Texto publicado originalmente em www.facebook.com/retalhoclub no dia 27 de Setembro de 2018

Esqueça o que você está acostumado a ver em filmes baseados em quadrinhos. Limpe sua mente do habitual e passe a enxergar Coringa como o estudo de uma mente doente reagindo a uma sociedade tóxica em uma cidade à beira do caos. Esse é o Coringa proposto por Todd Philips (Diretor) e vivido por Joaquin Phoenix.

O filme não te entrega logo de cara o Coringa com o qual você está acostumado e é possível que você não o veja durante toda a narrativa. O que temos no longa metragem é a trajetória de vida de Arthur Fleck com nuances de Coringa e não digo isso de maneira negativa, muito pelo contrário, falo de forma muito positiva.

No decorrer do filme temos um desenvolvimento que vai muito além da história de Arthur, mas um aprofundamento no contexto político-social de Gotham. Nessa realidade as pessoas são capazes de enxergar nas ações de um homem completamente louco um símbolo revolucionário – motivo esse que, provavelmente, trouxe tantas polêmicas envolvendo sua narrativa.

Diferente do que você possa imaginar, Coringa não tenta justificar as ações de Arthur Fleck, mas tampouco tem medo de dissecar essa mente perturbada. Na realidade, o que impressiona é justamente a forma como o personagem responde aos acontecimentos que o rodeiam, sem ignorar jamais a influência da sociedade caótica que está inserido: um psicológico doente pode encontrar maneiras extremamente nocivas de reagir ao seu ambiente.

Não temos um “coitadinho” durante todo o longa. A verdade é que chega a ser compreensível que desenvolvamos certa empatia pelo personagem em determinadas situações, mas as formas que Arthur encontra para se expressar e reagir ao que acontece com ele é o que o caracteriza como Coringa e acaba nos fazendo lembrar que ele não é um injustiçado qualquer.

Diferente do personagem vivido por Heath Ledger, o Arthur Fleck não planejou ser o Coringa. Suas escolhas e seu entendimento individual do mundo o tornaram esse maníaco sobrevivente após um percurso de tempo e situações, se afastando do vilão calculista e projetista de suas representações anteriores no cinema.

Embalado por uma trilha sonora de arrepiar, Joaquin Phoenix entrega uma atuação impecável com momentos tão performáticos quanto de musicais e, embora o filme tente o todo tempo se voltar ao grande público, alguns momentos são pura performance artística.

Inclusive, aqui vai um dos poucos pontos negativos do filme: sua tentativa de ser popular torna algumas sequências expositivas demais. Existem momentos em que não parecia necessário grandes explicações, mas Todd Philips optou por fazer um sacrifício e mastigar situações para o espectador, retirando algumas ambiguidades que, talvez, trouxessem até mais beleza ao longa. Não que isso atrapalhe o desenvolvimento, mas o filme poderia ter mais a ganhar se abrisse mão da busca pela popularidade e abraçasse de vez a arte que algumas cenas carregam.

Coringa não é um filme extremamente violento, no sentido raso da palavra, mas é angustiante, profundo e impactante. Embora não tenha nenhuma cena com fraturas ou vísceras, a imprevisibilidade e a conduta do personagem são tão bem construídas que nos causam um desconforto persistente. Após determinado momento do filme, o espectador pode passar a sentir agonia temendo as decisões de Arthur, graças à atuação e imersão do roteiro que sabe entregar altos e baixos na medida certa sem nos deixar perder o interesse na história do personagem.

Desde sua risada patológica até sua inabilidade social, Coringa nos fascina com sua história de vida e clara facilidade para matar como forma de solucionar problemas, nos prendendo pela realidade crua e coerência narrativa.

Coringa não é um filme fácil, embora também não seja um filme complexo. O roteiro completa um arco narrativo muito bom, de forma a não demonstrar necessidade de complementos e joga as discussões para o campo da psicologia por trás das ações e simbologias apresentadas.

Um filme importante para nossa época com forte cunho político e sociológico e, embora eu acredite que a mídia não tenha sabido conduzir da melhor forma as discussões sobre a trama, a necessidade de se falar sobre Coringa e suas relações com a realidade se faz presente e engrandece o longa.

Não deixe de assistir Coringa nos cinemas. Fiquem ligados aqui no Retalho para mais novidades sobre este e os próximos lançamentos.

*Assistimos ao filme à convite da Warner Bros. Brasil em Cabine de Imprensa exclusiva na última sexta-feira 27/09*

REVIEW GERAL
Coringa
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Levi Kaique Ferreira é Engenheiro Civil, Palestrante e Professor. Deseja ser escritor e atualmente trabalha em dois de seus primeiros livros. É Sócio-Fundador e Diretor no site O Retalho. Tem 25 anos e é apaixonado por tecnologia, história,filmes, livros, séries e quadrinhos. Seu maior desejo é dominar o mundo.

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