Faltava pouco pro dia 12, eu tava rascunhando um artigo sobre as representações do amor na arte – principalmente no cinema -, e acabei lembrando de 500 Dias com Ela. Esse é mais um dos casos de um filme que eu não assistia há anos e tinha memórias completamente parciais pelo jeito que eu pensava na época. Pra ser sincero, fui rever com a impressão de que acharia bem ruim, mas acabei vendo algo só um pouco confuso naquilo que tenta ser.

Em alguns momentos, eu percebo genuinamente algo desenvolvido de maneira sutil nas atitudes da Summer, mas isso não diminui o fato de que o protagonista passa o filme inteiro buscando algo idealizado na cabeça dele. Parece ser exatamente isso que o filme tenta criticar no subtexto, mas ele termina com uma cena literalmente reiniciando esse ciclo.

Eu lembro claramente de como esse foi, num dado momento da minha vida onde eu era mais novo e me sentia mal emocionalmente por um pé-na-bunda – sentimento exponencialmente potencializado porque quando você tem 18 ou menos tudo parece muito pior do que realmente é -, um filme que causou uma catarse enorme, o que pra mim é bem longe do ideal.

O filme ironicamente se torna uma das (não poucas) peças de mídia que, intencionalmente ou não, reforçam essa cultura de que as pessoas só se completam quando estão dentro de um relacionamento, o que por sua vez leva pessoas a procurarem um parceiro para suprir uma necessidade que elas tem certeza que tem. O resultado são relacionamentos por comodidade, muitas vezes abusivos por conta dos ideais de posse que esses relações normalmente carregam – e isso vale para os dois lados.

Tom Hansen e Summer Finn antes dos 500 dias (Foto: Reprodução/500 Dias com Ela)

As gerações que vieram antes da gente foram criadas basicamente pra casar cedo, trabalhar, comprar uma casa e sustentar uma família. Só que os tempos mudam. Os tempos mudam e a gente percebe isso quando vê uma velhinha de 70 anos como uma senhorinha muito simpática com quem conversei no ônibus uma vez dizendo que “o romantismo tá morto“. E ela com certeza não é a única que pensa assim. Existe uma corrente de sociólogos modernos que apontam como as relações humanas estão passando por um ponto de decadência, como se a tecnologia estivesse mudando a forma como a gente se relaciona.

Ao mesmo tempo que aplicativos como o Tinder, o Happn ou mesmo o WhatsApp facilitam que a gente fale com alguém sem a insegurança e o medo da rejeição que existe em um encontro, eles também facilitam o contrário: fica muito mais fácil acabar com uma relação. Assim, vivemos em um tipo de modernidade líquida, onde os laços humanos são muito frágeis e o significado de amor já é muito diferente.

O sociólogo Zygmunt Bauman chamou esse fenômeno de Amor Líquido. Pra entender o que ele quis dizer com isso, primeiro a gente tem que entender a definição clássica, aquela que nasce muito antes da tecnologia, de amor. Um bom começo pra isso seria a obra clássica do poeta alemão Johann W. Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther. Esse livro teve um impacto enorme sobre a forma de pensar e sentir o mundo, e é uma historia meio auto-biográfica do autor.

Goethe trabalhava em um tribunal de justiça na época, e teria se apaixonado por uma mulher que por um acaso era noiva de um amigo. O personagem Werther teria nascido como um reflexo desse sentimento. Ele descreve cada momento deles juntos com um romantismo poético muito bonito de se ler, e até as características e ações mais normais ganham aquele traço extraordinário que você vê poucas vezes em um livro. Werther chega ao ponto de não conseguir criar mais nada, já que nada do que ele escrevesse seria digno ou capaz de descrever aquilo que sentia.

Tudo parece muito lindo, eu sei, mas o final da história não é bem assim. Werther acaba sendo rejeitado e comete suicídio. A dor de perder aquele amor extremamente romantizado é tão grande que a única saída que ele encontra é a morte. Foi um final bastante pesado, e pela popularidade que o livro ganhou na época, acabou sendo gatilho para uma série de suicídios ao redor do mundo, caracterizando o chamado Efeito Werther, quando um suicídio acaba influenciando vários outros.

O jovem Goethe num vislumbre de sua amada (Foto: Reprodução/Goethe!)

Hoje em dia já é bem mais difícil imaginar uma história romântica dramática desse jeito. Histórias de amor como a do Werther são muito mais difíceis de conceber na modernidade líquida. O que Bauman quer dizer com essa expressão é que nada é sólido no mundo moderno. As relações humanas na modernidade são marcadas pela efemeridade e pela inconstância. É fácil se conectar e fazer amigos, mas o maior atrativo é sempre a facilidade de se desconectar.

O conceito de uma “relação de bolso” remete a essa publicidade de querer se completar com alguém aproveitando toda a segurança e o status que isso oferece, mas querer se livrar dessa conexão assim que ela oferecer algum custo a liberdade individual ou qualquer problema que seja. Da mesma forma que um celular ou qualquer outro aparelho perfeitamente funcional é trocado por outro melhor e mais novo, uma pessoa também pode ser.

Segundo Bauman, o amor real pode ser comparado a morte: a chegada de um dos dois é sempre única e definitiva, e não seria possível amar duas vezes, assim como não é possível morrer duas vezes. Óbvio que muitos vão dizer que já se apaixonaram mais de uma vez. E provavelmente se apaixonaram mesmo. Mas quando Bauman vê isso, ele diz que, ao invés de ter mais gente alcançando padrões elevados de amor, esses padrões só se rebaixam, e o resultado é que o conjunto de experiências que a gente enquadra como amor é muito maior do que era antes. Eu não concordo exatamente com essa afirmação, mas já que a gente fala sobre isso.

Theodore Twombly, protagonista de Her, filme de temática parecida onde o protagonista namora o próprio computador (Foto: Reprodução/Her)

O ponto é que ele tá extremamente certo quando diz que a cultura de consumo afeta diretamente a forma como nos relacionamos. É engraçado, e ao mesmo tempo meio bizarro, que logo depois de ter uma combinação com alguém no Tinder, existe a opção de “continuar passando”. Isso não é muito diferente de um botão de “voltar pra loja” depois de uma compra. Quando abro o Twitter de alguém com uma timeline bem diferente da minha bolha, o que mais vejo é gente um pouco mais nova que eu dando retweet em foto de casal na cama em lugar bonito e me parece que pra uma maioria não existe uma diferença da foto pra realidade. O post no Twitter é a realidade vivida.

Eu ainda quero e vou escrever um texto com algumas obras melhores, mais contextualizadas e uma discussão mais profunda sobre o que a arte pode nos responder sobre o que chamamos de amor, mas é que senti a necessidade de quebrar um pouco o tipo de texto que normalmente faço pra costurar algumas ideias e questionar essa cultura tão difundida de que só se encontra a felicidade com outra pessoa ou qualquer coisa parecida.

E na verdade, essa concepção não é exatamente nova, e já é explorada há algum tempo, desde “eu quero segurar a sua mão” na era dos Beatles – não com a ideia de segurar a mão de uma pessoa específica, mas a mão de qualquer uma que estivesse ouvindo -, passando pela geração Backstreet Boys – com bandas compostas por caras jovens e convencionalmente atraentes que pelo menos fingiam que sabiam cantar – até chegar na modernidade líquida – onde essas figuras ganham a forma de influencers de Instagram e de apps como o TikTok, infestado por meninas bem novas e impressionáveis e por essas pessoas que estão numa busca incessante por números.

Mas acho que meu maior problema com as redes sociais no geral é a forma quase desesperada com que se procura uma auto-afirmação dentro delas. É muito comum que, usando um aplicativo de relacionamento, a gente procure muito mais um reflexo de si mesmo do que uma pessoa de verdade. Essa maneira narcisista de se relacionar é um reflexo de uma insegurança do ego que quer se reafirmar usando outra pessoa. Isso é meio inconsciente e muito difícil de evitar, mas o fato é que o amor não funciona assim.

Joel e Clementine (O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) quando aceitam que o amor não é um conto de fadas
(Foto: Reprodução/O Brilho Eterno de uma Mente sem Lemranças)

Relações reais e orgânicas acontecem entre pessoas muito diferentes e com visões de mundo e opiniões que normalmente são o contrário da nossa, mas que de alguma forma, ainda nos completam por algum motivo. Deve parecer que eu tô colocando toda a culpa no colo do Tinder, mas na verdade até o modelo clássico de amor romântico pode ser um problema. Ele é uma peça do passado e tem uma tendência muito forte a se tornar abusivo em algum momento. E o Goethe enxergou isso muito bem.

No fim do livro, o comportamento do Werther atinge níveis extremamente abusivos, e o amor romântico mostra seu lado mais possessivo e auto destrutivo. O suicídio no final da história é a maior demonstração possível de falha desse modelo idealizado de uma relação. Goethe era absolutamente contra o amor romântico, e enxergou que o romantismo tenta congelar o tempo em um momento em que tudo é leve e bonito em uma relação e cria uma expectativa de que ela vai ser sempre assim, quando na verdade uma relação real não poderia estar mais distante disso. Existem pesos, discussões e muitas inseguranças em qualquer ambiente formado por duas pessoas. E sobre isso, Bauman escreve: “Amar significa abrir-se ao destino, uma união de medo e prazer num amálgama irreversível“.

Pra confiar e contar com alguém, você não precisa se sentir dono dessa pessoa. Esse não sou eu tentando dizer que a solução pra todos os problemas da humanidade é uma grande sociedade poliamor. Na verdade, esse artigo todo é só pra te falar que, como diria o Peters, a fonte de inspiração pra muito do que foi costurado aqui, “se você sair pra encontrar alguém tentando achar o que não tem, talvez acabe por ficar sem“.

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