Em meados dos anos 2000, inúmeras mudanças levam ao crescimento da popularização da cultura geek dentro do mainstream, acarretando no surgimento de uma maior demanda por títulos, especialmente no cinema, e mais recentemente, na TV. Essa demanda, somada ao florescimento das discussões levantadas por movimentos sociais, propiciou o surgimento de novos nichos mercadológicos, focados na representatividade de minorias como LGBTQIA+, mulheres, pessoas não-brancas e outros grupos, que passam a ser vistos como potencial público consumidor.

A partir do reajuste das empresas de entretenimento a esse movimento de oferta e demanda, se tem uma nova gama de obras com maior diversidade em suas representações: diversidade de corpos, etnias, sexualidades e gêneros. E pouco a pouco, a imagem cristalizada no imaginário comum da figura do nerd/geek como um outsider à margem das convenções sociais começa a ser desfeita. Sendo assim, a representação do consumidor de mídias nerds (HQs, filmes, séries, games, livros, etc…) deixa de ser o estereótipo do loser, o homem branco heterossexual com pouco traquejo social que é injustamente desprezado pelas mulheres.

“É ruim porque é coisa de mulherzinha”

A ideia de que mulheres que se interessam por títulos considerados “masculinos” querem “chamar a atenção” perpassa uma ideia ultrapassada de que o entretenimento para mulheres está intimamente ligado a produções centralizadas em romance, delicadeza e temáticas mais leves, com enredos e visuais considerados “açucarados”. Esses títulos são ridicularizados por sua associação direta com a ideia de feminilidade, numa lógica patriarcal e misógina.

Sendo assim, títulos como Crepúsculo, Sailor Moon, Bridgerton, Girlmore Girls, entre tantos outros associados a uma audiência feminina, ainda são ridicularizados em alguns meios, e subestimados apenas por serem “coisas de mulherzinha”. Dentro do meio nerd, há grande rejeição a personagens com essas características, como a Arlequina, cuja legião de fãs arregimenta também uma sólida fanbase de haters.

Dentro dessa lógica, há um forte movimento antifeminista dentro entre uma parcela do público nerd contemporâneo, vide as massivas campanhas contra personagens como a Poderosa Thor, a Miss Marvel e a já citada Arlequina. Esse movimento critica também o atendimento da demanda do público feminino por personagens menos sexualizadas e mais humanizadas, cujas representações não estejam atreladas apenas ao reforço de estereótipos de gênero.

“Tudo agora é representatividade”

Ao mesmo tempo em que essa parcela conservadora do público nerd rejeita as produções ditas femininas e a partir desse rótulo as categoriza como obras ruins, também rejeita a ideia de que mulheres enquanto público consumidor, possam também se interessar pelos mesmos títulos de maneira genuína. Como exemplo, uma mulher que se interessa por Star Wars obrigatoriamente possui o objetivo de agradar um homem ou angariar algum tipo de atenção masculina. Como forma de se provar, essa mulher precisa então ter um conhecimento enciclopédico sobre aquela produção, e/ou rejeitar completamente obras “de mulherzinha”. Essa mulher precisa então, abrir mão de sua feminilidade e seu feminino, e se provar um homem para que possa ser equiparada a um.

A existência desses discursos atravessa questões muito mais profundas do que um simples incômodo com “mimimi” e “lacração”, e escancara um sintoma social: a reação de grupos culturalmente hegemônicos e mantenedores de privilégios frente a qualquer conquista de um grupo subalterno. Embora representatividade no entretenimento não seja nenhuma mudança efetiva na situação de marginalização social desses grupos, questões sobre representação são parte importante do processo das relações de poder e de como elas se consolidam.

Sendo assim, para estes grupos, o fato de uma indústria que antes servia como uma espécie de “válvula de escape” se reinventar para atender às novas demandas mercadológicas, trazendo protagonismos femininos e (principalmente) representações menos sexualizadas, é uma afronta direta ao seu safespace.

Considerações finais

É preciso ressaltar sempre o caráter mercadológico que a cultura pop possui, e como a questão da representatividade é muito mais uma questão de oferta e demanda que acompanhou a diversificação do público nerd, do que necessariamente uma iniciativa altruísta. Esse boom acompanha a popularização da internet e o aumento das discussões envolvendo movimentos sociais, que culmina com a busca por novos enredos, novos protagonistas e maior inclusão dentro dessa cultura pop.

No entanto, vale salientar que mesmo essa representatividade midiática pouco tem a agregar se é produzida pelos mesmos grupos hegemônicos, especialmente no caso feminino. De que adianta termos protagonistas femininas se as mesmas continuam a ser sexualizadas ou inutilizadas de alguma forma na trama? De que adianta escrever uma mulher forte se a mesma ainda é token para o desenvolvimento de algum personagem masculino? De que adianta trazer uma personagem não-branca, se ela é estereotipada e reforça padrões de base racista? De que adianta fazer uma representação feminina bem orquestrada se as equipes de produção, direção e redação são compostas quase que absolutamente por homens? São questões que valem ser discutidas e que precisam permear o debate em torno da representatividade feminina.

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