Desde sempre a ficção científica é um tema em alta em meio as produções audiovisuais, e isso cada vez mais vem provando ser algo que consegue se manter forte em qualquer época. Em 1993 começamos a acompanhar Arquivo X, que acompanha agentes especiais do FBI que investigam casos sem explicação, e em 2016 recebemos de braços abertos a primeira temporada de Stranger Things, seguindo um garoto que desaparece sem deixar rastros mas um pouco mais a frente vemos que a trama mostra algo muito mais complexo que um simples sumiço, mostrando que mesmo com vários anos de diferença, todos ainda amam a temática. Para fazer os amantes de Steven Spielberg vibrarem, A Vastidão da Noite chega ao catálogo do Amazon Prime Video trazendo um novo grande nome para o gênero.

A trama segue focada em dois jovens, a telefonista Fay (Sierra McCormick) e o radialista Everett (Jake Horowitz), que numa noite de 1950 (época em que a corrida espacial ainda estava em seus dois primeiros anos) em meio a uma transmissão de rádio percebem um som estranho vindo da transmissão do rádio que se parecem com ruídos de OVNIs, então começam a buscar e tentar entender o que realmente está acontecendo, enquanto o restante da população da cidade está todo no ginásio acompanhando uma partida de basquete.

Apesar de ser uma produção de baixo orçamento, financiada pelo próprio diretor Andrew Patterson, apresenta uma forma narrativa que consegue convencer desde o seu início, apresentando um grande teor autoral que não segue nenhuma narrativa já feita anteriormente por outras produções. Apesar de ser seu primeiro longa-metragem, Patterson conseguiu criar uma narrativa que, além de imersiva por completo, se mostra muito difícil, entretanto todos os efeitos de luz e câmera conseguem criar toda a atmosfera que gera tensão durante quase todo o filme, o que também é auxiliado pela excelente trilha sonora de Erick Alexander e Jared Bulmer.

No quesito trilha sonora, Alexander e Bulmer conseguiram uma criação que deixa nítido quando algo vai acontecer, porém isso não deixa a trama previsível, e sim acaba gerando ainda mais tensão e medo. No início do longa vemos os jogos de câmera fazendo uma breve apresentação dos personagens, que junto ao roteiro faz uma grande ambientação sem ser preciso de nada complexo. Durante todo o primeiro ato vemos tudo o que aconteceu no dia até aquele momento, de forma reduzida, servindo para preparar o espectador sobre tudo o que virá a acontecer mais a frente.

Durante a produção conseguimos observar qual artifício que o roteiro utiliza para prender a atenção do público, que na grande parte da trama é por conta do medo e tensão dos protagonistas (além de nos fazer sentir o mesmo senso de urgência que eles, que sempre parecem estar esperando por algo). Apesar de não estereotipar nenhum personagem, conseguimos observar diversas questões humanas durante a evolução do filme, onde é possível vermos alguns problemas relacionados ao racismo (que aparecem no primeiro e segundo ato com personagens diferentes), paixões e também a dificuldade de Everett em relações pessoais. Apesar de possuírem uma linha narrativa inovadora, acabam caindo no clichê de “os opostos se atraem”, porém isso não quebra de forma alguma a grande imersão, já que isso tudo é mostrado em diálogos sem nenhuma tentativa de forçar algo no espectador.

Apesar de se tratar de uma ficção científica, a produção consegue caminhar facilmente em alguns detalhes de romance a também conta com a presença de alívios cômicos, porém eles rapidamente deixam de acontecer quando o terceiro ato do longa se aproxima com ainda mais tensão e suspense. Para causar mais medo no espectador, o diretor passa a utilizar ainda mais artimanhas de iluminação e câmera, iniciando grandes planos sequência que por muitas vezes são apenas diálogos bem produzidos, que sempre deixam um tom mais sombrio e amedrontador no ar. Por muitas vezes é possível comparar a narrativa de algumas cenas com um monólogo do teatro, onde um grande holofote é colocado em um único personagem, e isso faz com que cada personagem mostre sua forte importância para a trama, além de desenvolver cada vez mais cada um deles. Vale ressaltar que não é possível desvendar nada do longa com verdadeira certeza até a chegada do terceiro ato, que de fato traz as soluções e motivos para o que aconteceu durante todo o desenvolvimento da produção, o que o torna ainda mais aterrorizante. Também é preciso dizer que o filme possui granulados em sua imagem para se parecer realmente com uma produção da década de 1950, o que gera uma imersão ainda maior.

Mesmo contando com alguns pequenos erros que se tornam imperceptíveis com toda a perfeição da produção, A Vastidão da Noite consegue se tornar tão boa quanto as feitas por Spielberg (claro que com mais pitadas de suspense terror). Com uma narrativa que carrega um peso diferente para cada cena, consegue criar uma grande atmosfera que acelera e se acalma para cada ação que se apresenta do decorrer da história. Fazendo um casamento perfeito entre roteiro, figurino, trilha sonora e jogos de câmera/luz, a produção consegue inovar o sci fi de uma forma que não faz menções nostálgicas como na grande maioria, o que o deixa ainda mais original.

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