A melancolia pode ser uma sensação confusa. Quando você passa boa parte do tempo se sentindo um lixo, é difícil não se questionar: “O que tem de errado comigo?”. Quando os remédios deixam de ser o suficiente para responder a essa pergunta, a arte pode oferecer algum refúgio. Todo mundo já ouviu a história do artista com uma vida sofrida ou uma doença mental, e que mesmo assim cria uma obra incrível. O exemplo mais conhecido talvez seja Van Gogh. O pintor holandês, que sofria de distúrbios psicóticos e depressão, chegou a cortar um pedaço da própria orelha durante uma discussão com um amigo. Ele fazia parte do movimento pós-impressionista, o que fazia com que ele pudesse simplesmente abrir mão da forma e da perfeição para trabalhar mais com a luz e as cores em uma obra.

Alguns estudos feitos em cima de sua obra mais famosa, A Noite Estrelada, revelam que a noção de movimento dada pelas pinceladas de Van Gogh seriam a melhor representação já feita de como um fluxo turbulento se comporta na mecânica de fluídos. O comportamento extremamente complexo de uma turbulência – até hoje o único mistério não resolvido da Física Clássica – foi representado quase em perfeição matemática na época mais difícil da vida do pintor. Mas é óbvio que isso não é uma exclusividade. Quer dizer, não há notícia de outro artista que tenha criado representações físicas tão fidedignas tão antecipadamente quanto Van Gogh. Mas se tratando exclusivamente de arte, ele não foi primeiro – e com certeza não foi o último – a fazer uso dela para representar o mundo que enxergava.

Van Gogh: Self Portrait as a Painter (Van Gogh Museum, Amsterdam)

Toda manifestação artística nasce do sentimento do criador. Em 1872, Charles Darwin escreveu A Expressão das Emoções nos Homens e Animais, onde defendia que existe uma coisa que liga todos os indivíduos da espécie humana, uma coisa universal sempre expressa do mesmo jeito, independente de etnia ou cultura: as emoções. Assim, a arte é esse subproduto do que move nosso consciente inconsciente. A arte faz parte do nosso cotidiano: por mais difícil que seja explicar o papel do artista, é quase impossível imaginar um mundo sem arte. Se o artista é aquele que se expressa, para ser artista, basta ser humano

As emoções nos tornam iguais e colocam todos os seres humanos numa mesma posição. Mas seriam as emoções o que nos torna humanos? Blade Runner é um filme de 1982 sobre uma sociedade futurista que cultiva seres humanos artificiais, os chamados replicantes, e ele parte de um pressuposto parecido: se uma máquina tivesse sentimentos, isso faria dela humana? Roy Batty, um dos replicantes fugitivos interpretado por Rutger Hauer, demonstra uma humanidade e uma sensibilidade que por muitas vezes parecem faltar no coração dos próprios humanos dentro do universo criado por Phillip K. Dick em um monólogo histórico minutos antes de sua morte: “Eu vi coisas que as pessoas não acreditariam. Naves de ataque ardendo em chamas nas fronteiras de Orion. Eu vi Raios-C brilharem na escuridão próximos ao Portão de Tanhauser. Todos esses momentos vão se perder no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”.

Talvez a consciência da própria finitude seja o que torna os seres humanos tão humanos e tão iguais, no fim das contas, e as emoções sejam apenas reflexos de tudo aquilo que queremos ou podemos ser enquanto a hora não chega. Assim, Darwin estaria correto ao afirmar que, independentemente de onde estejamos, nossas emoções no tornam iguais. No fim das contas, o que todos querem é sentir que estão vivos, e que estar vivo vale a pena. Somente assim poderemos esquecer que todos temos o mesmo destino. Mas por que pensar nisso parece tão desconfortável?

Roy Batty e as lágrimas na chuva (Foto: Reprodução/Blade Runner)

Na mitologia grega, Cronos era o deus do tempo, e um dia recebeu uma profecia: ele seria traído por alguém da própria família. Paranoico e ameaçado, Cronos engoliu todos os seus filhos. Ou quase todos. Um deles conseguiu escapar com a ajuda de Reia, sua mãe. Ele se chamava Zeus. Exilado e escondido, Zeus cresceu e decidiu buscar vingança. Deu ao pai uma poção que o fez vomitar os seus irmãos, se uniu a eles e derrotou o titã deus do tempo, e por ter derrotado o próprio tempo, Zeus se tornou imortal. Mas a narrativa fica um tanto irônica quando pensamos que sua vida eterna lhe serviu apenas para perceber que, embora tenha vencido uma batalha, ele havia perdido a guerra.

Para pessoas como eu e você, Zeus não representa uma ameaça. Tomar um raio não parece nada agradável, mas em tempos de quarentena e isolamento, estamos protegidos da chuva, então vai ficar tudo bem. Por outro lado, Cronos consome cada dia de nossas vidas. Cronofobia é o nome que se dá a essa sensação angustiante de que o tempo passa cada vez mais rápido, os dias são cada vez menores, e as coisas simplesmente não mudam. Talvez isso explique por que é tão difícil pensar que a morte também faz parte do ciclo da vida e porque pensar nisso soa sempre tão desagradável.

Mas existe algo ainda pior, e para isso quero retomar o exemplo dado nas primeiras linhas desse texto, aquele mesmo, o artista com uma vida sofrida ou uma doença mental que cria algo extraordinário, o momento em que a depressão tira o pincel das mãos do artista para pintar a si mesma em tudo o que se cria e mancha a tela até que todas as outras cores sejam apagadas e se tornem nada. Ainda pior do que pensar na própria finitude é enxergá-la como única saída para a dor de existir. Se as cores quentes de verões passados regados a abraços e sorrisos uma vez foram a lembrança da vontade abraçar o mundo viajante e viver, a frieza das cores escuras são um lembrete cruel e constante de que nada disso importa, já que nunca serei o suficiente.

A antítese aqui é que o verão veio muito antes do inverno, mas as cores que o inverno traz com a impetuosidade de um céu escuro te faz questionar se você merece outra estação. Aos poucos, as coisas mais importantes da vida perdem o valor. “A depressão é como um cadáver que sorri de volta para quem olhar”, diria o Ludo. Ela se manifesta de diferentes maneiras em cada pessoa, mas tudo parece começar na mesma pergunta: “E se eu deixasse de existir?”.

Chester é o artista que transcende a própria dor (Foto: Reprodução/One More Light Live)

Durante a campanha de promoção do single Heavy, Chester Bennington refletiu um pouco sobre o que sentia e pensava a respeito da depressão e de si mesmo em entrevista a uma rádio norte-americana. “Não sei se alguém se identifica, mas eu tenho problemas com a vida. Às vezes é ótima, mas muitas vezes é difícil e não importa como eu esteja me sentindo, eu me vejo preso na mesma coisa que continua se repetindo de novo e de novo, e eu fico tipo ‘Como eu termino isso?’. Esse lugar aqui, esse crânio entre minhas orelhas, essa não é uma boa vizinhança, e eu não deveria ficar aqui sozinho. Há um Chester na minha mente que quer me derrubar.”.

O entrevistador comenta que Heavy parece falar sobre essa parte ruim de Chester. O cantor concordou. “No último ano, estive arruinado. Acho que muita gente ainda pensa que, quando você é ‘bem-sucedido’, você recebe um cartão dizendo que será satisfeito e plenamente feliz pelo resto da sua vida, mas não é assim. A única diferença é que sou do Linkin Park. O que se passa na minha cabeça é sempre a mesma coisa, e minha cabeça é uma bagunça. É de onde tiro inspiração para essas músicas.”.

Heavy foi lançada em 16 de fevereiro de 2017, e era parte do setlist do álbum One More Light, lançado três meses depois, em 19 de maio. No dia 20 de julho, Chester foi encontrado morto. A causa: suicídio por enforcamento. Sua arte era também um pedido de socorro, um grito de emoções que precisavam de ajuda. O fato é que ninguém se suicida para fugir da vida. A vida é boa. A vida de Chester era boa. Quando as pessoas se suicidam, se suicidam para fugir da dor.

Fugir da dor é um dos grandes anseios da experiência humana – e um dos mais complexos. É inquestionável: cedo ou tarde, todos provaremos do sofrimento. A morte levará um ente querido, o relacionamento dos sonhos se transformará nas cinzas de um pesadelo, a amizade construída ao longo de anos ruirá num piscar de olhos. O sofrimento é uma condição inerente ao ser humano. Mas o que podemos fazer com ele? Quando a vida nos faz algo, o que podemos fazer dela? Muita gente camufla sua dor com o humor, mas quando a dor ofusca a existência, a piada começa a perder a graça. Precisamos tratar com seriedade.

Piaf, o cor de rosa dos tempos preto-e-branco (Foto: Reprodução/Os Últimos Dias de um Ícone)

La Vie en Rose é uma das músicas mais gravadas de todos os tempos. Em uma rápida busca no YouTube, pode se encontrar mais de 7 mil diferentes versões. Ela foi composta em 1943 por uma cantora francesa chamada Édith Piaf quando a França foi tomada pelos nazistas. Em meio ao desespero agônico de viver sitiado pelo exército de Hitler, Piaf escreve uma canção sobre a vida em cor de rosa e descrevem como a presença e as palavras de uma pessoa amada transformam um quadro frio cinza em algo mágico e colorido outra vez. Sua canção foi gravada em 1947 e foi uma das canções mais populares em diversos países pelo mundo, inclusive no Brasil, onde La Vie en Rose foi o disco mais vendido em 1949 – as coisas demoravam um pouco para chegar aqui.

Piaf não teve uma vida muito fácil. Sua mãe a abandonou quando nasceu. Seu pai se alistou para a Primeira Guerra Mundial. Foi criada pela avó, que era dona de um prostíbulo. Sem pai nem mãe, Édith foi criada pelas prostitutas pobres do bordel. Aos 13 anos, sofreu uma infecção ocular e passou 4 anos sem poder enxergar. O tempo passou, e Édith começou a cantar nas ruas com uma amiga para ganhar algum dinheiro. Foi descoberta nas ruas por Louis La-Plac, dono de uma casa noturna bem popular na época. Quando enfim começou a fazer sucesso, La-Plac foi assassinado, e Piaf era a principal suspeita, mas foi inocentada pelo júri. É quando começa a Segunda Guerra e a França é invadida pela Alemanha Nazista – e ela simplesmente continua cantando. Quando a guerra enfim termina e o país começa a ser reconstruído, ela lança essa canção falando sobre fugir da dureza da vida real para um lugar maravilhoso através do amor.

Mas ela não foi a única.

Louis Armstrong costuma ser lembrado pela canção What a Wonderful World, mas o trompetista foi um dos vários músicos a regravarem a canção de Piaf, e sua história é igualmente especial. Sua mãe o teve aos 16 e seu pai o abandonou logo em seguida. Criado pela avó, Louis vivia na pobreza dos guetos de Nova Orleans. Aos 6 anos, começa a aprender sobre música e literatura na escola local enquanto trabalha carregando carvão para não passar fome. Também vendia restos de comida que encontrava no lixo para prostitutas apenas para conseguir algum dinheiro para sustentar sua mãe – que retornara quando o menino tinha por volta de 9 anos – e sua irmã. Com mais alguns meninos de sua rua, Louis forma um grupo de vozes que se apresenta em pequenas lojas e restaurantes em troca de comida, mas a chegada da adolescência traz alguns problemas.

Ele abandona a escola e passa a se envolver com roubos e assaltos. É preso aos 11 anos de idade e enviado para uma casa de detenção para negros, onde encontra alguns instrumentos e meninos que queriam aprender música junto com Peter Davis, um professor muito conhecido na época pela sua rigorosidade. Através da arte, Louis se torna um trompetista fabuloso, extremamente técnico e inventivo. Ao sair do reformatório, se consolida como um dos trompetistas mais requisitados de Nova Orleans, formando sua própria banda pouco tempo depois e trazendo de volta a cantoria de quando ainda era menino.

Louis Armstrong tocando La Vie en Rose na RDA durante a Guerra Fria (Foto: Reprodução/Cold War in Full Swing)

Não seria mentira dizer que Piaf era uma menina cega e abandonada vivendo em um prostíbulo barato num país arrasado pela guerra. E não seria errado dizer que Louis era um jovem delinquente vivendo em um bairro miserável em uma América essencialmente racista. Então por que eles cantavam sobre uma vida tão maravilhosa, tão cor de rosa, tão livre das cores da dor, do inverno e da depressão? Talvez porque os problemas que o mundo os fez enfrentar não delimitaram tudo o que eles eram. Não fosse o rigor de seu professor, talvez Louis continuasse no mundo do crime. Não fosse todo o tempo cantando nas ruas, talvez Piaf tivesse o mesmo destino das mulheres que conheceu em sua infância.

Segundo o argumento de Darwin, a arte é o subproduto das emoções, sejam elas boas ou ruins. O impressionista Van Gogh, o androide Roy Batty, o vocalista Chester Bennington, o trompetista Louis Armstrong, a cantora Édith Piaf – mesmo com diferenças tão gritantes, todos foram eloquentes ao transformar suas emoções, suas expressões na mais profunda e sincera forma de arte, mesmo que nem todos tenham sido ouvidos como e quando deveriam. Através da arte, todos eles encontraram um lugar para esquecer as desgraças da vida – que não eram poucas. Mais do que isso, encontraram também um meio de superar e ressignificar essas desgraças e transformar a realidade. A arte, com todo seu poder de expressão e significado, é uma ferramenta irrefreável e infalível para transformar as coisas.

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