sobre a infância e tudo de bom que ela pode trazer. No final do filme, há um simbolismo muito bonito de como a vida continua ao desprendermos laços, mas que ela sempre vai estar guardada ali. Dentro de um contexto geral, a infância pode estar guardada num objeto, numa pessoa, uma comida. Aqui, ela é Portorosso, tanto para Luca quanto para o seu diretor.

É certo de que o caminho para contar essa história tenha esquecido de detalhes importantes. Mas quantos detalhes não esquecemos ao lembrar de uma antiga memória que só faz parecer que tudo era perfeito e sem defeitos? Pode ser que este texto de rodapé seja apenas uma passada de pano, mas dentre tantas metáforas, essa acaba funcionando muito bem aqui.

Um brinde a todos os amigos que já passaram por nossas vidas enquanto mais novos, aos bons momentos e aos aprendizados. A vida é mágica por ter momentos como estes e que bom que existe a Pixar para fazer essa celebração.

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