O Retalho assistiu Elvis na cabine de imprensa por convite da Warner Bros.

Revisado por Maria Oliveira

Elvis Presley faleceu há 45 anos atrás, sendo um dos maiores astros do rock e ícone das décadas de 60 e 70. Mas o seu legado segue vivo até os dias de hoje graças ao poder emanado pelo artista tanto nas canções quanto nas performances. Uma figura tão icônica assim obviamente chamaria a atenção de Hollywood, que produziu diversos filmes e documentários sobre a sua vida. Na maioria das vezes, a tentativa foi desmistificar o mito por trás de Elvis Aaron Presley.

O mais recente deles chega nessa semana aos cinemas brasileiros, dentro de um contexto muito favorável às cine-biografias de grandes astros. Nos últimos quatro anos vimos o sucesso comercial de Bohemian Rhapsody e Rocketman com as histórias de Freddie Mercury e Elton John respectivamente. O normal seria fazer um filme convencional, enquadrado do clichê de ascensão e queda, só que o “normal” não combina com o diretor Baz Luhrmann (responsável por filmes como O Grande Gatsby e Romeu e Julieta)

Desde as entrevistas pré-lançamento, ele quis distanciar o termo cine-biografia de seu filme, preferindo rotular como uma história de super-herói. Apesar de parecer um discurso apelativo para atrair o consumidor de cinema atual, surpreendentemente tudo faz sentido logo na abertura e se expande pelas duas horas e meia.

Enredo/Contexto

Reprodução/Warner Bros.

A história tem a narração do empresário de Elvis, o Coronel Tom Parker (Tom Hanks). Ele foi o grande responsável por descobrir Elvis (Austin Butler) e lançá-lo para o mundo. Muitos lhe acusam de ter sido o responsável pela queda do Rei, que ocasionou a sua morte. Mas o Coronel, em seus últimos dias de vida, tenta se defender e apresenta o seu lado da história.

Então começamos a acompanhar de fato a história de origem do astro, desde as inspirações para os seus grandes sucessos, os obstáculos enfrentados na época, o romance com Priscilla Presley (Olivia DeJonge), a entrada no Hotel Internacional de Las Vegas e a sua morte. Só que nesse caminho é necessário colocar diversos asteriscos pois nem todos os acontecimentos são contados com muita fidelidade.

Uma fabulação sob o ponto de vista de Tom Parker

Reprodução/Warner Bros.

Luhrmann, que além de dirigir também assina o roteiro ao lado de Jeremy Doner, Craig Pearce e Sam Bromell, está pouco interessado em se aprofundar na vida pessoal de Elvis. O foco está em explorar o que fazia o astro ser icônico e chamar tanta atenção (detalhe para explorar e não explicar). Logo na abertura, há um mistério para que o rosto de Austin Butler apareça, trabalhando apenas com silhuetas e o uso de sua voz. Daí vem o paralelo com um super-herói, pois Elvis se transforma quando sobe no palco, provocando reações incontroláveis da plateia presente.

Essa abordagem no entanto, pode parecer covarde já que tira a responsabilidade de abordar questões polêmicas da carreira do “Rei”. Uma delas é a de que Elvis se apropriou da cultura afro-estadunidense dos anos 50, época onde ainda havia segregação racial no país, e fez sucesso a partir disso. Embora o filme ainda mostre um dos personagens enfatizando que ele tem “voz de negro, mas é branco” para justificar que valia a pena o investimento, não há um aprofundamento na pauta. O que acontece é uma “proteção”, inclusive implicando que Presley e o lendário guitarrista B.B. King (Kelvin Harrison Jr.) eram grandes amigos. Apesar de ambos terem se conhecido por fazerem parte da mesma gravadora, a Sun Records, não há registros dessa relação.

Para o bem ou para o mal, essas inconsistências com a realidade são facilmente justificadas a partir do envolvimento do Coronel Tom Parker. O antigo empresário era uma pessoa sem caráter algum que nunca foi de fato um coronel, não se chama Tom Parker e sequer é americano. Então ao colocá-lo como narrador, essa necessidade de manter o legado intacto deixa de ser apenas dos idealizadores, mas parte da construção desse personagem tão importante para o filme.

O maior espetáculo da Terra

Reprodução/Warner Bros.

Para o filme funcionar dentro da ideia de que tudo acontece dentro das memórias do Coronel, era preciso ser extravagante. Parker enxergava Elvis como um produto de extremo valor, uma atração diferente de tudo que o mundo já viu. Então toda a parte técnica é um grande espetáculo a parte, sempre trazendo cenários grandiosos e em cenas menores, há sempre um destaque para o figurino ou para a fotografia que traz um uso de cores quentes, soando como algo lúdico e irreal.

Só que nada funcionaria num geral se não fosse pela atuação extraordinária de Austin Butler. O ator não tem papéis tão marcantes assim no cinema e dar vida a alguém tão conhecido pela sua personalidade na mídia não é uma tarefa fácil. Só que Butler encarna Elvis no seu jeito de dançar, falar, agir e até mesmo cantar. Ele transita no personagem entre os anos 50 e 70 com uma facilidade sem igual, sabendo explorar bem tanto a sua juventude quanto a fase mais madura.

Suas performances no palco são de tirar o fôlego, com um destaque para uma interpretação de Suspicious Mind. Mesmo que seja um dos momentos onde há um mix de sua voz com a de Presley, ainda há muita energia, além de quase 4 minutos totalmente entregue às batidas da canção. Butler transforma o cinema em um palco, onde por um momento havia esquecido estar assistindo à um filme e sim um show de verdade. Simplesmente impressionante!

Um pé no contemporâneo

A trilha-sonora está repleta de clássicos, mas também traz artistas contemporâneos com músicas originais, como Vegas da Doja Cat. Essa é uma característica do Baz Luhrmann, que anteriormente já colaborou com Jay-Z para a trilha de O Grande Gatsby, ambientado na década de 20. Só que essa decisão é puramente estética, já que não acrescenta em nada ao filme e gera um estranhamento por estarmos falando de Elvis.

Um ponto a lamentar é como o filme aborda muito pouco o processo de criação das canções. Como já mencionado, o foco está muito mais nas performances de palco e na personalidade extravagante do protagonista, só que as canções parecem ficar de fora dessa fórmula de sucesso. O que é uma pena, pois seria uma outra oportunidade de mostrar que ele nunca esteve envolvido das composições, mas é deixado completamente de lado.

Veredito

Elvis é um filme baseado em uma pessoa real, mas que não se compromete em contar uma história totalmente real. Há quem fique irritado com essa escolha e diga que rolou uma passada de pano em todas as suas polêmicas. Além das mencionadas durante o texto ainda há o seu envolvimento com o presidente Nixon, relacionamento com menores de idade, traições e várias outras questões. Baz Luhrmann não se importou com isso e não quer que você se importe também.

O filme entregue é uma homenagem e celebração, focado em trazer toda a energia que o intitulado “Rei do Rock” trouxe aos palcos enquanto era vivo. Ao desempenhar esse papel, temos um filme rico em detalhes e com um show de atuação de Austin Butler. Tão incrível que deixa Tom Hanks ofuscado, mesmo entregando uma grande performance e tendo um papel mais importante que o de Elvis.

Baseado nisso, fica a seu critério comprar a proposta ou seguir com suas convicções.

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