Este é um dia que qualquer pessoa com os pés no chão jamais imaginou que existiria. Não é preciso recontar toda a história que precedeu e procedeu o lançamento de Liga da Justiça. É sem dúvidas um dos lançamentos mais controversos de todos os tempos, não pelo seu conteúdo em si mas por todos os bastidores que o filme teve. Mas finalmente, os fãs podem saber qual era a verdadeira visão de seu diretor, Zack Snyder, em seu terceiro filme no Universo DC.

Partir do ponto que esta versão é melhor do que a vista nas telas do cinema, chega a ser perda de tempo e é óbvio. A primeira versão era um filme sem identidade, confusa, remendada e extremamente sem sal. Já esta, como diria Ray Fisher, é uma refeição completa. O que em outras palavras, atesta uma das atitudes mais estúpidas e inacreditáveis da história feita por um estúdio de Hollywood.

Contexto é tudo

É importante começar dizendo que a espinha dorsal do filme é a mesma de 2017. Superman (Henry Cavill) está morto e Batman (Ben Affleck) precisa unir uma equipe de meta-humanos para poder enfrentar a ameaça que Lex Luthor havia lhe dito. Enquanto isso, Lobo da Estepe surge com o despertar das Caixas Maternas e começa a caçá-las para formar uma unidade e conquistar a Terra.

A premissa já era interessante e aqui vai um dos pontos que define toda a versão do diretor. Após ser criticado pelos seus trabalhos anteriores, Snyder mostra uma evolução neste filme. É possível notar que alguns vícios foram deixados de lado, como o exagero nas cenas de ação que levaram a destruição de metrópolis ou os raios explosivos de Apocalypse.

Durante as 4 horas, ele busca dar uma sensibilidade ao texto de Chris Terrio que desenvolve seus personagens principais sem nenhuma pressa. É um texto que não é de todo bom, pois tem uma série de pequenos defeitos. É possível encontrar falas que soam forçadas, principalmente as que servem apenas para justificar a classificação para maiores. Mas por outro lado, apresenta um contexto sólido e coeso, onde cada jornada encontra seu propósito no fim.

Reprodução/Warner Bros. Home Entertainment

Sombrio…. pero no mucho

Inclusive, cada personagem possui seu próprio tom e não se perde na narrativa sombria de outros filmes, como Batman Vs Superman. Ciborgue (Fisher) por exemplo, possui seus dramas, mas eles estão muito mais direcionados para o lado da emoção do que uma carga mais pra baixo. Flash (Ezra Miller); Aquaman (Jason Momoa) e Mulher-Maravilha (Gal Gadot) são outros a possuírem suas próprias narrativas e estilos, que combinados formam uma Liga da Justiça diversificada.

Por trás dessa narrativa, existe um engrandecimento da mitologia por trás das Amazonas, Atlantis e o Reino dos Homens. Snyder vai a fundo nos quadrinhos da DC Comics para a expandir o seu universo, com referências e a sua conhecida identidade visual. São diversas cenas que parecem ter sido retiradas diretamente de um gibi e suas câmeras lentas são ótimas em fazer o espectador se entreter.

Ainda assim, não é difícil assistir ao filme sem ter pequenos incômodos no caminho. Apesar da leitura sobre os heróis ser mais leve e diferente dos filmes anteriores, ainda existe um flerte com cenas mais problemáticas. Bem no começo, a Mulher-Maravilha é colocada contra terroristas e os ataca sem piedade.

Logo depois, uma jovem a olha e diz que quer ser igual a ela, o que remete o olhar do público mais novo assistindo ao filme. Mas é difícil a cena se conectar com este público se a própria classificação indicativa por conta da violência a proíbe. É uma cena que caso o lançamento fosse nos cinemas, seria mais suavizada, o que parece ter sido apenas um abuso da liberdade criativa.

A duração

Reprodução/Warner Bros. Home Entertainment

O filme é dividido em seis capítulos e mais um epílogo. Então é bastante provável que em algumas pessoas isso cause um certo cansaço, senão na primeira vez, na segunda com certeza. Mas isso não é um problema crítico, afinal em poucos momentos é possível sentir uma perda de ritmo. E mesmo assim, assistir feito uma minissérie como chegou a ser pensado pelo HBO Max, pode vir a ser uma opção para assistir mais e mais vezes.

Mas ainda assim, não é difícil imaginar como seria o lançamento numa versão para os cinemas com cerca de 2 horas e meia. É possível dizer que o filme não perderia seu peso e que essa versão estendida serviria como um belo adicional. Mas como essa realidade pertence a um outro multiverso, nos contentamos com este longo corte.

Veredito

Liga da Justiça de Zack Snyder é tudo que o fã do diretor poderia esperar e um pouco mais. E para quem não é fã, ainda tem chances de sair com um saldo positivo. É inexplicável o que os bastidores fizeram a esse filme e as refilmagens não possuem nenhum sentido para terem existido.

O tom mais leve já estava aqui presente, assim como algumas piadas e momentos descontraídos. Futuramente, voltaremos na memória para lembrar este caso como um exemplo de uma péssima intervenção do estúdio e como não fazer. Chega ser irônico o mesmo estúdio não ter interferido em dois projetos problemáticos do diretor, mas ter feito isso em seu melhor trabalho.

Para a versão de Joss Whedon, restará apenas o esquecimento e o desprezo por conta dos bastidores. E sobre o futuro deste universo agora? Bom, se até o Batman restaurou sua fé e a utiliza para tudo, por que não ficar atento ao que o futuro aguarda? Tudo pode ser possível já que este filme viu a luz do dia.

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CONTEÚDO COM SPOILERS

Se não quiser saber de detalhes do final, pule para a nota

Este ponto poderia ser passado em branco na crítica, mas é um dos motivos para diminuir a nota. O filme de verdade possui 3h e meia, pois os últimos 30 minutos são dedicados ao epílogo. Trata-se das cenas adicionais que mostram o pesadelo do Batman e trouxeram um hype enorme para a internet.

No entanto, nada é divertido de fato e só deixa a boa conclusão do filme arrastada e encerrada de uma forma decepcionante. É um material que não precisava estar presente, especialmente por ficar visualmente desconexo do resto da película.