O Retalho assistiu Godzilla Vs Kong a convite da Warner Bros. em sua cabine de imprensa

Desde que Vingadores se tornou um sucesso comercial de crítica e de público, os grandes estúdios buscaram usar suas franquias para recriar a mesma formula. No caso da Legendary Pictures juntamente com a Warner Bros., a ideia foi criar um universo aonde Godzilla e o King Kong pudessem coexistir.

Com início em 2014 com Godzilla de Gareth Edwards, a franquia receberia mais dois filmes antes do encontro. No entanto, ao invés de estar sendo criado um universo coeso, o que se viu foram filmes completamente diferentes um do outro em tom, mas com defeitos parecidos que iriam se agravar filme após filme. Neste caso, todos os filmes têm o problema de focarem em personagens humanos rasos e deixando quem dá o título de lado.

Dentro deste contexto, a preocupação para o grande evento Godzilla Vs Kong era de como um filme tão esperado pudesse entregar qualidade, mesmo depois de filmes tão desconexos. Por sorte, o diretor Adam Wingard soube usar as ferramentas certas para que seu filme conseguisse se destacar positivamente, mesmo que inevitavelmente tivesse que repetir alguns erros.

O velho problema do drama humano

O longa se situa algum tempo depois do final de Godzilla II: O Rei dos Monstros. O kaiju derrotou os outros monstros que habitavam a Terra e é considerado um herói. No entanto, ao realizar um ataque surpresa e sem explicações na base de uma empresa de tecnologia chamada Apex, ele seria dado como ameaça. O dono da empresa, Walter Simmons (Demían Bichir) surge com um plano de derrota-lo, precisando da ajuda de Kong e assim colocando os dois gigantes para combater.

O tempo de duração não é longo, indo na contramão de blockbusters sem sequer ter duas horas. Mas é sofrível chegar até a conclusão do primeiro ato, que consegue usar tudo de ruim que esta franquia pode oferecer. Há um ritmo lento para apresentar os personagens humanos e contextualizar o que eles estão fazendo. Eles são divididos em dois núcleos que representam os kaijus: o de Godzilla tem o retorno de Madison (Millie Bobby Brown) liderando uma investigação sobre o ataque misterioso, guiada pelas conspirações de um podcaster chamado Bernie (Brian Tyree Henry). Já o de Kong o situa como está atualmente depois dos eventos de seu filme solo, sendo cuidado pela Dra. Ilene (Rebecca Hall). Este núcleo ainda possui o Dr. Nathan Lind (Alexander Skarsgard), contratado de Walter para lhe ajudar em sua missão.

Nesse sentido, o roteiro de Max Borenstein e Eric Pearson parece não entender que não precisa de um contexto complexo para colocar Godzilla contra Kong. Já conhecemos esses personagens e sabemos qual o padrão de seu comportamento, logo muito tempo desnecessário conseguiria ser evitado neste filme. Mas parece haver uma compulsão de criar jornadas heroicas e honrosas na qual quem está pagando para ver um filme de monstro, não está muito interessado em saber.

A salvação

A parte estranha deste projeto, é que parece que Adam Wingard não está interessado em fazer este desenvolvimento dos humanos. Ao chegar no segundo ato, essas histórias vão sendo deixadas cada vez mais de lado e sendo resolvidas de forma direta. Isso porque diferente de seus antecessores, o filme assume como uma história de fantasia e apresenta conceitos divertidos de ver em tela. E surpreendentemente, os monstros começam a serem tratados como protagonistas de fato, mesmo que eles acabem ficando um pouco mais humanizados que o habitual.

Bem como, o filme acerta em cheio em Jia (Kaylee Hottle), uma criança surda sobrevivente do povo Iwi. Ela é a única que consegue se comunicar com Kong, e por isso, possui um afeto inocente e sincero. Suas cenas ainda possuem uma composição visual e sensorial muito bem feita e que vendo num cinema ou com um som de qualidade, passa uma imersão satisfatória (não seria surpresa ver o filme em premiações pela parte técnica). O acerto está na forma como conseguimos se conectar através da inocência da personagem e fascinação com o mundo ao redor, algo incapaz visto nos outros arcos.

O embate

É gratificante chegar ao final de Godzilla Vs Kong com a sensação de que o filme entregou o que prometeu. Mesmo que comece em ritmo lento, quando o confronto dos dois kaijus chega, é extremamente divertido ver os dois se enfrentando. Principalmente porque se lembrarmos dos filmes do Godzilla, haviam cenas que escondiam muito de seu visual, o colocando no meio de fumaças ou evitando mostrar sua aparência completa.

Aqui não só os vemos com a maior definição possível, como o filme sabe construir boas cenas de ação. Wingard usa o cenário que tem em disposição e o faz ser útil em meio a pancadaria, combinando com as características dos dois oponentes. Afinal, o que torna a batalha interessante é que Kong possui um estilo de combate mais direto e com socos e Godzilla usa seus poderes para se dar bem.

E a parte mais divertida é que existem momentos dignos de comemoração de cada lado da torcida. Em tempos normais, provocaria reações calorosas nos cinemas, entre empolgação e preocupação, já que no fim existe um vencedor.

Veredito

Existem filmes que ao assistirmos, não precisam terem uma história complexa por trás e cheia de acontecimentos. Godzilla Vs Kong tem um título autoexplicativo, só queremos ver um filme de dois monstros gigantes se batendo. Os vícios de Hollywood já atrapalharam diversos projetos com humanos roubando o protagonismo de criaturas fantásticas e aqui isso quase se repetiu.

No fim do dia, não importa se a fantasia é desconexa com os filmes anteriores ou se as figuras humanas possuem objetivos. Tudo o que importa é ver dois monstros de CGI brigando só porque é divertido e precisamos de um pouco disso no dia-a-dia. Produtores precisam aprender que pretensão demais leva ao próprio fracasso e que não há problema em apostar em fazer só o básico.

Felizmente, a parte que acerta já faz parte dos minutos finais e a sensação que o filme deixa ao termina-lo, é positiva e caso haja novas sequências, seria interessante seguir por novos ares.