Quando era moleque, eu odiava ir pra escola. Sempre frequentei o colégio público, e vocês sabem o que isso significa. Além de um sistema precarizado que mecaniza o ensino, distorce o ideal de aprendizado e pouco se importa com a pessoa do aluno, são seis horas diárias dentro de um prédio depredado, sujo e muitas vezes irregular – no Ensino Médio, a escola onde estudei foi processada porque existia um alto risco de incêndio devido as muitas falhas no sistema elétrico, e não havia qualquer estrutura para combatê-los ou mesmo um sistema de fuga minimamente seguro para os alunos em caso de fuga.

Eu odiava a escola, mas ela parecia me odiar também – ou NOS odiar. As paredes altas com cores frias, as janelas cobertas por grades que impedem a passagem da luz, os muros de concreto rabiscados com falsos ideais educacionais, o cansaço estampado na cara dos professores, a exaustão nítida na cara de cada funcionário, o olhar perdido e o andar ansioso dos alunos que tentam de alguma forma sobreviver – tudo que existe, existe pra te lembrar o quão falho, cruel e indiferente é o nosso sistema educacional, não importando se você é aluno ou professor, ele vai tentar te moer.

E eu não me iludo pensando que a situação é diferente nos colégios particulares, tá? Atrás daquela fachada bonita com um letreiro chique em algum bairro elitizado, dentro daquelas salas enormes com ar condicionado e lousa digital, existe um sistema igualmente cruel que mercantiliza a educação e a transforma em um tipo de ensino bancário, altamente burocrático e autoritário, produzindo aqueles seres humanos que pensam ser ricos porque dirigem uma HB20 branca, moram em Tatuapé e comem chimeji três vezes na semana enquanto celebram a necropolítica – como se também não fossem alvos dela – e debocham dessa gripezinha – como se não estivessem sujeitos a ela, e dispusessem de todos os meios necessários para enfrentá-la.

No fim, todos odeiam ir para a escola.
E é impossível não odiar o resultado de muitas delas também.

All in all, we’re just another brick in the wall (Foto: Reprodução/Pink Floyd The Wall)

Na contramão dessa “pedagogia“, que de pedagógica não tem nada, há uma teorização moderna voltada para um prática educativo-crítica, sensibilizada e, acima de tudo, libertadora. Em Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire diz que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção ou construção“. É a defesa de uma prática crítica e progressista por oposição ao sistema vigente de adestramento, onde o aluno apenas é ensinado a repetir o que o professor diz. E eu não tô embarcando nessa conspiração olavista absurda e fora da realidade de marximo cultural, doutrinação comunista e outras coisas que só existem na cabeça da extrema direita. Mas é que nosso sistema não ensina o aluno a pensar ou questionar, e isso não poderia ser mais problemático.

A educação deve sempre estimular a inquietação, a criatividade e a persistência muito além de uma cultura de enciclopédia, onde o estudante apenas decora alguns conteúdos para logo depois esquecer quase todos, guardando talvez só aquilo que vai servir para ele em sua profissão – isso, claro, quando o aluno chega ao fim do ciclo estudantil básico sabendo o que quer que seja sua profissão.

Rubem Alves dizia que um dos objetivos da escola deve ser sempre excitar a inteligência e a sensibilidade, gerando paixão pelo conhecimento e um espanto ao descobrir como o mundo funciona. Assim, o objetivo final da escola não é dar respostas, mas gerar dúvidas, ensinar a questionar e acima de tudo, associar o ensino aos problemas do cotidiano do aluno, fazendo-o encontrar respostas para os dilemas sociais impostos, derrubando todo tipo de barreira que ainda impeça o acesso a educação e fazendo dela uma ferramenta para promover a igualdade entre indivíduos de diferentes classes. A educação sempre deve estar na linha de frente do combate a desigualdade social – ao contrário do que um certo ex-ministro andou falando por aí há alguns meses, mas isso não vem ao caso, ao menos não nesse artigo.

We don’t need no thought control (Foto: Pink Floyd The Wall/Reprodução)

Não é tão difícil notar o abismo que existe entre os ideais teórico-pedagógicos e a realidade de um sistema indiferente e burocrático. E talvez a melhor metáfora para isso esteja presente no musical Pink Floyd The Wall, de Alan Parker, quando o protagonista relembra alguns momentos traumáticos de sua infância na década de 50, dentre os quais um deles é protagonizado por um professor frustrado e desiludido, vítima do sistema de crenças políticas imposto pelo primeiro-ministro Anthony Eden, herança de Winston Churchill. No fundo da sala, Pink escrevia seus poemas enquanto o professor ensinava geometria plana. É quando o professor percebe a distração de Pink, toma seu caderno e lê seus poemas enquanto toda a sala ri do menino.

O caderno volta para as mãos de seu dono alguns minutos depois, acompanhado de um conselho que pessoalmente já ouvi mais de uma vez dentro das quatro paredes da escola: esqueça os poemas, esqueça a poesia, esqueça a arte, esqueça tudo. Só o trabalho importa. É esse o pragmatismo que elimina a individualidade do sujeito. Na sequência, Pink visualiza seus colegas de sala marchando em direção a uma engrenagem e saindo todo padronizados, sentado em carteiras com máscaras no rosto, e marcham até caírem em um moedor de carne.

Como em uma linha de produção industrial, os alunos não são mais do que apenas matéria-prima – ou, como diz a canção que embala o momento, não são mais do que apenas mais um tijolo no muro. Destituída de seu propósito, a escola se torna uma fábrica de autómatos produzidos em larga escala prontos para obedecer a qualquer ordem que lhes seja passada. É bizarro pensar em como ficou difícil diferenciar os robôs das pessoas reais no Twitter, por exemplo.

And the worms ate into his brain (Foto: Pink Floyd The Wall/Reprodução)

O discurso binário, prepotente e cheio de espantalhos argumentativos resumidos em quatro letras – normalmente “e o PT?” – até alguns meses atrás era característica exclusiva de bots programados pra inflar o índice de aprovação do presidente nas redes sociais. Acontece que com o passar do tempo a coisa ficou mais assustadora e de repente esse foi o discurso adotado também pelas pessoas. Há algumas semanas ouvi um cara dizer que foi o Paulo Freire quem assinou a cartilha gay enviada pras escolas durante o governo Dilma. Eu nem tentei questionar. É que algumas pessoas já estão tão cauterizadas, tão integradas à máquina que aceitam qualquer coisa vinda dela e estão dispostas a comprar qualquer briga para defendê-la, mesmo que seja contra a realidade.

Ao fim da saga de Pink, após ser julgado por si mesmo, ele é sentenciado à pena máxima: se expor diante dos outros. Assim, o muro de ideias deturpadas e mentiras que construiu em volta de si simplesmente explode, revelando o verdadeiro Pink ao mundo. É uma ideia de superação, de encontro com a verdade, de superação sobre tudo aquilo que o muro representava. A cena é sobre cair em si e finalmente ver o mundo ao redor, bem como seu real lugar dentro dele. É bonito, é explosivo, é quase apoteótico. Mas acima de tudo, receio que seja romântico demais.

Somos criados dentro de um sistema intencionalmente precarizado que tenta te aprisionar, te industrializar, te consumir e te moer. E não é como se existisse uma preocupação tão grande em relação a isso – não que isso seja surpreendente, claro. Dentro de uma estrutura de governo tão próxima do fascismo, quanto menos perguntas forem feitas melhor. Mas isso não muda a necessidade por uma educação verdadeiramente libertadora.

E, se posso ser pessimista por um instante, enquanto a educação não for pauta prioritária, estaremos presos aos mesmos ciclos. Bolsonaros continuarão sendo eleitos pelo morador de Tatuapé que acredita estar salvando o país de um fantasma que só existe na sua cabeça, enquanto desce a Paulista com seu HB20 pra comer chimeji pensando ser o Gates da Microsoft, sem perceber que está muito mais próximo da Dona Maria da Mercearia.

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